As primeiras lições de Boni Metiso, 35, vieram ainda na infância, nas histórias que ouvia da avó enquanto vivia em Eswatini, no sul da África. Eram ensinamentos sobre cuidado, responsabilidade e solidariedade – valores que atravessam a vida até hoje.

Se você vê uma pessoa cansada, uma vovozinha caída, você não pode deixar ela lá. Se você faz coisa errada, isso volta na sua vida.

Nascida na África do Sul, Boni chegou ao Brasil em abril de 2019. Poucos dias depois, foi presa ao ser flagrada transportando drogas. Sem falar português e sozinha em um país desconhecido, viveu um dos momentos mais difíceis da vida.

Pensei que aquele dinheiro ia mudar a vida da minha mãe. Mas nada vem fácil. Cheguei aqui e não entendia nada, relembra.

Boni Metiso, imigrante sul-africana e moradora de Guaianases @Carlos Pires/Agência Mural

No cárcere, a barreira da língua portuguesa aprofundou o isolamento. Para conseguir se comunicar, Boni passou a frequentar a biblioteca da unidade prisional, começando por livros infantis em português, como o Caminho Suave” (cartilha da educação brasileira) entre outros, e de inglês.

Eu pegava livros de criança. Lia devagar. Foi assim que comecei a entender o idioma, conta.

Ela afirma ainda que as colegas do sistema prisional ajudam bastante na comunicação para compreender o idioma do país, mas às vezes se atrapalhavam.

“O mais engraçado é que algumas pessoas achavam que estavam falando inglês comigo, mas estavam falando português, só que com um sotaque diferente”, relembra. “Elas mudavam o jeito de falar para eu entender melhor.”

Foi também na prisão que a arte entrou definitivamente na vida. Em encontros semanais do coletivo Poetas do Tietê, ela escreveu o primeiro poema, Eu Sou Como Você. O texto foi em inglês. A partir daí, a escrita se tornou constante, foram mais de 60 poemas em língua inglesa.

Coletivo Poetas do Tietê

É um grupo de poetas e artistas de São Paulo, formado em 2008, conhecido por realizar intervenções poéticas em espaços públicos, como faixas de pedestres, cruzamentos, escolas, presídios, museus e bibliotecas.

Vieram também o canto e a descoberta da própria voz. Ela costumava cantar sozinha e achava que não cantava bem. As colegas de cela a incentivavam.

‘Sempre que cantava as pessoas comentavam. Mesmo sem entender o que estava cantando, elas gostavam’

Elas começaram a falar: Nossa, você canta muito, relata a artista que se sentia motivada.

Um post compartilhado por Boni Metiso (@boni_metiso)

Após dois anos e seis meses no sistema prisional, Boni deixou o cárcere. Em liberdade, ela voltou a se aproximar do coletivo, e o grupo artístico vendo o talento dela, começou a convidá-la para cantar em locais públicos e igrejas. Foi quando a arte deixou de ser apenas expressão e virou sustento.

“Às vezes chamam para cantar na igreja, em aniversário. Canto músicas do meu povo, sul-africanas, na minha própria língua, principalmente aquelas que falam sobre ancestralidade, diz. “É assim que coloco comida na mesa.

Sobre a música brasileira, Boni diz se inspirar em cantores como Marília Mendonça (faleceu em novembro de 2021) e o Grupo Raça Negra

‘Sou estrangeira, não falo português muito bem e ainda tenho dificuldades. A música e a poesia me ajudam a viver’

Boni cantando músicas africanas @Arquivo pessoal/Divulgação

Moradora do Jardim Aurora, em Guaianases, no extremo leste de São Paulo, Boni conta sobre a conexão com o local. Conta que foi o lugar onde foi morar quando deixou a prisão e nunca se acostumou com outras regiões. “Sou mãe solo, minha filha nasceu aqui, em 2022, e vai completar quatros anos, e outro filho de 1 ano e meio.

Ser uma mulher negra, africana e imigrante no Brasil atravessa a rotina. A artista relata episódios de preconceito por usar roupas tradicionais africanas ou marcas no corpo, mas também destaca o acolhimento que encontra no território onde vive.

‘Aqui onde moro, os vizinhos me abraçam muito. Me chamam pra festa, pra churrasco. Me tratam como família’

Primeiro livro

Essas vivências atravessaram o primeiro livro dela, Uma Mulher Segura a Faca Pela Lâmina Afiada, lançado em 2024. A obra fala sobre mulheres, especialmente mães solos que conseguem seguir em frente, cuidar dos filhos, colocar comida na mesa, diante as dificuldades.

Passei por muita coisa, e a minha mãe também. Ela criou a gente sozinha, sempre lutando. Percebi que houve dias em que ela chorava, mas não via, porque ela precisava manter o sorriso. Foi isso que me deu força e coragem para seguir com a minha vida.

Primeira obra da Boni foi lançada em 2024 @Arquivo pessoal/Divulgação

Além da escrita e da música, Boni também cria e costura as próprias roupas, transformando tecido, cor e corpo em linguagem. As peças nascem daquilo que ela sente e da relação com a ancestralidade africana. Começo comigo. Faço roupas que gosto, nas cores que eu gosto.

Para ela, as cores têm força e influenciam o estado de espírito. Se você acorda e veste cinza, fica diferente. Agora veste amarelo, verde, o corpo já muda, já anima.

Criar as próprias roupas também é uma forma de afirmação e pertencimento, especialmente por não encontrar no Brasil peças que dialoguem com a identidade dela. O que não encontro aqui, eu faço. Essas roupas me levam de volta para minha raiz africana.

Boni entende a liberdade como algo que vai além de sair da prisão. Liberdade é aprender, é não colocar limites na mente.

Entre memória, sobrevivência e criação, Boni Metiso transforma a dor em palavra e voz da África do Sul a Guaianases.

Agência Mural

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