No início de abril, a prefeitura de São Caetano do Sul, no Grande ABC, anunciou que vai restringir a gratuidade nos ônibus municipais, vigente desde 2023, apenas moradores da cidade. Ainda não dá data para que a nova medida entre em vigor, mas passageiros já temem que a mudança pese o bolso de quem não mora, mas trabalha na cidade.

Um deles é o assistente de departamento pessoal Vinicius Santos Almeida, 22, que mora em Mauá, também no Grande ABC, e trabalha em São Caetano. Ele ficou sabendo da mudança em conversas no próprio ônibus municipal e já começou a fazer as contas.

De segunda à sexta, Vinícius toma três conduções para chegar ao trabalho: um trem, um ônibus intermunicipal e um municipal de São Caetano, gratuito. Como a empresa em que trabalha paga até duas passagens por trecho, ele receia que tenha que bancar o ônibus do próprio bolso.

Vou ter que tirar [o valor das passagens] do meu salário. Vão ser entre R$200 a R$300, se seguirem a média de valor das passagens da região, que fica em torno de R$5 a R$6. Vai ser bem ruim, lamenta o jovem.

Tendo o trabalho como única fonte de renda e visando uma promoção, ele planeja estratégias para tentar equilibrar as contas. Eu vou ter que ir andando todo dia. Vai ser muito ruim. Mesmo depois de arrumado e tomado banho, vou chegar todo suado no trabalho, desabafa.

inicius teme que tenha que pagar do próprio bolso a passagem para o trabalho @Arquivo pessoal

Para Rafael Calábria, pesquisador de mobilidade do BR Cidades, o fim da tarifa zero pode prejudicar os trabalhadores do município e até esvaziar postos de trabalho, já que nem sempre as empresas custeiam todo valor gasto pelos funcionários no transporte.

Um dos efeitos esperados pela gratuidade dos ônibus é justamente a dinamização econômica e social da cidade. As pessoas, inclusive de outras cidades, tendem a transitar mais onde a tarifa é gratuita, seja para trabalho ou lazer, aquecendo o comércio local.

Além disso, o passe livre ajuda a evitar ausência em consultas médicas do SUS e garante assiduidade escolar, acesso a lazer e, até diminuição no trânsito e nas emissões de poluentes, pelo uso maior do transporte público.

As pessoas de baixa renda que precisam desse serviço vão ser mais prejudicadas. Toda política de aumento de tarifa ou perda de gratuidade impacta a população mais pobre, de forma social, cultural e em vários aspectos da vida, diz Rafael, que considera a decisão um retrocesso.

Por que o fim da gratuidade?

Segundo o gabinete do atual prefeito, Tite Campanella (PL), estudos da época da implementação do passe livre indicavam possibilidade de aumento de até 50% do número de passageiros. Três anos depois, o crescimento alcançou 300%, passando de 20 mil para 80 mil passageiros transportados diariamente, em média.

A gestão justifica a restrição na gratuidade pelas reclamações de usuários de superlotação. O órgão atribui a responsabilidade à gestão antiga, do ex-prefeito José Aurichio Júnior (PSD), por mau dimensionamento na implantação, que resultou na queda da qualidade do serviço.

Ônibus tarifa zero de São Caetano do Sul @Alexandre Yort / PMSCS

Vinicius, assistente de departamento pessoal, viu o número de passageiros aumentar nos ônibus, nas duas linhas que pode utilizar no trajeto para o trabalho. Ambas são muito cheias. Sempre é um estresse pela quantidade de pessoas, diz.

Ainda assim, a solução não passa por retirar ou restringir a gratuidade do transporte público. Para Rafael Calabria, do BR Cidades, o aumento na circulação de pessoas é um efeito esperado em estudos de implantação do passe livre e a principal medida é aumentar a frota de ônibus.

A tendência é que ocrescimento se normalize ao longo do tempo, alcançando um nível que a prefeitura consegue acomodar com novas linhas e redistribuição de coletivos

Rafael Calabria, pesquisador em mobilidade

Ele reforça que a prefeitura vai ter que recriar todo sistema de cobrança, biometria e combate às fraudes para fiscalizar os usuários – políticas que podem custar (e muito) aos cofres públicos.

A prefeitura de São Caetano não respondeu a questionamentos da Agência Mural sobre novos custos para voltar a cobrar passagens nos ônibus.

Tarifa zero para todos os brasileiros

Desde 2021, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei 3278, que institui o Marco Legal do Transporte. Além de criar uma rede única integrada, como um SUS do Transporte, a lei propõe gratuidade na tarifa. Em fevereiro de 2026, foi aprovado o regime de urgência para sua votação na Câmara dos Deputados.

Na visão do pesquisador em mobilidade, Rafael Calabria, um sistema federal de transporte, como já existe na saúde e educação, seria promissor. Isso porque o setor é muito carente de investimentos e pequenos aportes financeiros já seriam capazes de gerar impacto positivo, como a ampliação de frota.

Registro feito por Vinicius da fila no terminal de São Caetano @Arquivo pessoal

A ideia é que o sistema fortaleça uma dinâmica de subsídio, que ajudaria cidades mais pobres a conseguir zerar as tarifas do transporte público.

A tarifa zero em todos os municípios beneficiaria muito o brasileiro, porque não existiria tantos custos para o trabalhador, principalmente quem recebe um salário baixo e tem 6% de desconto na folha de pagamento pelo vale transporte, analisa Vinicius, para quem o desconto faz diferença no final do mês.

Agência Mural

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