O coletivo ‘Salve Kebrada‘, que reúne artistas e ativistas da zona noroeste da cidade de São Paulo, tem apostado em um projeto para unir história e arte pelas lentes de câmeras: o grupo realiza saídas fotográficas com moradores da região para registrar o cotidiano das periferias e valorizar a memória local.

As saídas fotográficas são mediadas pelo fotógrafo Rogério Silva, mais conhecido como Trilha Favela, e reúne moradores, fotógrafos e jovens interessados em registrar a quebrada sob novas perspectivas.

O primeiro encontro foi realizado em julho de 2025 e reuniu ao menos 20 participantes no distrito do Parque Taipas, na zona noroeste. A atividade propôs um percurso pelo território, apresentando aspectos do bairro, suas histórias e incentivando o registro do espaço a partir do olhar individual de cada participante.

Fotógrafo que participou da 1ª saída fotográfica na região do coletivo Salve Kebrada @Jucinara Lima/Agência Mural

Usando a fotografia como instrumento de expressão, memória e resistência, os participantes (todos membros da comunidade) caminharam pelo Morro do Arvão, no Parque de Taipas, e conheceram o mirante que dá vista para o bairro, sempre registrando em imagens o cotidiano que muitas vezes passa despercebido.

Em janeiro de 2026, o coletivo promoveu a segunda edição do evento, desta vez no distrito do Jaraguá, também na zona noroeste. O ponto de encontro foi a estação de trem da região e a programação incluiu uma caminhada pelas ruas do bairro, paradas estratégicas para a produção de imagens e momentos para compartilhar experiências.

‘Acho que a fotografia tem o poder de contar histórias e transformar uma imagem em documento histórico’

Rogério, fotógrafo

“Registrar momentos do bairro, contribuir com a autoestima dos moradores, mostrar a cultura local e poder contestar a visão midiática de que a periferia é um lugar onde se propaga violência”, diz o fotógrafo.

Vista do Mirante do Arvão, onde os participantes do projeto viram os bairros da região noroeste @Jucinara Lima/Agência Mural

A proposta não é apenas técnica abordando enquadramento, composição e luz , mas também afetiva: fotografar como quem tem o bairro como seu local de vivência. Entre um clique e outro, ocorrem trocas sobre as transformações do local, as memórias da infância e os desafios enfrentados pela comunidade diante da falta de investimentos em lazer e cultura.

Os participantes levam suas câmeras, tanto digitais quanto analógicas, e também podem fotografar com celular. Após as captações, o coletivo disponibiliza uma pasta em uma plataforma digital para que os participantes compartilhem essas fotos e todos tenham acesso aos materiais produzidos.

Gabrielly, integrante do coletivo durante gravação com uma moradora do Parque de Taipas @Thiago Carvalho/Divulgação

As atividades fazem parte do projeto ‘Favelas e Aldeias Salve Kebrada 10 anos‘, que tem como uma das ações registrar o território pelo olhar dos próprios moradores do bairro. Em 2025, a iniciativa foi contemplada no edital da 9ª edição do Fomento à Cultura das Periferias.

A próxima saída fotográfica ainda não tem data marcada, mas deve ocorrer em 2026. As informações são divulgadas com antecedência nas redes sociais do coletivo.

Memória para transformar

Formado por nove artistas e comunicadores da região noroeste, o coletivo Salve Kebrada foi criado em 2015 com a proposta de fortalecer o olhar periférico sobre o território.

Rodrigo Benevenuto, 37, professor de História e produtor cultural, foi quem deu o primeiro passo, logo após terminar a faculdade. Seu objetivo era retratar histórias reais das pessoas das comunidades e criar um centro cultural próximo ao distrito do Jaraguá.

Moradores e fotógrafos na 1ª saída fotográfica no Parque de Taipas @Jucinara Lima/Agência Mural

Ele fez parceria com as amigas Bruna Caetano, 35, produtora cultural, e Talita Lima, 37, professora e dançarina. Com aplicativos de celular, roteiros e muita disposição, eles começaram a gravar entrevistas de história oral com indígenas do Jaraguá e com integrantes de movimentos sociais organizados por moradores.

Em 2016, se juntaram ao grupo a poetisa e cientista social Larissa Cordeiro, 31, e o grafiteiro Jamal, 39. Foi naquele ano também que o Salve Kebrada foi contemplado com seu primeiro edital de fomento, que viabilizou a realização de novos trabalhos e projetos.

Desde a criação, há mais de dez anos, o coletivo mantém atuação contínua no território, com o objetivo de reafirmar que a quebrada não é só carência, mas também potência criativa e território de histórias e de vida.

Agência Mural

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