A história do time de futebol de várzea Jardim São Pedro, em Guaianases, na zona leste de São Paulo, não cabe apenas nos campeonatos. Ela se mistura com as ruas, atravessa gerações e se confunde com a vida de quem carregou esse escudo por décadas na região. Uma das figuras que mais representa essa história é Marcos Paulo Barroso, 50, ou Amaral, como é conhecido.
Ex-jogador de várzea e diretor do time, Amaral cresceu vendo o time fundado em 1968 como extensão da própria família. Ainda criança, ia aos jogos, ajudava no que podia e cresceu dentro desse ambiente, impulsionado por um tio, que ajudava na diretoria nos anos 1970 e 1980.
Amaral segura o prêmio de ‘Melhor Treinador’ do time de várzea @Carlos Pires/Agência Mural
Em campo, foi um atacante trombador, artilheiro e campeão de torneios por diversas equipes, como Tornado, Atalanta e Nerus, mas sempre voltava a ajudar no São Pedro.
Hoje, ele continua na beira do campo, não por obrigação, mas porque, segundo ele, o São Pedro é igual ao Corinthians: até depois do fim, parafraseando uma expressão clássica da torcida alvinegra, que resume o amor pelo futebol.
Diretoria
Amaral assumiu a equipe pela primeira vez em 2005, ao lado de outros três diretores. Vieram pausas, retornos, tentativas frustradas de seguir com o time, que, por diversas vezes, suspendeu atividades e retornou aos campos de várzea. A última delas foi em 2017, quando o Jardim São Pedro voltou de vez.
Hoje ele se divide entre a equipe e uma empresa de reciclagem que mantém junto com a família. Conta que o tempo de jogador ajuda na forma como busca gerir o time.
Mas lamenta as dificuldades. Hoje, o Jardim São Pedro não conta nem com sede própria e, atualmente, os membros se reúnem na frente do CEU Jardim São Pedro. O diretor chegou a recolher latinhas de alumínio para levantar verba para a equipe e hoje ela se mantém exclusivamente da mobilização da comunidade.
A torcida é grande, mas não se envolve no corre, lamenta Amaral, que sonha em trazer os fãs da várzea para ajudar a levantar recursos para o time do coração.
As contas são altas. Alimentação para os integrantes, água, contratação de juiz, inscrição em campeonatos e transporte dos jogadores quase sempre são bancados pela diretoria e por patrocínios pequenos de comerciantes do bairro, que, individualmente, não passam de R$200.
‘A várzea está desigual pra caramba. No geral, 70% dos times vivem uma realidade dura, enquanto apenas 30% conseguem ter a estrutura necessária para se manter competitivos. Se você não paga jogador, não monta time. Não adianta romantizar’
Amaral, diretor do time Jardim São Pedro
Ainda assim, ele afirma que a força do São Pedro está em aproximar gerações: crianças, veteranos e famílias que se encontram e se reencontram nos jogos, ano após ano. O time traz autoestima. Quando o São Pedro ganha, o bairro inteiro cresce junto.
Essa força também tem rendido títulos dentro de campo. Os mais importantes vieram em 2025, com a conquista da Copa Real Sport e da Copa Negritude, além de ter sido finalistas de várias competições nos anos anteriores.
Diretor do time com alguns jogadores @Carlos Pires/Agência Mural
Amaral não acha exagero dizer que o time traz consigo a identidade local. Ele representa a região de Guaianases, Itaquera e São Pedro – todos na zona leste – locais onde faltam serviços e infraestrutura pública, inclusive para o esporte.
Aqui é bairro, mas o time é pobre porque não tem apoio. Quem sustenta somos nós”, diz. Se cada bairro tivesse um campo ou uma quadra boa, a história seria outra. Eles [poder público] ajudam quatro e deixam quatro na miséria.
Talvez seja essa clareza – simples, direta, de quem viveu tudo na prática – explique por que Amaral ainda está ali, ano após ano, mesmo quando faltam recursos, estrutura e reconhecimento para o futebol de várzea.
Ele escolhe insistir: enquanto a gente tiver amor, o Jardim São Pedro não acaba. Aqui é até o fim.
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