por Beatriz Santana*
Do embate entre tradição e inovação, pulsa uma das manifestações culturais mais vivas e complexas do Brasil: o frevo. Em entrevista, o etnomusicólogo e mestre em música pela Unicamp,
Leonardo Pellegrim, reflete sobre o gênero que, segundo ele, é muito mais do que música: é resistência, invenção e um modo de estar no mundo.
Depois de anos no Conservatório de Tatuí, em São Paulo, onde, paradoxalmente, encontrou um semestre inteiro dedicado à música pernambucana, Leonardo migrou para a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Lá, deparou-se com um ambiente acadêmico que considerou profundamente eurocentrado e pouco aberto à legitimidade da música popular dentro das próprias estruturas. A Universidade Federal, o Departamento de Música, é um ambiente extremamente conservador. Tem gente que não gosta e combate o movimento da música popular, comenta o pesquisador.
Em movimento contrário a essa resistência, Leonardo e o mestre de frevo Nilsinho Amarantes criaram, em 2010, a Orquestra Experimental de Frevo na própria universidade. O objetivo era comprovar que o gênero, ao unir saberes acadêmicos e populares, se renova sem perder sua essência.
O frevo sempre foi resistência
Seja nas ladeiras de Olinda ou nos corredores do campus, o frevo se afirma como um espaço de batalha e permanência. Diante do que Leonardo chama de uma mania de Beethoven, a crença de que a música do mundo é a música da Europa, o gênero pernambucano rompe com o eurocentrismo e mostra-se estruturado, decolonial e antirracista. O frevo acontece musicalmente e politicamente. Sempre viveu nessa luta contra a perspectiva colonial, ao mesmo tempo em que tenta impor e reinventar uma tradição, explica.
Porque o frevo está vivo. E se ele está vivo, ele vai mudar
Para Leonardo, a comunidade do frevo é extremamente apegada à tradição, mas isso não impede que novos artistas tragam oxigênio ao gênero. Ele cita exemplos como Gabi Carvalho, dançarina da Companhia Arte e Folia; Rafael, integrante da banda Frevo de Pau e Corda; e Henrique Albino, que experimenta novas formas no frevo de rua e instrumental. Todos representam a coragem de inovar mesmo diante das críticas internas.
O etnomusicólogo critica a tentativa de institucionalizar o frevo como algo fixo e imutável:
Por que vocês não assumem que é diferente e documentam as diferenças? O gênero vai se perpetuar enquanto vivo. Inovar não mata o frevo. Maestro Formiga e Edson Rodrigues foram inovadores em seu tempo. O próprio Spok muda de opinião conforme a história. O gênero é vivo, sabe?
Leonardo destaca que o diálogo entre o frevo e outros gêneros musicais não é novidade. Já nos anos 1950 e 1960, compositores misturavam elementos de forró em suas composições, e o maestro Edson Rodrigues alternava entre jazz e bossa nova nos bares do Recife Antigo. Essas intersecções, mesmo que veladas, sempre existiram e hoje ganham nova força.
Para ele, o futuro do frevo depende justamente dessa abertura ao diálogo. Ao defender a experimentação como prática natural do gênero, Leonardo reafirma a vitalidade de uma tradição que se mantém pulsante porque nunca para de se reinventar.
* Beatriz Santana é estudante de Jornalismo da UFPE.
As reportagens publicadas aqui fazem parte da parceria entre a Marco Zero Conteúdo e o projeto de extensão Cartografias do Frevo, desenvolvido por professores e alunos do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A iniciativa busca mapear a contemporaneidade do frevo a partir de entrevistas com mestres, músicos, passistas e artistas que reinventam o ritmo.
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