O buraco da dor é sempre mais embaixo. Mas há quem discorde. Volta e meia, chegam-me anúncios de cursos online para treinar o cérebro contra emoções inúteis. Prometem o milagre desastroso de curar a dor de um fim de amor, affair, obsessão, ou seja lá o nome. Garantem que basta hackear o sistema de recompensa, reprogramar a expectativa, descondicionar os circuitos neurais e, abracadabra, estamos livres do incômodo! A ideia, por mais estúpida que pareça, tem ganhado bastante adesão.

Pode ser hipótese apressada, mas talvez o curso tenha algo a ver com a pesquisa do Pew Research Center, mostrando que 56% dos usuários de aplicativos de namoro sentem que sempre há alguém melhor no cardápio. Essas plataformas não querem que você encontre o grande amor, mas que continue deslizando, experimentando encontros – de preferência, sem sofrer demais entre um match e outro. Para sustentar esse ciclo infinito, talvez só com um cérebro reprogramável mesmo.

Indo além dos afoitos diagnósticos do presente, o desejo de imunidade afetiva intriga não porque revela algo sobre o coração frívolo da nossa época, mas porque significa o fim de uma das culturas mais antigas, belas e férteis que conhecemos: a fossa.

Fossa do latim fossa, buraco, cova é fonte de criação extraordinária. Acabar com ela seria um ecocídio cultural. Fossa existia antes do próprio nome e seguirá firme depois do apocalipse dos apps. Nos anos 1950 e 60, estar na fossa nomeava o estado de melancolia amorosa que Lupicínio Rodrigues fixou em canções de quem sabe do que fala e sente. Foi quem popularizou a dor de cotovelo, a sofrência no balcão do bar. Chegou a propor uma taxonomia: a dor federal, devastadora, que só curava com porre pesado, a estadual, mais suportável, e a municipal, tão chinfrim que nem dava samba. Quanto pior (a dor), melhor (a arte) mote antigo, sabemos.

As rainhas da fossa também sabiam, e sabiam do fracasso (amoroso) em sua força, talvez melhor até que Beckett, hoje tão citado. Nora Ney, com Ninguém Me Ama (1952) Vim pela noite tão longa, de fracasso em fracasso / E hoje, descrente de tudo, me resta o cansaço foi a primeira mulher a ganhar disco de ouro no Brasil. Maysa cantava Demais como quem sangra um lamento denso e rude: Vou passar minha vida esquecendo você. Ângela Maria e sua xará, Angela Ro Ro, que se foi agora, deixando em nós um travo amargo, como costuma acontecer quando as artistas de talento puro. Nora, Maysa e as Angelas são herdeiras de uma tradição que não pede licença nem desculpas pelo ardor, pelo escândalo da intensidade, pelo desespero de perder o prumo, o esteio e o rumo. Cantaram as canções das dores difíceis. Com a soberba de quem afunda pra valer.

Angela Ro Ro viveu a desmesura sem concessões. E com talento de sobra, mandava 40 rosas de uma vez, se declarava do palco. Havia algo de Aquiles naquele excesso o herói irado que Homero colocou no centro da Ilíada pela força com que sentia e se consumia, arrastando todo o seu povo com ele. Os gregos não temiam a emoção desmedida. A força da fraqueza era motivo de canto, e nela se vislumbrava nossa humanidade frágil, teimosa, absurda e indomável.

Da grande família dos intensos também faz parte a autora uruguaia-espanhola Cristina Peri Rossi, que narrou amores lésbicos com uma beleza franca e rara. Rossi falava do final de uma paixão como de um desastre íntimo, como sobreviver a uma queda de avião.

A fossa em música ou poema não é sofrimento a ser aplacado, repelido muito pelo contrário. É um território onde se descobre quem se consegue ser longe das sociabilidades bem aceitas e das intensidades suportáveis. A voz áspera e hipnótica de Angela, tão perfeitamente amalgamada ao som do seu piano, formando um só corpo grave e sentido, nunca prometeu alívio rápido, preferindo a sabedoria que só ganha quem sabe chafurdar na lama da perda, no final bem infeliz do que custa demais a terminar.

Antes de terminar esta crônica, me deixei levar por Angela em entrevistas na TV e, aliás, recomendo. Numa delas, dizia: Eu mesma sou a mulher dos meus sonhos, pois nunca vi uma pessoa passar por tanta coisa numa pequena existência. Estou encantada comigo. Também estamos, do lado de cá, e seguimos encantados com Angela.

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