Se depender de mim, a gente fecha as bets. Enquanto o presidente Lula declarava, em entrevista ao ICL, sua contrariedade com a jogatina desenfreada em um país religioso como o Brasil, a algumas centenas de quilômetros, em São Paulo, milhares de representantes do setor estavam reunidos na versão sul-americana da maior conferência de jogos online e apostas do mundo um evento com clima de festa e muito dinheiro envolvido.

Com ingressos entre R$ 2,6 mil e R$ 6,7 mil, o Bis Sigma South America 2026 uniu milhares de executivos e funcionários de empresas de apostas esportivas online, desenvolvedores de jogos de cassinos virtuais, provedoras de pagamentos e softwares, além de políticos, diretores e presidentes de loterias estaduais, jogadores de futebol e influenciadores.

A Agência Pública esteve no evento entre os dias 7 e 9 de abril, quando os pavilhões do Transamérica Expo Center, na zona sul da capital paulista, foram tomados por estandes tecnológicos, com luzes de led e muitos telões que exibiam imagens coloridas de jogos virtuais cheios de bichinhos, como tigres e até um vira-lata caramelo, cartas de baralho, fichas de poker, moedas douradas e cifrões brilhantes. Os expositores, muitos deles de empresas europeias e com sede em paraísos fiscais, pagaram pelo menos R$ 52 mil para montar seus espaços o pacote mais caro, que dava direito a uma área de oito por seis metros e a possibilidade de fazer um estande de dois andares, saia por R$ 235 mil.

E valia tudo para chamar a atenção: realização de sorteios com prêmios que iam de capivaras de pelúcia a iPhones, distribuição de brindes, mulheres vestidas com fantasias, como da personagem Jinx da série Arcane ou de bombeira sexy, no papel de anfitriãs,  mesas de jogos de cartas e muitas máquinas de caça-níquel. Além de oferta de bebida alcoólica alguns estandes tinham seu próprio bar com bartenders e garrafas expostas de gim, vodca, aperol, vinho e cerveja , e até um espaço do lado de fora para os participantes fumarem narguilé. Havia também camarotes dos estandes, com bebidas e comidas especiais, apenas para influenciadores.

Com uma cerveja em mãos, Heitor Augusto, que trabalha como diretor financeiro de uma empresa que preferiu não citar, participava do evento pelo terceiro ano, e destacou que o luxo é parte da proposta. Como eu trabalho no mercado financeiro, eu frequento diversas feiras e elas [geralmente] não têm esse luxo todo, porque são mais técnicas e padrões. No caso da feira de jogos, a venda do jogo é o luxo, então obrigatoriamente ele [o evento] tem que ser mais luxuoso, disse.

Além da programação oficial, com palestras sobre aspectos regulatórios, loterias estaduais, marketing digital e perfil de apostadores, a feira também promoveu campeonatos de poker, lutas de MMA e festas. Para convidados VIP selecionados, o after foi um final de semana em um resort de luxo em Florianópolis (SC).

Fala de Lula é vista como delírio e setor prega vencer disputa por imagem via ganhos econômicos

O evento expôs a riqueza associada ao setor, o que aponta para o tamanho da briga que o presidente Lula pode comprar se realmente passar a defender o fechamento das bets. Na quinta-feira, 9 de abril, dia com programação dedicada em grande parte às loterias públicas, vários dos presentes no evento reagiram à declaração do presidente, dada um dia antes.

O diretor geral da Loteria do Estado de Minas Gerais, Onésimo Diniz, por exemplo, disse que a união de todos no setor é o que pode fazer com que a fala de Lula seja simplesmente um delírio.

É recorrente [vermos] mensagens, discursos, entrevistas de líderes políticos importantes se colocando contra o mercado de loterias brasileiro, apesar da pujança desse mercado, comentou o advogado Roberto Brasil Fernandes, referência na área de loterias estaduais.

O Presidente da República deu declarações bombásticas, disse Paulo Horn, presidente da Comissão Especial de Direito dos Jogos Lotéricos da OAB/RJ. O fato é que não dá para o governo arrecadar de dia e bater de noite.

