Era segunda-feira, 14h, e eu aguardava atendimento na consulta de Planejamento Familiar da UBS Jardim Coimbra, no distrito do Jardim Ângela, zona sul de São Paulo. Na sala, éramos apenas três mulheres. Todas ali pelo mesmo motivo: nenhuma pretendia ter filhos novamente.

O ambiente era silencioso, quase burocrático. Em uma mesa redonda, dois médicos observavam enquanto uma agente de saúde explicava, de forma rápida e objetiva, as opções de métodos contraceptivos disponíveis. Até que a mulher sentada ao meu lado começou a falar.

Magno Borges/Agência Mural

Ela tinha 25 anos, um filho de seis anos ao seu lado e outra criança a caminho. Grávida de 18 semanas, contou que queria fazer laqueadura. Disse que o parceiro se propôs a fazer vasectomia, mas que ainda assim ela queria passar pelo procedimento, mesmo que invasivo. Ela estava decidida.

Explicou o motivo como quem já tinha feito as contas: se ele arrumasse outra mulher, seria somente ela por ela.

Insistia, então, na pergunta para a agente de saúde: a laqueadura falha? É irreversível mesmo? Havia ali um medo evidente, quase palpável, de engravidar outra vez.

A fala a angústia ficou ecoando na sala. E em mim.

Como mulher e mãe, já estive naquele lugar. Vivenciei uma gravidez não planejada aos 23 anos, e me perguntei, mais de uma vez, como seria dali em diante. Mesmo com rede de apoio, havia algo que sabia desde o início: as decisões precisavam ser realistas. A presença do pai, ainda que prometida, nunca é uma certeza.

É um padrão que se repete: só em 2025, 29,7 mil crianças do estado de São Paulo foram registradas sem o nome do pai e outras 3 mil tiveram pedidos de reconhecimento da paternidade, segundo o Portal da Transparência de Registro Civil.

Essa experiência atravessa a minha história familiar. Meu irmão materno Matheus, 15, cresceu sem visitas do pai e só foi registrado anos após o nascimento. Hoje, recebe esporadicamente R$ 200 de pensão. Minha mãe o criou sozinha e, quase duas décadas depois, ainda recorre à Justiça para tentar cobrar valores atrasados. O tempo passou, mas a responsabilidade nunca foi dividida.

A criação dos filhos segue sendo, majoritariamente, uma tarefa feminina. Dados do Censo 2022 do IBGE mostram que, para cada pai solo, existem seis mães criando filhos sozinhas. Elas estão à frente de 7,8 milhões de lares, o equivalente a 13,5% das famílias brasileiras.

Como se esses dados já não fossem alarmantes o suficiente, seguimos esbarrando em desigualdades que atravessam o acesso aos direitos reprodutivos: filas de espera prolongadas no SUS, falta de informação e políticas públicas que chegam tarde, quando chegam.

Somos nós, mulheres, que reorganizamos a rotina, sustentamos a casa, seguramos o peso emocional e seguimos mesmo quando o apoio vira ausência. Para muitas, a maternidade não é uma escolha compartilhada até o fim é um fardo solitário.

Eu me vi na jovem do posto de saúde. Você também deve se enxergar nela. Histórias como essa atravessam a vida das mulheres há gerações: mudam os nomes, os bairros, as épocas, mas não mudam o enredo. Em todo lugar onde há uma mulher criando filhos sozinha, há também um pai seguindo a vida, como se a paternidade fosse um detalhe.

Naquela segunda-feira, sentada na UBS, entendi que quando uma mulher decide por si é, antes de mais nada, uma pequena revolução para todas. 

Agência Mural

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