Spray de pimenta nos Quatro Cantos, confusão generalizada no Largo do Amparo e um folião baleado no bairro de Guadalupe. A violência, em alguns trechos do cortejo da tradicional Troça Carnavalesca Mista John Travolta, no último domingo (18), no Sítio Histórico de Olinda, é o retrato do que se repete todos os anos nas prévias de Carnaval. Porém, desta vez com um adicional: o aumento do abuso e da truculência por parte da Polícia Militar de Pernambuco, especialmente no desfile de bonecos mais populares.
Com frequência, mesmo sem qualquer motivo aparente, os laranjinhas como é chamado o efetivo recém-egresso dos cursos de formação atravessam as agremiações fazendo uma espécie de cordão e interrompendo não só a dança e a brincadeira, mas as próprias orquestras.
Quando o desfile no boneco azul e branco de franjinha, no domingo (18), passava pelos famosos Quatro Cantos de Olinda, a PM chegou a parar o cortejo usando spray de pimenta na tentativa de conter a multidão, que cantava, em coro, essa cidade vai tremer a galera vai suar, arrea, arrea, arrea, arrea arrea, arrea. A substância atingiu até o maestro Oséas Leão, de 70 anos, à frente orquestra que desfila com o John Travolta, boneco reverenciado por muitas famílias e crianças.
O uso do spray de pimenta foi desproporcional, segundo observação da repórter que aqui escreve, presente em todo o desfile, e também de relatos colhidos pela reportagem. Não havia qualquer sinal de violência por parte do público naquele momento.
Um pouco mais à frente, no início da Rua do Amparo, membros da agremiação relatam que uma policial militar que não foi identificada pela diretoria, mas se dizia no comando do efetivo ameaçou acabar com a festa se o novo boneco não saísse da casa de Sílvio Botelho, “pai dos bonecos gigantes de Olinda”. Era um dia especial para o Jontra. Na comemoração de seus 47 anos, houve a apresentação do novo boneco, confeccionado por Sílvio. Mas, por questões inerentes às grandes festas carnavalescas, a homenagem aconteceu com alguns minutos de atraso.
Em vídeo ao qual a MZ teve acesso, dá para ouvir a PM gritando porra e caralho diversas vezes se dirigindo a membros da agremiação. Na sequência, ela esbraveja se a porra do boneco novo não sair.
Para o presidente da troça, Eraldo José Gomes, este ano houve um aumento da agressividade da corporação. E ele acrescenta: a polícia abandonou o nosso cortejo no meio do caminho, como em 2023, e nunca termina o trabalho dela até o final do desfile. Isso dificulta o nosso trabalho com os foliões que gostam e amam o nosso John Travolta.
Há três anos, após dois anos sem Carnaval por causa da pandemia de covid 19, músicos e foliões do John Travolta foram surpreendidos com um toque de recolher imposto pela PM encerrando o cortejo, sob ameaça de voz de prisão. A MZ publicou reportagem na época, relembre aqui.
John Travolta tradicionalmente reúne famílias e crianças em Olinda. Crédito: Anderson Stevens/cortesia
Filha do presidente Eraldo, Mayara Joanna Gomes, também da diretoria da troça, lamenta a atuação da PM no momento da troca dos bonecos, na Rua do Amparo. Eu lembro que a policial falou ou bota a porra desse boneco para andar ou vou acabar com esse caralho. Em algum momento, ela também falou ou sai agora ou vai dar merda. Não vi necessidade daquilo. Um momento que a gente esperou, que era para ser mágico e de alegria acabou se tornando um caos, relata, frisando que houve muita agressão verbal e que o cacetete da policial terminou atingindo o bonequeiro.
Tínhamos uma surpresa preparada para ser revelada naquele momento. Após meses de trabalho, o John ganhava, pela primeira vez, um irmão gêmeo. A missão era apresentar isso aos foliões durante o cortejo, em frente à casa de Silvio (Botelho). Houve contratempos, como acontece em qualquer manifestação popular de rua. Mas nada que justificasse o que veio a seguir, avalia Vika Lima, que atua na troça.
A partir daí, instalou-se o caos: pressão, ataques verbais, intimidação, medo. O clima era de completo descontrole. Em vários momentos, temi que essa policial partisse fisicamente para cima das pessoas. O que está acontecendo com a Polícia Militar? Estamos regredindo a cada dia? O mínimo respeito não está sendo garantido?, questiona.
John Travolta carrega 47 anos de tradição a partir do trabalho coletivo e do compromisso com o Carnaval de rua. Crédito: Anderson Stevens/cortesia
A agremiação publicou uma carta aberta, nesta segunda (19), em suas redes sociais, sobre os ocorridos do domingo (18).