Ao longo do evento, Horn e outros representantes defenderam o setor justamente por seu suposto impacto econômico positivo. Eles lembraram o quanto o governo tem arrecadado (no ano passado foram quase R$ 10 bilhões em tributos, parte deles direcionados para políticas de educação, segurança pública, esporte, turismo e saúde), e como as loterias estaduais também financiam políticas públicas. Algumas dessas loterias, como a do Rio de Janeiro e da Paraíba, já passaram a oferecer apostas esportivas online e os jogos virtuais de caça níquel.

Eles reconheceram, porém, a imagem negativa associada ao mundo das apostas e dos cassinos online, atribuída à ausência de uma representação efetiva junto ao Congresso Nacional (o famoso lobby) e à falta de união das grandes empresas e associações.

É fundamental que as grandes associações, como a ANJL [Associação Nacional de Jogos e Loterias], Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, entre outras, se unam em prol de um propósito: ajudar a população perceber os benefícios dos jogos, disse Filipe Alves Rodrigues, secretário da comissão da OAB-RJ, sem detalhar quais benefícios seriam esses.

Rodrigues sugeriu que seja criado um dia do jogo online do Brasil, com campanhas em diferentes espaços. Por que não fazer ações simultâneas em todo o Brasil, em hospitais, em creches, em maternidades, em delegacias voltadas para a mulher, de forma uníssona, de forma conjunta, para o quê? Impactar socialmente a população e fazer com que a população dê de fato uma licença social para que esses jogos possam existir no Brasil, afirmou.

Outro ponto que também reputo como fundamental é a unidade do setor para poder fazer a defesa clara não no campo da moral e dos bons costumes, completou Horn.Não é nesse campo que a gente vai ganhar. A gente vai ganhar num debate científico, dentro do campo do direito e da economia (…), porque no campo da moral, é óbvio que o jogo traz uma série de malefícios. A gente não tem dúvida, a gente não vai ficar dizendo que o jogo não pode causar vício assim como outras atividades causam vício. Mas a gente não pode dizer que por isso vai ser criminalizado (…) Se causa vício, vamos para as políticas públicas de saúde, disse.

Apesar dos argumentos, o vício em apostas online já é considerado um problema de saúde pública no Brasil e tem, inclusive, impactado o INSS. Uma reportagem do The Intercept Brasil mostrou que, entre junho de 2023 e abril de 2025, o número de auxílio-doença concedidos mensalmente por ludopatia, um transtorno que faz a pessoa ter o desejo incontrolável de continuar jogando, aumentou mais de 2.300%.

Em entrevista à Pública, um dos diretores da Bet BRA, Stefano Andrade, avaliou que a declaração do presidente pode ser uma ameaça aos investidores do setor, que hoje contam com a regulamentação. Na interpretação dele, assim como o agro foi o vilão uma vez, depois se transformou no pop, as bets seriam as vilãs do momento.

Acho que seria burrice minha não pensar nessa possibilidade [da proibição das bets]. Mas acho que a gente não pode deixar a peteca cair. A gente tem que continuar brigando, lutando, convencendo os investidores que essa [mercado regulamentado] é a melhor opção, reagiu.

Bets contribuem para endividamento da população; setor contesta dados

Liberadas durante o governo de Michel Temer, as bets passaram anos sem adequada regulamentação, como previa a lei de 2018. Ao longo desse período, os sites de apostas e cassinos virtuais se proliferaram no Brasil, a partir de plataformas que operavam fora do país e remetiam seus lucros com a jogatina dos brasileiros também para o exterior.

No final de 2023, após anos no limbo, foi sancionada a Lei 14.790, que autorizou as chamadas apostas de quota fixa para eventos esportivos e também abriu caminho para os cassinos online, como o famoso jogo do Tigrinho, posteriormente regulamentados em portaria. A lei estabeleceu uma série de regras e determinou que todas as bets devem ser autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda.

Atualmente, 187 marcas de bets estão autorizadas pela SPA a operar no país e o governo afirma ter bloqueado mais de 25 mil sites irregulares. Em 2025, o setor teve uma receita de cerca de R$ 37 bilhões.

Hoje o cassino tá dentro da sua casa com o seu filho de 10 anos, com o seu neto de 11 anos, com a sua neta, com sua filha, utilizando o celular do pai que é contra o jogo de azar, gastando dinheiro desnecessário, afirmou Lula ao ICL.

