Desde o início de janeiro, a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (ARTESP) encerrou a circulação de micro-ônibus complementares conhecidos como lotações ou peruas nas cidades de Guarulhos e Arujá, na Grande São Paulo. A medida tem provocado reclamações entre moradores que dependiam do serviço para se deslocar diariamente, sobretudo em direção à capital paulista.

Para eles, extinguir o serviço sem ampliar a frota de ônibus acaba penalizando diretamente quem depende do transporte público todos os dias.

Enquanto passageiros reclamam das longas filas nos pontos de ônibus, perueiros organizaram manifestações. O protesto teve início no último dia 8 e desde então a categoria mantém mobilizações em frente à sede da ARTESP, localizada no Itaim Bibi, zona sul de São Paulo. 

Perueiros se manifestam no Terminal Armenia @Ricardo da Silva Barbosa

Como forma de protesto contra a decisão, os motoristas estacionaram seus veículos nas proximidades da entidade. A expectativa é que, nesta sexta-feira (16), o Governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas, apresente um posicionamento aos perueiros.

O auxiliar logístico Mathias Reis, 23, morador do bairro Jurema, em Guarulhos, costumava utilizar a lotação 227, que passava próximo à sua casa, além de outras opções que circulavam pela Via Dutra, rodovia que interliga cidades da região. As linhas eram alternativas para muitos passageiros, pois ofereciam mais possibilidades de conexão entre bairros do que os ônibus convencionais e mais agilidade no trajeto.

Enquanto a viagem entre Guarulhos e São Paulo leva cerca de uma hora de ônibus, com as lotações era possível fazer o percurso em aproximadamente 40 minutos. Na avaliação dele, o serviço também ajudava a organizar a demanda do transporte público.

Quem estava com pressa optava pela lotação, porque sabia que chegaria ao metrô mais rápido do que de ônibus, já que os ônibus enfrentavam todo o trânsito da Dutra. Muitas peruas faziam o trajeto de forma expressa, explica Mathias. Ele destaca ainda que nos horários de pico, os micro-ônibus ajudavam a desafogar os ônibus, distribuindo passageiros em diversas linhas.

Durante a primeira semana do mes, perueiros estacionaram seus veiculos nos terminais de onibus como forma de protesto @Ricardo da Silva Barbosa

O orientador social Ábinu Reis, 28, irmão de Mathias, reforça a importância, especialmente em períodos de trânsito intenso. Ele lembra que, durante as obras na Rodovia Presidente Dutra, os micro-ônibus conseguiam realizar o trajeto até São Paulo sem que os passageiros ficassem presos por horas em congestionamentos. Outro ponto destacado é que o valor da passagem era o mesmo cobrado nos ônibus convencionais.

Sem uma alternativa que substitua o serviço, a tendência é que haja uma piora significativa na qualidade de vida de quem precisa se deslocar diariamente para trabalhar em outra cidade, avalia Ábinu.

Para a vendedora Roseli Balbino, 55, moradora do Jardim Ansalca, em Guarulhos, o fim das lotações causou indignação. Ela acredita que a retirada do serviço deveria ter sido acompanhada da ampliação da frota de ônibus nas linhas afetadas.

‘Agora aumentam a tarifa e tiram o único meio que a gente tinha para chegar mais rápido ao trabalho,

Roseli Balbino, 55

A jornalista Maria Eduarda Mendonça, 23, também de Guarulhos, utilizava com frequência as lotações da linha Vila Moreira, uma das que concentravam mais micro-ônibus e vans no Terminal Armênia. Ela afirma ouvir reclamações constantes de passageiros que não sabem o motivo da suspensão do serviço e relatam a falta de informações claras.

Antes, circulavam pelo menos três ou quatro micro-ônibus da linha 578, além de uma van. Isso ajudava a desafogar o transporte, porque as lotações são mais ágeis no trânsito e reduzem o tempo de deslocamento de quem passa horas no transporte público, afirma.

Sem o serviço, o trajeto ficou mais demorado. Teve um dia em que cheguei ao Terminal Armênia às 19h50 e esperei cerca de meia hora por um ônibus. Quando ele finalmente chegou, ainda levou quase dez minutos para abrir as portas, enquanto a fila dava várias voltas no terminal, relata.

Movimento de passageiros na fila de espera do onibus 578, no Terminal Armenia @Maria Eduarda Mendonca

Mobilidade regional

Ao todo, oito linhas operavam com serviço complementar de micro-ônibus e vans entre São Paulo, Guarulhos e Arujá. São elas:

  • 227 (GuarulhosJardim Leblon / São PauloMetrô Armênia) 
  • 292 (Jardim Angélica / Metrô Armênia)
  • 175 (Cocaia / Metrô Armênia)
  • 341 (Vila Any / Metrô Armênia) 
  • 578 (Vila Moreira / Metrô Armênia) 
  • 266 (Inocoop / Metrô Armênia)
  • 530 (Arujá Parque Rodrigo Barreto / São Paulo Metrô Armênia) 
  • 219 (Santa Isabel Monte Serrat / São Paulo Metrô Armênia)

Diariamente, os 56 perueiros responsáveis pelos trajetos entre os municípios transportavam, em média, 1.200 passageiros em cada lotação. Sem essa opção de transporte, as filas de passageiros nos terminais de ônibus aumentaram significativamente, em especial no Terminal Armênia, na Linha Azul do metrô principal ponto de desembarque de moradores de Guarulhos.

A mudança também atinge usuários de municípios vizinhos, como Arujá e Santa Isabel, que utilizam o mesmo terminal e ficaram sem o serviço de lotação.

O corretor de seguros David Ramos, 31, morador de Arujá, afirma que o trajeto de lotação costumava levar cerca de 50 minutos, já que os veículos utilizavam vias expressas para cumprir o itinerário. Com os ônibus, o tempo de viagem passou para 1h20.

O que diz a ARTESP?

Em nota, a Agência informou que o serviço da Reserva Técnica Operacional – que permitia a circulação das vans – passou por um processo de transição gradual e foi encerrado em 2025. A mudança ocorreu devido a uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), no Recurso Extraordinário nº 1.001.104/SP, que considerou inconstitucionais os contratos firmados sem licitação.

Segundo a ARTESP, a oferta de transporte nas regiões foi reorganizada e os passageiros passaram a ser atendidos por ônibus do sistema metropolitano regular, que operam nos mesmos trajetos.

Agência Mural

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