O protagonismo feminino ganha um significado especial com a proximidade do dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Na região de Piracicaba, elas já somam 46,7% entre os microempreendedores individuais (MEIs) formalizados, conforme dados do Portal do Empreendedor. Ao todo, são 67,4 mil negócios desse porte liderados por mulheres nas 17 cidades de abrangência do Escritório Regional do Sebrae-SP, e elas se destacam em diversos setores.
O número mostra que as empreendedoras mulheres se consolidam cada vez mais e assumem um papel de protagonismo na economia local, transformando o ato de empreender em uma ferramenta de independência financeira e realização pessoal. No entanto, essa jornada também pode ser marcada por obstáculos.
Para Débora Rodrigues, analista de negócios do Sebrae-SP, empreender já é um desafio por si só, mas muitas mulheres que optam por esse caminho enfrentam ainda mais dificuldades. Muitas mulheres cuidam sozinhas da gestão do lar e das necessidades da família. Então, quando elas vão gerir a empresa também acabam acumulando essas funções, tendo que se capacitar, entender de ferramentas para que possam ter bons resultados… A sobrecarga de funções e fazer a gestão de tudo isso é desafiador, explica.
Além disso, Débora alerta para o preconceito existente em algumas áreas, especialmente naquelas em que as mulheres ainda são minoria. No caso das que empreendem em áreas que são consideradas masculinas, o principal desafio é ter que se provar a todo momento. Ela não pode errar, porque qualquer erro em alguma parte do processo já vai ser uma desculpa para dizerem que ela não é capaz de estar nesse lugar, lamenta.
Apesar dos obstáculos, ela ressalta que o empreendedorismo feminino traz ganhos que vão além do faturamento. Há uma satisfação em ver essas mulheres descobrindo seu próprio potencial. Quando elas superam essas barreiras, tornam-se referências em suas comunidades. Elas possuem uma visão humanizada e resiliente que permite encontrar oportunidades onde outros veem apenas problemas. O sucesso delas é uma vitória coletiva, que inspira outras mulheres, pontua.
Desafios diários
Alessandra Aparecida Maciel, proprietária da MHL Hidráulica, concorda que é desafiador atuar em um segmento ainda visto como masculino. A empresa dela trabalha com manutenção e fabricação de cilindros hidráulicos e pneumáticos. No primeiro contato do cliente, eles perguntam quem é o responsável pela empresa, pelos serviços. Quando falo que sou eu, sempre tem um silencio do outro lado. Muitas vezes, chegam a perguntar quem é o homem responsável pelo negócio, conta.
Mas, mesmo enfrentando essa dificuldade inicial, ela não desiste: É preciso insistência e persistência constantes. Em alguns dias, a dúvida aparece e eu me pergunto se vale a pena enfrentar tudo isso. Mas desistir nunca foi uma opção. Reúno forças, sigo em frente e reafirmo meu espaço. Quero mostrar, com trabalho e competência, que estou preparada para estar onde estou.
Há dificuldades, mas também há determinação e a convicção de que nós, mulheres, estamos conquistando cada vez mais espaços, inclusive aqueles em que historicamente não éramos esperadas, completa.
Persistência e fé
Grazielle Nogueira de Oliveira, proprietária da Aromê Almas Importadas, de Iracemápolis, também enfrentou dificuldades. Ela trabalha com perfumes importados e, no início tocava o negócio ao lado do ex-marido. Com a separação, chegou a pensar em largar a empresa, mas não tinha essa opção.
Eu tinha dois filhos pequenos e era por eles que eu não podia desistir. Então, consegui fazer um estoque que cabia em uma caixa de sapato e era nessa caixa que eu vendia os meus perfumes. As pessoas perguntavam: como vai vender perfumes importados originais em uma caixa de sapato?, conta. Grazielle se apoiou na fé e continuou e o negócio cresceu.
Depois de alguns meses eu consegui comprar uma caixa organizadora para vender os meus perfumes. Um tempo depois financiei a casa em que moro. Agora, além de fazer os meus atendimentos personalizados, em novembro de 2025 montamos uma loja colaborativa aqui em Iracemápolis, comemora. Hoje, ela levanta a bandeira de que as mulheres empreendedoras devem se unir para chegar mais longe.
O agro também é delas
As mulheres empreendedoras podem empreender em qualquer setor, incluindo no agro. Isabella Gimenes Betin, do Betins Laticínios Artesanais, é a prova viva disso. A empresa produz queijos e derivados do leite de forma natural, sem conservantes, e é um negócio familiar. Faz dois anos que estou 100% no Betins, depois que minha mãe teve uma intercorrência médica séria e precisou se afastar das atividades por um período. Na época, eu tomei a frente e fiz dar certo para não deixar que o legado que estava sendo construído com tanto amor e dedicação acabasse, diz.
Hoje, ela afirma que o negócio é seu propósito, mas exige muito empenho: A rotina começa cedo e envolve muito trabalho pesado. Tem que carregar galões de leite, mexer com produção, limpeza, calor, equipamentos é um trabalho físico e muito exigente, relata.
A empreendedora conta que já se sentiu subestimada no setor, especialmente nessas atividades que exigem força física. Às vezes as pessoas se surpreendem quando percebem que é uma mulher que está ali carregando galões, trabalhando na produção e tocando o negócio. Nas feiras e eventos tudo é lindo, mas preparar tudo, carregar as caixas, deixar tudo em ordem é desafiador. Isso não me torna menos feminina, mas mostra o quanto posso exercer todos os papéis, do mais rústico ao mais delicado. Para mim é muito gratificante poder continuar esse trabalho e mostrar que uma mulher também pode estar à frente da produção rural, com dedicação, força e paixão pelo que faz, finaliza.
Confira o número de MEIs por gênero e por cidade na tabela abaixo:
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