Há quarenta anos, o último domingo de março deixou de ser apenas um dia no calendário para José. Transformou-se em um rito, uma peregrinação solitária que ele cumpria com devoção até o antigo DOI-CODI, um porão da tortura no Brasil ditatorial. Quando os velhos amigos daquela época sombria, companheiros das prisões no Congresso da UNE em Ibiúna, perguntavam o motivo de tal penitência, a resposta vinha serena: Não é por mim, é por Maria.

O tempo, que costuma apagar tantas coisas, trouxe companhia a José. Desde 2019, as ruas de São Paulo passaram a abrigar a Caminhada do Silêncio. Velhos camaradas da geração de 1968 juntaram-se a jovens militantes em uma marcha sem palavras de ordem, sem cânticos inflamados. Apenas passos mudos, lutando pela memória, pela verdade e pela justiça, lembrando as vítimas de um Estado que se voltou contra os seus.

A caminhada percorre o que chamam de circuito militar. Parte daquele conjunto de edifícios onde funcionou a maior máquina de dor da ditadura brasileira. A multidão silenciosa avança, passa pela praça que homenageia os pracinhas da Segunda Guerra, desce a Abílio Soares e cruza o Círculo Militar e o Comando Militar do Sudeste. Chega, por fim, à Assembleia Legislativa, onde discursos no passado selaram destinos trágicos, como o do jornalista Vladimir Herzog.

Mas a história de José e Maria tem suas próprias cicatrizes, desenhadas muito antes dessas caminhadas. Em 1976, José, formado em desenho industrial e trabalhando como projetista, foi traído. Um falso colega, um agente infiltrado que se dizia chamar Carlos, mas que a história revelaria ser Adolfo, escutou os planos de greve e os entregou.

A noite de março estava quente quando José chegou em casa e encontrou o terror sentado em sua sala. Maria estava algemada, o rosto já marcado pela violência. Os invasores, vestidos com roupas comuns para não despertar suspeitas na vizinhança, jogaram os dois em uma Kombi.

No DOI-CODI, a separação. Maria, alheia à militância do marido, sofreu o indizível. José, preso ao pau-de-arara, recebia choques enquanto seu corpo suportava o peso do mundo. Ele não entregava ninguém. A resistência de José enfureceu os torturadores, que trouxeram Maria. Diante das ameaças e do abuso sofrido pela mulher que amava, José cedeu. Assinou uma confissão forjada e entregou alguns nomes para os filhos da puta (era assim que eles os chamavam). Maria foi solta no dia seguinte. Ele, dias depois, voltou para casa em 31 de março. Uma data que o país lembrava por um motivo, mas que para ele ganhou o peso do fim.

A vida de José desmanchou-se aos poucos. Maria nunca mais foi a mesma. O trauma lhe roubou a fome, a paz e o amor. Em 15 de janeiro de 1985, enquanto o Brasil assistia à eleição indireta de Tancredo Neves e o Barão Vermelho cantava que o dia nasceria feliz, o coração de Maria parou.

Foi a partir de 1986 que José começou a se reerguer, cultivando o hábito de voltar àquele portão de ferro. Ele, um homem sem religião, não rezava. Apenas ficava ali, murmurando a canção de Roberto Carlos que Maria tanto amava: Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos. Uma música que, como ele descobriria mais tarde, também falava de exílio e de saudade.

E assim, em um dia bonito de outono em São Paulo, fotografei José de costas no instante exato de sua comunhão silenciosa. De cabelos brancos e escassos, vestindo uma camisa social azul de mangas curtas, suas mãos calejadas agarram com firmeza as grades cinzentas e espessas do portão do antigo porão ditatorial. Ele olha para dentro, para o pátio vazio e para os prédios de janelas basculantes que guardam tantos ecos. Atrás das grades, o passado; Vlado e tantos outros, do lado de cá, um homem que não esquece.

O silêncio coletivo da caminhada encontra o silêncio particular de José. Sem palavras de ordem, apenas pessoas caminhando democraticamente. Um país, e um homem, sempre em busca de sentido.

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Os nomes e os eventos narrados na crônica são todos ficcionais, porém baseados em centenas de depoimentos de vítimas da repressão ouvidos pelo autor ao longo de seu trabalho como repórter e coordenador de comunicação da Comissão Nacional da Verdade (CNV). A foto de José foi tirada no dia 29 de março de 2026, na sexta edição da Caminhada do Silêncio, em São Paulo, aos 62 anos do golpe militar de 1964.

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Agência Pública - O silêncio de março