É verdade isso? Eu nunca tinha saído do país, e para a gente que é da periferia isso é um sonho, lembra o violinista Gustavo Martz da Silva, 21, ao receber a carta de parabenização com a confirmação de que representaria o Brasil na Orquestra Juvenil Ibero-Americana, no Panamá, em agosto de 2025.
Criado no Jardim Paulistano, bairro do distrito da Brasilândia, na zona norte da capital, a oportunidade surgiu de forma inesperada e com apenas uma semana para se preparar. Mesmo com pouco tempo, Gustavo foi aprovado e representou o Brasil ao lado de um músico carioca, na iniciativa que reúne jovens instrumentistas de diferentes países da América Latina.
No Panamá, o músico não se surpreendeu apenas com o país, mas também com a função que assumiria na orquestra: o cargo de spalla, o violino principal e líder técnico do grupo, posicionado à esquerda do maestro.
Gustavo Martz tocando de espala na Orquestra Juvenil Ibero-Americana @Arquivo pessoal/@gumartz
Nunca tinha passado pela minha cabeça estar nessa posição e nem tinha vivido algo igual. Então, tentei aproveitar ao máximo e fui aprendendo a trabalhar com isso.
Além da responsabilidade musical, o violinista precisou lidar com o desafio do idioma. As conversas com a maestra eram em espanhol e, com o apoio de um colega mexicano, conseguiu compreender e repassar as orientações para o restante da orquestra.
Uma trilha orquestrada
A trajetória que o levaria até o Panamá começou na infância. Aos 4 anos, Gustavo ganhou o primeiro violino, presente da avó. Filho dos músicos Noemi Martz da Silva e Anderson Cleuton Semião da Silva, cresceu em um lar onde a música sempre esteve presente. Antes mesmo de eu nascer, eles já tocavam, então eu nasci em um ambiente em que já tinha contato com a música, conta.
Na igreja evangélica, o violinista deu início às aulas do instrumento. O espaço religioso funcionou como porta de entrada para a música, mas com limites claros de desenvolvimento musical.
Aos 15 anos, em 2019, ao ingressar na EMESP (Escola de Música do Estado de São Paulo) Tom Jobim, Gustavo passou a vivenciar a música de forma mais estruturada e percebeu as diferenças entre os ambientes.
Na igreja, a questão do estudo não é tão inserida, é mais espiritual e voluntária. Já na música erudita, tive que estudar mais, tinha até uma cobrança por parte dos professores. A música tocada era muito diferente, afirma.
Gustavo na posição de espala na Orquestra Juvenil Ibero-Americana, no Panamá @Arquivo pessoal/@gumartz
Ele ainda destaca que muitos músicos da música clássica iniciam na religião, por ser um ambiente que incentiva essa prática. A entrada na instituição marcou o início de uma rotina intensa. Conciliando os estudos em uma escola particular, o Colégio Ouro Preto, com as aulas da EMESP, Gustavo saía de casa às 4h30 da manhã e só voltava depois das 18h. O dia era praticamente todo dedicado à música, já que sua bolsa de estudos estava vinculada ao violino.
Tinha que estudar. No começo, tentava fazer o mínimo, mas tinha uma rotina corrida , só queria chegar em casa e descansar. Porém, depois comecei a entender que era necessário, se quisesse seguir esse caminho, e passei a estudar de três a quatro horas por dia.
Dentro do curso de formação, a rotina era dividida em etapas, com duração média de três anos, além de um período voltado à especialização. Logo ao ingressar, Gustavo teve contato com matérias teóricas e práticas instrumentais. Durante esse período, também participou da prática coletiva, em uma orquestra de instrumentos de corda.
Grupo de músicos selecionado para ida ao Panamá @Arquivo pessoal/@gumartz
Além da carga de estudos, permanecer na formação era um desafio diário. O suporte oferecido aos alunos se resumia ao vale-transporte, concedido de acordo com a renda per capita da família. Eles pagavam a passagem, mas não eram todos que conseguiam. Outro obstáculo era a ausência do passe livre, já que a EMESP não é vinculada à pasta da Educação, mas à Secretaria da Cultura.
