Um trabalho técnico, coletivo e de longo prazo vem sendo estruturado na região de Sarapuí, no interior paulista, com potencial para transformar a produção de leite e derivados de búfala em um novo vetor de desenvolvimento regional. A iniciativa é conduzida pelo Sebrae-SP, em parceria com instituições públicas, produtores rurais e o Instituto Federal de Itapetininga, e tem como objetivo preparar o território para a obtenção da Indicação Geográfica (IG), um dos principais instrumentos de valorização de produtos de origem no Brasil.

A Indicação Geográfica é um registro concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), que reconhece oficialmente produtos cuja qualidade, reputação ou características estão diretamente ligadas ao local onde são produzidos. Na prática, o selo funciona como uma certificação de origem e identidade, garantindo ao consumidor que aquele produto carrega um modo de produção específico, tradicional e reconhecido.

Embora a região já seja conhecida pela forte presença da bubalinocultura, especialmente pela produção de queijos e derivados do leite de búfala, o processo de estruturação da IG passou a ganhar forma mais organizada a partir de 2025, com ações articuladas entre o Sebrae-SP e o poder público local.

A indicação geográfica é uma forma de comunicação com o consumidor. É quando mostramos que aquele produto tem identidade com o território, que existe um saber fazer local e que as pessoas que trabalham ali conhecem profundamente o búfalo e a produção. Isso gera qualidade, confiança e valor, explica Simone Goldman, consultora de negócios do Sebrae-SP e gestora dos projetos de agro.

Do festival à estruturação da cadeia produtiva

O fortalecimento da identidade local em torno da bubalinocultura ganhou ainda mais visibilidade a partir da realização do Festival do Búfalo, que se consolidou como um espaço estratégico de valorização da produção regional e de aproximação entre produtores, instituições e a comunidade.

A primeira edição do evento, realizada em 2025, marcou um divisor de águas para o setor ao evidenciar a força produtiva existente no território e estimular um movimento mais estruturado de organização da cadeia. A partir desse ambiente de mobilização, produtores e gestores públicos passaram a discutir de forma mais sistemática o reconhecimento da atividade e seus próximos passos.

Segundo Simone Goldman, foi nesse contexto que teve início o trabalho para o reconhecimento da Cadeia Produtiva Local (CPL) e, posteriormente, a articulação para a Indicação Geográfica.

Quando falamos de Sarapuí, estamos falando de uma região que já tem tradição, escala produtiva e conhecimento acumulado. O que faltava era estruturar isso de forma técnica para transformar esse diferencial em valor de mercado, afirma.

O processo ganhou fôlego com a identificação de um edital nacional do Ministério da Educação, voltado ao diagnóstico e à estruturação de Indicações Geográficas em diferentes regiões do país. A iniciativa previa apoio técnico e recursos para a elaboração de documentos exigidos pelo INPI, como o levantamento histórico da produção e a delimitação territorial da área produtora.

Parceria com o Instituto Federal e articulação local

Como o diagnóstico não havia sido realizado anteriormente no âmbito do Sebrae-SP, foi necessário buscar uma alternativa técnica para viabilizar a participação no edital. A solução veio por meio da parceria com o Instituto Federal.

Simone Goldman articulou a aproximação entre o município e o professor Antônio Eduardo Citron, do Instituto Federal de Itapetininga, município vizinho que também possui tradição e produção relevante na bubalinocultura. O docente aceitou o desafio de conhecer a realidade local e estruturar o projeto em parceria com o secretário municipal de Agricultura de Sarapuí, Márcio José Ricardo Sturaro.

O projeto exigia um nível de detalhamento técnico muito alto. Não era algo simples de escrever. O professor Citron, junto com o Márcio, conduziram esse processo com excelência, e o resultado foi o segundo lugar nacional no edital, destaca Simone.

Com a aprovação no edital, em segundo lugar entre projetos de todo o país, a iniciativa passou a receber recursos do Ministério da Educação, destinados ao Instituto Federal. Os recursos viabilizam a atuação de professores e bolsistas no levantamento de informações, na realização de entrevistas com produtores, na análise histórica da atividade e na estruturação da documentação necessária para o pedido de registro da Indicação Geográfica.

Diagnóstico em andamento e abrangência regional

O diagnóstico teve início em janeiro de 2026 e segue até junho do mesmo ano. Durante esse período, equipes do Instituto Federal percorrem municípios que compõem a área produtora de búfalos, como Sarapuí, Pilar do Sul, Alambari, São Miguel Arcanjo e Itapetininga.

Para viabilizar o acesso aos produtores, o Sebrae-SP vem articulando reuniões com sindicatos rurais, associações, a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI) regional e outras entidades de apoio.

A produção de búfalos não está concentrada em um único município. Ela é regional. Por isso, a delimitação da área da Indicação Geográfica precisa refletir essa realidade, explica Simone.

Os encontros têm como objetivo apresentar o projeto, ouvir os produtores e coletar informações fundamentais para o diagnóstico, além de promover a integração entre os diferentes atores da cadeia produtiva.

União, saber fazer e garantia de qualidade

Atualmente, Sarapuí já conta com uma cooperativa estruturada, mas a expectativa é ampliar a participação de produtores de outros municípios, fortalecendo a governança da futura IG.

A Indicação Geográfica beneficia todos os produtores que estão dentro da área delimitada e seguem o regulamento. Por isso, esse processo também é sobre união e construção coletiva, ressalta Simone.

Segundo a consultora, um dos principais ativos da região é o chamado savoir-faire, expressão de origem francesa que pode ser traduzida como saber fazer. O termo é usado internacionalmente para definir o conhecimento construído ao longo do tempo, transmitido entre gerações, que reúne técnica, prática e adaptação ao território.

No caso da bubalinocultura, esse saber fazer está diretamente ligado ao manejo dos animais, ao entendimento do ambiente local, às práticas de alimentação, aos cuidados com a saúde dos búfalos e à produção de alimentos com elevado padrão de qualidade.

Esses produtores conhecem o território, sabem lidar com o búfalo, produzem animais sadios e derivados de excelência. A indicação geográfica reconhece esse saber fazer e transforma esse conhecimento em valor, afirma Simone Goldman.

Além de agregar valor ao produto, a Indicação Geográfica também estabelece regras claras de produção, garantindo padronização, qualidade e segurança ao consumidor final.

Impactos econômicos e próximos passos

A expectativa é que o reconhecimento da IG fortaleça não apenas a comercialização do leite e dos derivados de búfala, mas toda a economia regional, incluindo turismo, comércio e serviços.

Quando uma região ganha visibilidade, ela passa a atrair consumidores, compradores e turistas. Isso movimenta hotéis, pousadas, restaurantes, supermercados e gera desenvolvimento para todo o território, afirma Simone.

Como parte desse movimento de valorização da bubalinocultura, a região se prepara para a realização da segunda edição do Festival do Búfalo, que acontece entre os dias 18 e 24 de maio de 2026, em Sarapuí, no Centro de Eventos Wanderley Bernardes. O evento reunirá produtores, especialistas, instituições parceiras e o público em geral em uma programação voltada à troca de experiências, à difusão de conhecimento técnico e à valorização dos produtos da cadeia do búfalo.

Ao longo da semana, estão previstas atividades como palestras e workshops técnicos, exposição de equipamentos, apresentação de produtos da bubalinocultura, além de atrações culturais, contribuindo para movimentar o setor agropecuário e atrair visitantes de toda a região. Mais informações serão divulgadas em breve.

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Cultura Empreendedora

Agência Sebrae - Projeto articula produtores e instituições para obter Indicação Geográfica do leite de búfala em Sarapuí