O jornalista Luan Santos, de 32 anos, recorreu a uma vaquinha virtual para dar continuidade a um capítulo decisivo de sua vida. Desde o dia 7 de dezembro de 2025, ele busca arrecadar R$ 28 mil. O montante destina-se ao pagamento das custas processuais de uma ação que move contra a ex-deputada federal Carla Zambelli (PL-SP). O valor do processo é vultoso: uma indenização de R$ 2 milhões por danos morais. A necessidade da campanha de financiamento coletivo surgiu após a Justiça de São Paulo negar a Luan o benefício da gratuidade, direito concedido a quem não pode arcar com as despesas judiciais sem prejuízo do próprio sustento.
É uma saga, tanto jurídica quanto psicológica, que eu ainda não me recuperei, desabafa Luan, que atualmente está desempregado e enfrentando o que a Agência Pública descreve como uma carga muito grande.
A decisão, assinada pela juíza Luciana Biagio Laquimia, da 17ª Vara Cível de São Paulo, considerou que a renda do jornalista, embora modesta para o padrão de vida paulistano, era significativamente superior à média nacional, o que o tornava apto a custear o processo. Luan conta que seu salário era inferior a R$ 3,8 mil, valor que a justiça considerou suficiente para arcar com as custas. Ele também esclarece que a defensoria pública não atende a casos de danos morais como o seu, o que torna a contratação de um advogado particular a única opção.
O caso envolvendo Luan e Zambelli remonta à tarde de 29 de outubro de 2022, véspera do segundo turno das eleições presidenciais, quando o jornalista foi perseguido por Zambelli, com uma arma em punho, em uma rua dos Jardins, bairro nobre de São Paulo. O que começou como uma discussão política acalorada, motivada pelo boné do MST que Luan usava, escalou para uma cena de faroeste urbano que chocou o país e se tornou um emblema da polarização política. Sou um homem preto e periférico e apontaram uma arma para mim, ele disse à época. As imagens, gravadas por testemunhas e amplamente divulgadas, mostram a parlamentar correndo atrás de Luan, empunhando uma pistola, enquanto seu segurança, o policial militar Valdecir Silva de Lima Dias, dispara. A deputada alegaria, mais tarde, ter sido agredida e empurrada, uma versão que, segundo apurou a Pública no local, foi desmentida por quatro testemunhas.
Luan reforça a conotação racial do ataque: Eu não estava sozinho no dia; eu estava com um amigo meu ao meu lado Esse meu amigo é branco e estava discutindo com ela como eu, e ela foi pra cima de mim Dá pra ter certeza de que tem esse fator racial também. Ele acredita que a presença de testemunhas foi crucial: Por sorte, havia muitas testemunhas ali. Mas se não tivesse talvez eu não estivesse aqui.
A narrativa de Zambelli, de que teria reagido a uma agressão, foi sistematicamente desmontada ao longo das investigações e do processo criminal que se seguiu. Meses depois, em março de 2025, o próprio Jair Bolsonaro culparia Zambelli pela sua derrota nas eleições, afirmando que a imagem da deputada perseguindo Luan com arma em punho tirou sua reeleição. Aquilo teve gente falando: Olha, o Bolsonaro defende o armamento’. Mesmo quem não votou no Lula anulou o voto, declarou o ex-presidente, atualmente preso na Papudinha, em Brasília. A margem de vitória de Lula havia sido apertada: 50,90% contra 49,10% de Bolsonaro, a menor diferença já registrada em eleições presidenciais brasileiras.
Do asfalto ao STF: a inversão de papéis
O episódio da perseguição armada não terminou na calçada da Alameda Lorena, mas se desdobrou com Carla Zambelli, desde o primeiro momento, invertendo a lógica dos fatos e posicionando-se como vítima. Logo após o incidente, ela usou suas redes sociais para afirmar que havia sido atacada por um grupo de apoiadores de seu adversário político. Contudo, o Supremo Tribunal Federal (STF) não corroborou sua versão.
Em agosto de 2025, a deputada foi condenada no STF, por 9 votos a 2, pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e de constrangimento ilegal com emprego de arma. A pena estabelecida foi de cinco anos e três meses de prisão em regime semiaberto, além da perda do mandato parlamentar, a ser efetivada após o esgotamento de todos os recursos. O voto do relator, ministro Gilmar Mendes, foi taxativo ao afirmar que a alegação de Zambelli, de que teria ouvido um disparo e não sabia de onde vinha, não encontra respaldo na dinâmica factual. A ministra Cármen Lúcia classificou a tese da defesa como delirante.
Enquanto a justiça criminal avançava, Zambelli abriu outra frente de batalha: processou Luan por difamação, em razão de um artigo que ele publicou sobre o ocorrido. A deputada obteve uma vitória inicial na primeira instância, mas a defesa de Luan recorreu, processo que ainda tramita na justiça. O jornalista, por sua vez, sentiu na pele as consequências do trauma. A assistência psicológica, eu tive que aumentar as doses de remédios antidepressivos e de ansiedade mudou muita coisa na minha vida”, relata. Ele vê a ação por danos morais como uma forma de reagir: “Eu tomei muita pancada nesses últimos quatro anos… eu preciso também revidar de alguma forma, eu preciso, pelo menos, de alguma forma, ser ressarcido pelo que me causaram e ainda me causam, que são danos psicológicos, afetivos e profissionais.
Com uma meta estabelecida de R$ 28 mil, a vaquinha de Luan tinha alcançado pouco mais de R$ 16 mil até a publicação da reportagem, o que corresponde a 58,52% do valor total necessário. Embora tenha arrecadado mais da metade da meta, a vaquinha ainda necessita de R$ 11 mil para atingir o objetivo. Luan esclarece que o valor é uma condição para que o processo inicie. Eu tenho que ter esse valor de garantia para começar a proceder, explica. Sem os 28 mil reais, a ação não pode avançar.
Crimes de Zambelli não se limitaram ao episódio Luan
Em maio de 2025, Zambelli foi condenada, por unanimidade, pela Primeira Turma do STF, a dez anos de prisão em regime fechado, por orquestrar a invasão ao sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em janeiro de 2023. A operação, realizada pelo hacker Walter Delgatti Neto, resultou na inserção de documentos falsos, incluindo um mandado de prisão fraudulento contra o ministro Alexandre de Moraes. A condenação também determinou multa milionária, perda do mandato e inelegibilidade por oito anos.
Após a condenação, Zambelli fugiu do Brasil pela fronteira com a Argentina em maio de 2025, seguindo para os Estados Unidos e, depois, para a Itália, país do qual possui cidadania. Seu nome foi incluído na lista vermelha da Interpol, tornando-a procurada internacionalmente. Em 29 de julho de 2025, foi presa na Itália, onde aguardava a decisão sobre sua extradição ao Brasil. Zambelli renunciou ao cargo de deputada federal para não ser cassada.