Ao concluir o ensino médio, no fim de 2021, Gustavo se viu diante de uma escolha: ingressar na faculdade ou seguir na música. Chegou a prestar vestibular, mas decidiu apostar na carreira musical e dar mais um passo na área.
Novos sintonias e desafios
Ainda na EMESP, passou a observar oportunidades dentro do segmento, como a Orquestra Jovem Tom Jobim, a Orquestra Jovem do Teatro de São Pedro e a Orquestra Jovem do Estado de São Paulo. Todas exigiam provas para ingresso. Incentivado pela também violinista e professora Andrea Campos, ele se preparou para os processos seletivos.
Andrea orientou o músico a prestar as provas das orquestras jovens, já que esse era o caminho para começar a ganhar dinheiro e trocar de violino. As provas exigiam conhecimentos específicos, mas também representavam a possibilidade de iniciar um retorno financeiro com a música.
Gustavo Martz com o seu violino @Arquivo pessoal/@gumartz
Um violino profissional custa, em média, cerca de R$17 mil no Brasil. Sem condições de arcar com esse valor, entrar em uma das orquestras se tornou a única opção. Gustavo optou por prestar para a Orquestra Jovem Tom Jobim e após semanas de estudo ao lado da professora, veio a aprovação.
Ele destaca a importância de Andrea no processo: Quando estava chegando perto da prova, ela me acompanhou de perto para passar simulações de prova e isso foi um divisor de águas.
Ele conta que, na semana da prova, quase desistiu por não se sentir bom o suficiente, mas foi incentivado a seguir. Aprovado na Orquestra, passou a receber uma bolsa de R$1.200. O valor, porém, não era suficiente para comprar o violino.
Com a ajuda do pai, o instrumento foi adquirido. O dinheiro estava chegando, mas já teria que sair. Na época, meu pai tinha um dinheiro guardado e perguntei se poderia usar e iria pagando de forma parcelada.
Mesmo assim, o valor não cobria o custo total do instrumento, e o músico precisou negociar com o vendedor. Eu falei para ele que o valor que estivesse faltando, eu iria pagar todo mês. Acho que ele só aceitou porque foi minha professora que me recomendou para ele, afirma.
Carta de aprovação da Orquestra Juvenil Ibero-Americana @Arquivo pessoal/@gumartz
Com parcelas do empréstimo familiar e do instrumento, o que lhe restava no mês era cerca de R$ 40. Após dois anos tocando na Orquestra Jovem Tom Jobim, em 2024 surgiu a chance de integrar a Orquestra Experimental do Theatro Municipal, uma estrutura com nível técnico mais elevado.
O modelo de teste se assemelhava ao das orquestras jovens, mas com grau de dificuldade maior. Era um grupo que tinha um nível mais alto. Um ano antes eu tinha estudado, mas acabei desistindo no dia da prova, relembra. No ano seguinte, Gustavo foi aprovado e chamou atenção ao conquistar a terceira colocação entre os candidatos.
Representatividade na música clássica
A chegada ao Theatro Municipal também expôs Gustavo a uma realidade que vai além da técnica musical. Na orquestra, nós não somos maioria. Tem aparecido mais, mas ainda são poucos, reflete sobre a presença de pessoas negras na música clássica.
Para ele, essa realidade também está ligada ao acesso à formação musical desde cedo. Em 2025, o governo estadual lançou o Programa Guri, que oferece aos estudantes entre 8 e 18 anos da rede pública a oportunidade de vivenciar a música de forma estruturada, atendendo às instituições do Programa Ensino Integral (PEI), mas sem especificar o ensino de música clássica.
Para Gustavo, esse cenário ajuda a explicar a distância entre a música erudita e a periferia. Para a gente de periferia, dificilmente vai ter acesso. Você precisa buscar ou ter contato com alguém que goste. Dificilmente você vai gostar de música clássica, porque não é algo incentivado.
Mesmo diante dessas barreiras sociais, o músico segue projetando novos caminhos para a carreira e tem como objetivo estudar fora do país. É uma decisão que eu ainda não tomei, por conta da minha família, mas um caminho é ir para fora do Brasil estudar, aponta.
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