Repudiamos todo e qualquer tipo de violência. Seja a violência praticada por agentes da Polícia Militar, que desrespeitaram foliões, a diretoria e o nosso boneco símbolo maior da nossa festa, seja por pessoas que provocam brigas e colocam em risco quem está na rua para celebrar. Infelizmente, não foi possível encerrar o cortejo como gostaríamos. A interrupção do percurso aconteceu diante de episódios de violência ao longo do trajeto, e nos solidarizamos profundamente com a pessoa ferida, um folião presente em nossa história, que merece todo respeito e cuidado. Aproveitamos para compartilhar que a grande surpresa deste ano era a chegada do segundo boneco. Um gesto de continuidade e expansão, pensado para que o John Travolta possa alcançar ainda mais espaços.
O final do cortejo foi bruscamente interrompido após um folião e morador do Sítio Histórico ser baleado na Rua Severino Judeu Ramalho, no Guadalupe. Ele fraturou o braço com o impacto do projétil e segue hospitalizado, com quadro estável, aguardando uma cirurgia ortopédica. Em resposta à reportagem, a Polícia Militar informou que até o momento, não há identificação de autoria. Disse também que o caso foi devidamente registrado e encaminhado à Polícia Civil de Pernambuco, que instaurou procedimento investigativo para apurar as circunstâncias do fato.
O rapaz foi acolhido e protegido, durante alguns minutos, por um cordão formado por amigos e outros foliões, porque o Samu, apesar de rapidamente solicitado, não chegou. Somente após pedido do secretário-executivo de Cultura de Olinda, Alexandre Miranda, que acompanhava o desfile, é que integrantes do 1º Batalhão de Polícia Militar, já presentes no local, socorreram a vítima para a UPA de Tabajara e posteriormente encaminharam ao Hospital Miguel Arraes. Nesta terça (20), o folião ferido foi transferido para o Hospital Santo Amaro, área central do Recife.
Poder público um passo atrás de organizar a festa
Diretor da Troça Carnavalesca Mista Cariri Olindense, Patrimônio Vivo de Pernambuco, fundada em 1921, João Nires diz que a truculência da Polícia Militar de Pernambuco nas prévias e no Carnaval não é novidade. Mas ele percebe que o abuso tem se intensificado no ruge-ruge na frente das orquestras. Qualquer coisinha a polícia já chega e já bate. Nas agremiações mais periféricas, isso tem sido uma prática constante, diz.
Novo boneco do John Travolta em frente à sede do Cariri Olindense no bairro de Guadalupe, em Olinda. Crédito: Raíssa Ebrahim/Marco Zero
Mesmo a gente sendo os criadores, organizadores e idealizadores, a festa tem problemas sociais que não cabem a gente resolver, como o controle urbano, de trânsito e de garrafas e a violência. Esses são papéis da prefeitura e do governo do estado. Mas parece que todo ano é uma surpresa quando o Carnaval está chegando. Todo ano tem Carnaval e prévia, mas parece que o poder público sempre é pego de surpresa e está um passo atrás de organizar a festa, opina João.
Para ele, também falta mapear e agir nas zonas de perigo: há locais onde a gente sabe que vai ter problema e confusão. A gente já foge desses locais, mas só quem não vê isso é a polícia, só quem não vê isso é o Estado na hora de nos proteger. Esses e outros fatores são uma eterna ameaça para a festa.
No domingo (18), uma pessoa também foi baleada no Recife, durante o bloco CDU na Folia, quando 20 pessoas foram detidas pela Polícia Militar na capital. No dia seguinte, o secretário de Defesa Social de Pernambuco, Alessandro Carvalho, comentou os casos do Recife e de Olinda. Segundo ele, como são eventos que reúnem muitas pessoas, em determinados momentos, pode ser que aconteça algum tipo de ocorrência.
É uma festa que reúne muitas pessoas. Então, em determinados momentos, pode ser que aconteça algum tipo de ocorrência. Nós trabalhamos para prevenir ou, em ocorrendo, para que a gente dê uma resposta o mais rápido possível, afirmou.
Quem também foi a público comentar os fatos, na segunda (19), foi o diretor de planejamento operacional da PM, coronel João Barros. Ele falou que organizadores de eventos exercem grande influência sobre a segurança pública. Barros garantiu que as ocorrências não tiveram relação com falta de efetivos nas ruas.
