O teatro do Sesc 24 de Maio foi palco do seminário Contando o Brasil: Uma celebração do jornalismo que informa e mobiliza, evento que celebrou os 15 anos da Agência Pública em parceria com o Sesc São Paulo.
Centenas de pessoas participaram das três palestras realizadas na terça-feira, 10 de março. Jornalistas e convidados de diversas áreas debateram as ameaças ao jornalismo no Brasil e no mundo, como a atividade pode mobilizar a sociedade e quais são os caminhos possíveis para o futuro da profissão.
Os debates reforçaram o papel essencial do jornalismo investigativo e independente na defesa da democracia e na produção de informação de interesse público. Em um momento de desafios para a profissão, que vão da desinformação aos ataques à imprensa, os participantes destacaram a importância de fortalecer iniciativas comprometidas com investigação, transparência e responsabilidade com o público.
Confira abaixo como foram as conversas:
Guerra ao jornalismo
A mesa de abertura do evento de 15 anos da Agência Pública, Guerra ao jornalismo, discutiu os desafios do futuro da profissão diante de ataques à imprensa, restrições à liberdade de expressão, transformação digital e crise de credibilidade.
O debate, mediado por Natalia Viana, cofundadora e diretora executiva da Agência Pública, contou com a participação de Patrícia Campos Mello, jornalista da Folha de S. Paulo e vencedora do prêmio Maria Moors Cabot; Daniela Lima, colunista, analista e apresentadora do UOL e Nina Santos, secretária-adjunta de Políticas Digitais na Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.
As convidadas trouxeram os desafios enfrentados por mulheres jornalistas em um cenário cada vez mais hostil. Antes de ouvir as palestrantes, Natalia Viana destacou que trazer esse tema tinha como objetivo refletir sobre os desafios mais amplos da profissão. Vocês são algumas das maiores jornalistas brasileiras. A intenção de falar desses ataques não é diminuir o trabalho de vocês, mas reconhecer que, justamente por suas trajetórias, podem nos ajudar a pensar perspectivas únicas sobre os desafios do jornalismo, afirmou.
Daniela Lima abriu sua participação relembrando alguns episódios de hostilidade que já sofreu. A apresentadora explicou que, como jornalistas, sempre tendemos a pisar no calo de alguém, e que, infelizmente, as ondas de linchamento virtual, discursos de ódio e violência digital têm se tornado parte recorrente da profissão, muitas vezes ancorados na misoginia.
A jornalista Patrícia Campos Mello também relembrou episódios de ataques que marcaram sua trajetória profissional. A sua situação ganhou outra dimensão quando, depois de publicar uma reportagem investigativa em 2018, sobre os disparos em massa no WhatsApp durante as eleições, passou a ser alvo de uma violenta campanha de difamação e intimidação estimulada pelo chamado gabinete do ódio e por suas milícias digitais.
Era papo de ir dormir depois de publicar uma matéria e quando você acorda sua vida acabou, relatou Patrícia. Para a jornalista, o episódio acabou funcionando como um sinal verde para que outros profissionais da imprensa também fossem atacados, especialmente aqueles que trabalhavam fora dos grandes centros e tinham menos proteção institucional.
Para Nina Santos, esse tipo de ataque não é direcionado apenas a pessoas, mas a estruturas inteiras: ao jornalismo e ao acesso da sociedade à informação. Por isso que do ponto de vista da sociedade é extremamente importante que haja jornalistas que enfrentem esses ataques, como a Patrícia e a Daniela, defende.
Ela ainda detalhou o trabalho da Secretaria de Comunicação, que envolve checagem de fatos, monitoramento de conteúdos digitais e articulação entre órgãos para combater a desinformação. Segundo Nina, há avanços importantes, como o ECA Digital e a criação do observatório de violência contra jornalistas no Ministério da Justiça. No entanto, desafios como a tiktokização, a IA generativa e a centralização das decisões pelas Big Techs continuam a ameaçar a integridade do ecossistema de informação.
Segundo avaliação das jornalistas, o ano eleitoral intensifica ainda mais essas ameaças. Daniela e Patrícia alertaram para a sensação de cerco que permeia as redações, principalmente para mulheres jornalistas que tendem a ser maioria, mas enfrentam riscos adicionais de misoginia e sexualização, agravados pelo uso de IA. Patrícia destacou ainda a influência dos EUA nas eleições do Brasil e o poder de convencimento dos influenciadores digitais durante o período eleitoral, capazes de infiltrar mensagens e narrativas de forma indireta.
O ambiente digital pode ser apropriado de maneiras construtivas, mas exige regulação, responsabilização das Big Techs e engajamento da sociedade civil, defendeu Nina. Precisamos de tomadores de decisão comprometidos com a pauta, e a sociedade civil precisa cobrar esses tomadores. Sim, podemos transformar o ambiente digital, mas só se estivermos unidos nessa missão, afirmou.
Informação que mobiliza
Com o tema “Informação que mobiliza”, a segunda conversa do dia reuniu a ativista Neon Cunha, referência na luta por direitos humanos e pessoas LGBTQIAPN+, e o comunicador e líder comunitário Raull Santiago. A mediação foi da jornalista Marina Amaral, cofundadora da Pública. O debate partiu de uma pergunta central: qual é a sociedade civil de hoje e que espaço o jornalismo ocupa dentro dela?
Ao refletir sobre o papel da informação na mobilização social, Neon Cunha relembrou sua atuação na campanha que viabilizou a retificação de documentos de pessoas trans no estado de São Paulo sem exigência de laudo médico ou processo judicial. Na época, decidiu levar o debate para as páginas da Folha de S.Paulo, e não para veículos considerados progressistas. “Eu prefiro falar para os meus inimigos”, afirmou.
