Quando a chuva chega, os moradores das margens do riacho Lava Tripas em Olinda, um afluente do rio Beberibe, já sabem que os transtornos vão se repetir. Mas é próximo à nascente, em um território com aproximadamente dois mil habitantes, que as consequências da falta de políticas públicas é percebida mais claramente. Na terceira reportagem da série A Olinda que a prefeitura esqueceu, vamos conhecer como é a vida em um dos bairros da cidade que mais sofrem a falta de serviços e infra-estrutura.

Ao percorrer a rua Gibraltar, principal via do Córrego da Bondade e que leva à nascente do rio, a paisagem vai mudando e os problemas se tornam aparentes. As construções se misturam com a vegetação crescida. O acesso é esburacado e não há calçamento. A rua está sempre encharcada porque a água do rio não tem para onde escoar. Os moradores não têm acesso à saúde. Não há creches onde as mães podem deixar as crianças. Estas não tem onde brincar. Para pegar o transporte, há quem precise andar mais de um quilômetro, subindo e descendo ladeiras ou escadarias, para chegar na avenida.

Essas são algumas queixas dos moradores deste lugar que outrora era marcado por abundância de água e vegetação. A dona de casa Vera Lúcia, de 51 anos, nasceu, cresceu, criou os cinco filhos e agora, cria os netos no bairro. Com o passar dos anos, ela acompanhou outras localidades da região se transformarem, menos o entorno do riacho. “A gente anda aqui com muita lama, com muita dificuldade para tudo. Quando chove, a gente anda com os filhos e netos nas costas para levar até o caminho da escola, porque a água dá até em cima quando o rio está estourado”, lamenta.

A única escola municipal que atendia a comunidade foi fechada e, agora, as crianças precisam percorrer aproximadamente quatro quilômetros em um ônibus da prefeitura para terem acesso ao ensino municipal. “Nós levamos eles lá para o outro lado da pista, aí tem um ônibus da prefeitura que vem buscar, que é um descaso também o ônibus, muita criança em cima da outra. A gente se preocupa, infelizmente a gente tem que deixar, mas é um descaso muito grande”, descreve.

Crescimento desenfreado

O borracheiro Jair de Barros tem 53 anos de memórias e histórias na comunidade. Atualmente, ele mora em Aldeia, na cidade de Camaragibe, mas toda semana vai ao Córrego para visitar a mãe e os parentes, afinal são pelo menos 100 pessoas da sua família morando por lá. “Quando chove aqui eu fico pensando logo na minha mãe, porque minha mãe tem 71 anos, já é debilitada, não tem aquela disposição que a gente mais jovem tem. Ela não quer sair daqui, a riqueza que eu acho que eu tenho é minha mãe, então, eu fico com ela. Esse problema de chuva aqui é o caos”, lamenta Jair.

Nesse rio Jair se divertiu com os amigos na infância e juventude. “Crescer aqui no Córrego foi legal, a gente tinha um clima bom, era uma área que os governantes e até a própria população cuidavam mais. De uns 30 anos pra cá o lugar está abandonado”, relembra.

“Na época a gente tinha um campo aqui, no chamado Córrego dos Índios, então a gente saia para trabalhar pela manhã no rio, à tarde a gente almoçava e depois ia jogar a bolinha da gente, quando terminava de jogar a bola, o chuveiro da gente era o rio mesmo”, relembra.

A Operação Inverno 2024, da prefeitura de Olinda, incluiu açoes de micro e macrodrenagem. Entre eles, a microdrenagem com a limpeza de canaletas e galerias em todos os bairros e a macrodrenagem dos 27 canais do município, incluindo o canal da Malária, no Varadouro; o Ouriço do Mar, em Ouro Preto; e o Lava Tripas, em Peixinhos.

Segundo os moradores, o Córrego dos Índios é o local onde fica exatamente a nascente do rio Lava Tripas e ganhou este nome porque era o local de moradia do povo indígena Tabajara.Hoje, apenas quem é da localidade consegue identificar que, naquele local, inteiramente aterrado, havia uma nascente de águas cristalinas.

Ele atribui uma série de fatores à situação atual do Córrego, entre eles, o crescimento no número de moradias sem a correspondentes políticas públicas para acompanhar a expansão demográfica. A falta de saneamento básico e de galerias de escoamento, faz com que as águas sejam poluídas e transbordem ao menor sinal de chuvas.

A areia do rio era retirada até para o uso em obras ajudou a assorear o curso d’água. “A maioria das casas aqui foram construídas justamente com areia dessa nascente”, conta Jair.

Chuva escancara desigualdades

Em abril deste ano, o Governo Federal divulgou uma nota técnica a partir de um estudo realizado pela Secretaria Especial de Articulação e Monitoramento da Presidência da República apontando 1.942 municípios suscetíveis a desastres relacionados a deslizamentos de terras, alagamentos, enxurradas e inundações.

Pernambuco está entre os cinco estados com a maior proporção da população em áreas de risco. A Bahia ocupa o primeiro lugar com 17,3%, seguida de Espírito Santo com 13,8%, Pernambuco com 11,6%, Minas Gerais com 10,6% e Acre com 9,7%. Só a cidade de Olinda, possui quase 59 mil pessoas em áreas mapeadas com risco geo-hidrológico, ou seja, suscetível a deslizamentos, enxurradas e inundações.

De acordo com o documento, “a urbanização rápida e muitas vezes desordenada, assim como a segregação sócio-territorial, têm levado as populações mais carentes a ocuparem locais inadequados, sujeitos a inundações, deslizamentos de terra e outras ameaças correlatas”. Parece a descrição do Córrego da Bondade e do Lava Tripas.

Raquel Ludemir, gerente de Incidência em Políticas Públicas da Habitat para a Humanidade Brasil, avalia que a falta de políticas de moradia faz com que essas pessoas permaneçam em áreas de risco. “Ninguém está nessa situação porque quer. Está nessa situação porque não tem política de moradia, porque não tem política de regularização fundiária, porque a política de moradia joga essas famílias para longe”, aponta.

“E estando nessas áreas de risco, toda vez que chove, a gente precisa se perguntar quem tem medo da chuva? O que é que vai acontecer? Quem é que deixa de dormir? Ou, por outro lado, quem é que dorme muito bem, muito gostoso na sua casa, sem pingueira, sem goteira. Então, na realidade, os dias de chuva escancaram essas desigualdades”, complementa.

O post A dura rotina dos olindenses que vivem às margens do riacho Lava Tripas, a “nascente do abandono” apareceu primeiro em Marco Zero Conteúdo.

Tags:
Direito à Cidade | Macrodrenagem | Meio Ambiente | olinda