Alguns fatos atribuídos a blocos não ocorreram, de fato, durante os desfiles. Um exemplo é o caso de uma pessoa baleada no Vasco da Gama, que aconteceu após o encerramento do bloco, quando já não havia mais foliões no local. O mesmo ocorreu em Olinda, na Joaquim Nabuco, onde o bloco já havia se encerrado. Esses casos estão sob investigação da Polícia Civil, e ainda não há autoria definida, afirmou. Sobre Olinda, no entanto, isso não é verdade, o cortejo do John Travolta seguia ainda seu curso.
Efetivo da PM cresce sem qualidade
Folião e morador de Olinda, Igor Travassos, mostra o que mudou, na opinião dele, em relação a anos anteriores: A diferença para os últimos anos é a quantidade. Não tem como negar que agora o efetivo aumentou, mas a qualidade não seguiu o mesmo caminho. Formam inúmeros policiais e os colocam na rua sem qualquer experiência, parece que eles foram treinados para bater independente de qualquer coisa. O que se viu, em diversos momentos, foram policiais completamente despreparados. E, se você pedisse calma ou tentasse qualquer diálogo, ouvia gritos e mais truculência. A pergunta que fica é: se nas prévias está assim, imagina durante o Carnaval?.
Me espanta a quantidade de efetivo policial sem qualquer inteligência. As câmeras espalhadas pelo Sítio Histórico de Olinda não deveriam ajudar o trabalho policial? Se todo final de semana tem prévias, por que os postos de observação só são colocados no carnaval?, questiona.
E acrescenta: Um outro ponto importante é sobre gestão urbana. Em vários momentos, o empurra-empurra, natural do Carnaval, se intensifica não por causa do frevo ou da multidão, mas por falta de ordenamento urbano, com carros estacionados em vias importantes, ambulantes parados em locais de muita movimentação sem qualquer orientação e inúmeros buracos em todo o Sítio Histórico. Na esquina da Rua José Ramalho com a Orlando Silva, onde aconteceu o tumulto e os disparos, eu vi três policiais caindo seguidamente numa vala aberta. Pode parecer que não, mas tudo isso contribui para que a violência se instaure.
Para a foliã e advogada popular Luana Varejão, somente a presença de efetivo policial não garante a segurança. É importante o policiamento, é importante a segurança pública durante o Carnaval, mas é importante isso ser feito com estratégia, não com a polícia ficando parada, fazendo cordão de isolamento e agredindo as pessoas gratuitamente porque não podem chegar perto dela, mesmo numa situação em que todo mundo está extremamente imprensado.
Ela defende que é possível um outro ordenamento da PM, com o efetivo estrategicamente posicionado perto das paredes e nas laterais dos desfiles, e não no meio dos blocos empurrando as pessoas com cacetete.
O que diz a Polícia Militar de Pernambuco
Em nota à Marco Zero, a PMPE informou que as prévias carnavalescas de Olinda ocorrem desde o dia 7 de setembro, com planejamento operacional contínuo e integrado e justificou o uso de spray de pimenta.
A Polícia Militar de Pernambuco informa que as prévias carnavalescas de Olinda ocorrem desde o dia 7 de setembro, com planejamento operacional contínuo e integrado. Em média, cerca de 250 policiais militares são empregados por evento, com reforço aproximado de 40% no efetivo no Sítio Histórico durante o período pré-carnavalesco, ampliando a presença policial e a capacidade de resposta.
Nos fins de semana e em eventos de maior porte, a atuação proativa da PMPE resulta em intervenções e detenções relacionadas a práticas delituosas e condutas incompatíveis com a ordem pública, com encaminhamento dos envolvidos às autoridades competentes. Sobre o uso de espargidores químicos segue-se a doutrina do uso progressivo da força e é empregado de forma pontual para conter tumultos e evitar agressões mais graves, sempre de maneira escalonada e proporcional.
Sobre a ocorrência registrada no domingo (18/01), até o momento não há identificação de autoria. O caso foi devidamente registrado e encaminhado à Polícia Civil de Pernambuco, que instaurou procedimento investigativo para apurar as circunstâncias do fato. A vítima foi socorrida por uma viatura do 1º BPM para a UPA de Tabajara e, posteriormente, encaminhada ao Hospital Miguel Arraes.
A corporação, no entanto, não respondeu a alguns questionamentos da reportagem: se a policial militar que agiu com violência, segundo os relatos, foi identificada, qual seu nome e patente, o que justifica a prática dos cordões dos laranjinhas no meio dos desfiles e por que ela seria eficaz na avaliação da PM e, por último, por que, durante as prévias, não há, em Olinda, a instalação de postos de observação, como acontece no Carnaval.
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