Neon também avaliou que, por muito tempo, o padrão tradicional de comunicação funcionou como estratégia de manutenção de poder, limitando o espaço para narrativas que escapassem da centralidade branca ou da lógica do capitalismo como hegemonia. “O jornalismo […] é muito bem sucedido pro bem ou pro mal, porque a democracia é frágil.”
As críticas ao modelo tradicional de cobertura também apareceram na fala de Raull Santiago, morador do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Ele relatou como a repercussão de uma operação conduzida pelo governo de Cláudio Castro expôs os impactos de uma cobertura distante da realidade local. A ação policial que deixou 119 mortos ganhou destaque nacional após a divulgação de imagens de corpos nus empilhados na Praça da Penha. Além da violência, o episódio foi acompanhado por uma onda de desinformação.
O ativista também trouxe à tona a falta de precisão jornalística que, muitas vezes limitada à entrada da comunidade, alimenta a tensão e o estigma sobre os moradores. Ao citar reportagens televisivas que anunciam tiroteios em favelas especialmente no Complexo do Alemão sem precisar o local exato da ocorrência, ele mostrou como uma informação vaga é suficiente para gerar consequências concretas para quem vive nessas comunidades: moradores restringem a circulação por medo, e o comércio local, que depende do movimento diário de mais de 150 mil pessoas, acaba fortemente afetado.
Perguntas da plateia também ampliaram a conversa, entre elas como a imprensa pode se tornar uma aliada antirracista. Foi Neon a responsável por responder que o primeiro passo é ampliar o espaço de pessoas pretas dentro das redações. “Por mais apurada que a notícia seja, a vivência conta”, afirmou. Neon também defendeu que a cobertura jornalística incorpore a perspectiva da interseccionalidade nas pautas de direitos humanos.
Pensando em como a mídia tradicional empurrou narrativas de minorias a marginalidade, contribuindo para a invisibilização desses grupos, o que se firmou como clima na mesa foi a aposta em um modelo de jornalismo que construa pontes e reduza a distância entre territórios, experiências e narrativas.
Novos Caminhos: Ainda Estamos Aqui
A Pública sempre tentou achar formas de fazer o nosso jornalismo acontecer, afirmou Bruno Fonseca sobre como a Agência Pública está em constante busca para fazer novos tipos de jornalismo com qualidade e seriedade, na mesa que fechou o primeiro dia de comemoração do aniversário de 15 anos da Pública no Sesc 24 de Maio.
O debate, mediado por Bruno, que é jornalista e chefe de redação em São Paulo da Pública, contou com a presença do jornalista e professor da USP Eugênio Bucci, a jornalista e roteirista do documentário indicado ao Oscar Democracia em Vertigem, Carol Pires, além da sócia diretora na Alma Preta Jornalismo, Elaine Silva.
Os convidados discutiram na mesa Novos Caminhos: Ainda Estamos Aqui quais os desafios contemporâneos do jornalismo, trouxeram os modelos emergentes de produção jornalística e qual o papel do jornalismo na reconstrução da confiança pública.
Carol Pires falou sobre sua experiência, passando pelo tempo em que fez análises no canal Greg News. Por causa da visibilidade e linguagem, ela considera que o que ela fez ali tinha muito mais impacto do que, por exemplo, o que ela escrevia em sua coluna para o New York Times.
Por piores que sejam as coisas, nós vivemos uma utopia: o projeto democrático, definiu Eugênio Bucci para iniciar sua explicação de por que o jornalismo está sendo estrangulado atualmente e se existe saída para isso. Eugênio explica que se o jornalismo não funciona bem, por ser um serviço da democracia, a própria democracia acaba se enfraquecendo neste processo. Para o professor, o jornalismo está sendo asfixiado e todos correm grave risco de ficar sem a imprensa.Eu quero trazer otimismo! Mas para fazer otimismo, é preciso conhecer os desafios e os problemas, arrebatou Eugênio Bucci.
Elaine Silva, a única não jornalista da mesa, falou sobre sua experiência dirigindo um veículo independente, a Alma Preta Jornalismo. Dentre todas as dificuldades que Elaine elenca em se fazer jornalismo investigativo, o mais caro e o mais importante é financiar as próprias investigações. Elaine explicou que a arrecadação do negócio que capitaneia hoje é 80% de filantropia, 10% de captação de doações e 10% de publicidade com marcas que não ferem os valores editoriais do veículo. Furar a bolha e ser criativo é estar em lugares que eu ganho visibilidade e consiga sustentar nosso jornalismo, acredita.
Dentre os novos caminhos e formatos possíveis, Carol Pires cita como, ao longo do tempo, a audiência mudou sua forma de consumir notícias, passando de telejornais para as redes sociais e o hábito de usar telas. Neste novo lugar, a audiência se comporta de forma a procurar pessoas que comentem as notícias a partir de um gosto pessoal que combine com quem está assistindo. E agora, além de assistir a notícia e vê-la comentada, a audiência quer saber o que ela deve sentir a partir dali.
Muitas pessoas falam sobre como a extrema direita sabe usar melhor a linguagem das mídias digitais, mas o que acontece é que a própria linguagem das redes não exige profundidade, responsabilidade e a complexidade que a realidade pautada pelo jornalismo do projeto democrático entrega, complementa Eugênio Bucci.
Para fechar, Elaine Silva defende: O impacto que o jornalismo deve perseguir é o da diversidade. Enquanto não houverem pessoas pretas exercendo cargos de liderança nas redações, haverá monopólio na comunicação.
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