Você está perto da onde? Perto do Circo Escola. A resposta é comum para quem circula pelo distrito do Grajaú, na zona sul de São Paulo. Com a lona vermelha e amarela, o espaço ultrapassa três décadas de atuação. O circo é uma referência no Grajaú, inclusive como ponto de encontro, afirma Nazareth Cupertino, 55, ex-coordenadora do local.
Apesar disso, nem todos conhecem as histórias e a memória do espaço. Um dos episódios marcantes foi o incêndio provocado por um caminhão de combustível nos anos 1990, que atingiu a estrutura e destruiu as lonas.
Diante da falta de resposta do poder público, os moradores se uniram para reconstruir o espaço e garantir a continuidade das atividades.
Alunos do Circo Social em atividades de desenvolvimento corporal @Isabela Alves/Agência Mural
É preciso reforçar que o circo é um espaço de resistência política por meio da arte-educação. Conhecer essa história ajuda a entender os desafios que enfrentamos, especialmente com os baixos investimentos, afirma o educador popular André Sabino, 32, um dos idealizadores de um documentário sobre o espaço.
Sabino é morador do Grajaú desde o início da pandemia de Covid-19, é um dos idealizadores do documentário. Ele conta que a mobilização surgiu como forma de preservar a memória coletiva da região.
‘Todo mundo que conhece fala desse lugar com carinho. É um espaço que acolhe as famílias nos momentos mais difíceis e diversos’
André Sabino, idealizador do documentário sobre o Circo
Ao todo, cerca de 30 pessoas foram ouvidas para o filme, desde vizinhos até profissionais formados pelo circo. Elas retratam a vivência de quem participou da construção desse equipamento sociocultural.
Carlos César Moreira da Costa, 29, começou no circo aos cinco anos e também atuou como educador no espaço. Quando você entra na lona, aprende um pouco de tudo. Conforme o professor apresenta as possibilidades, você se apaixona, conta.
Carlos foi frequentador do Circo Social na infância e hoje se tornou educador do local @Isabela Alves/Agência Mural
Ele teve como maior inspiração o trapezista Marcos Porto, que iniciou a carreira no Grajaú e hoje atua no Cirque du Soleil, em Las Vegas (EUA).
O documentário ajuda a justificar a importância desse espaço. Além de promover saúde, ele fortalece a vida artística dentro da quebrada, conclui Carlos.
História
Criado em meados da década de 1980, o então serviço de convivência passou por diversas transformações.
Para implantar o projeto no Grajaú, no início dos anos 1980, o educador José Wilson Moura Leite, 74, criador do Circo Escola Picadeiro em Osasco, foi convidado a replicar a experiência. Eles conseguiram que o governo do estado apoiasse a iniciativa na época.
Carlos instruindo os jovens nas atividades circenses @Isabela Alves/Agência Mural
Com o tempo, o espaço passou a oferecer também cursos gratuitos de dança, capoeira e esportes. Por falta de recursos, o circo fechou em 2 de abril de 2012. Na época, atendia cerca de 1.500 crianças e adolescentes por mês, mas as condições estruturais vinham se deteriorando.
O espaço foi reaberto em 2015, já municipalizado, com o nome ‘Circo Social’ e vinculado à Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social.
Atualmente, o espaço é administrado pelo Cedeca Interlagos (Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente) e passou a ser chamada de Circo Social. O local oferece oficinas de acrobacia, atividades aéreas (como trapézio e tecido) e malabares. Além de estimular o desenvolvimento corporal, o espaço funciona como ambiente de convivência para crianças e adolescentes.
Hoje, a manutenção depende de recursos do Governo do Estado, da Prefeitura de São Paulo e de financiamentos internacionais, já que os recursos públicos sozinhos não cobrem todas as atividades.
As crianças permanecem no local durante todo o período, recebem almoço e contam com acompanhamento psicossocial. As oficinas circenses continuam ativas, explica a atual coordenação.
A falta de verbas também impactou outros espaços culturais da cidade. O Circo Escola da São Remo, na zona oeste, fechou as portas durante a pandemia de Covid-19, em abril de 2020. O espaço funcionava desde 1990 em um terreno cedido pela USP (Universidade de São Paulo), e hoje moradores da região lutam por sua reabertura.
A gente ainda sofre com esse fechamento. Era um espaço que fortalecia a cultura na comunidade e abrigava apresentações de coletivos locais, lamenta Nazareth Cupertino.
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