Mais de 25 milhões de brasileiros apostaram em bets no ano passado. Diferentes pesquisas e estudos vêm levantando os impactos do hábito de apostar na saúde mental e financeira dos brasileiros. Um estudo recente do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo) e da FIA Business School, por exemplo, comparou a influência de diferentes fatores sobre as dívidas das famílias e concluiu que as bets são o principal fator da aceleração do endividamento, superando o peso do pagamento de juros e tomada de empréstimos.

O instituto de pesquisa Quaest também têm observado o impacto das bets em suas pesquisas qualitativas. Em entrevista ao podcast O Assunto, o diretor do instituto, Felipe Nunes, disse que a forma como os brasileiros estão jogando é o principal elemento por trás do descompasso, captado nas pesquisas, entre os indicadores econômicos (como aumento da renda salarial, desemprego na mínima histórica, crescimento da economia) e a percepção da população sobre a economia, majoritariamente negativa.

Em salas de espelho [onde são realizadas as pesquisas qualitativas] com homens e mulheres, você não escuta a palavra bet. Quando você vai pra sala só com os homens aí eles revelam: estão jogando escondido. (…) Tem renda, mas de alguma maneira essa renda está indo pelo ralo por conta desse comportamento de jogo, explicou Nunes.

Entre executivos e lobistas do setor, as pesquisas sobre o peso das bets no endividamento da população chegaram a ser contestadas. Quem aposta no mercado regulado, aposta em média R$ 1,4 mil por ano. A maioria das pessoas aposta R$ 10, R$ 30 por mês. As classes C e D representam somente 15% do mercado. Como nós somos responsáveis pelo endividamento?, questionou uma diretora de associação do setor que preferiu não se identificar e que atribui ao mercado ilegal a responsabilidade por apostadores compulsivos.

As casas não regulamentadas, aliás, foram apontadas como o verdadeiro problema do setor por vários dos palestrantes. Defender o combate às plataformas ilegais muitas delas ligadas ao crime organizado, segundo os painelistas seria um caminho para convencer políticos, temerosos de perder votos, a defender o setor, de acordo com Rodrigo Marinho, diretor executivo do Instituto Livre Mercado.

Marinho foi um dos vários palestrantes que mencionaram a Curva de Laffer, uma teoria que defende que, se a tributação fica excessivamente alta, a arrecadação desaba porque deixa de valer a pena produzir. O argumento é utilizado para defender que a tributação sobre o setor não seja aumentada, porque isso impulsionaria plataformas e consumidores para o mercado ilegal.

Várias bets autorizadas tinham estandes no evento, como a Esportes da Sorte, que patrocinou festas de carnaval no Brasil, a Playbet, que começou a investir em vaqueiros populares das vaquejadas no final do ano passado, e a Apostou., criada no Paraná. Mas também havia um grande número de expositores estrangeiros e de marcas que ainda não passaram pelo crivo da SPA, como a Melbet e a Betwinner.

Há ainda o caso de uma bet que só está operando por ter conseguido uma decisão judicial: a Zeroum, da influenciadora Deolane Bezerra, que chegou a ser presa em duas ocasiões por suspeitas de utilizar a casa de apostas para lavagem de dinheiro. No evento, porém, o estande da empresa ficou lotado de pessoas que faziam fila para tirar fotos com Bezerra.

Apesar da pujança, frequentadores dizem que evento diminuiu

A despeito do luxo de muitos estandes e das festas destinadas a quem adquiriu ingressos mais caros, parte dos participantes da conferência, destacaram que o evento parecia menor do que nos anos anteriores. Houve quem atribuísse a redução ao processo de regulamentação que as plataformas passaram em 2024, como foi o caso do desenvolvedor Bruno Ferreira, que participava pela terceira vez do evento, sempre como convidado pelas casas de apostas.

Antes da regulamentação, o evento era mais interessante. No geral, o número de casas era maior, que proporcionavam uma experiência muito melhor […] Depois que regulamentou, caiu muito, disse.

O mesmo foi notado pelos experts em games, como são conhecidos Giovani Antônio de Souza, de 37 anos, e Nathan Ranieri, 31, que também participavam do evento pelo terceiro ano. Eles estiveram na feira a convite da Esportiva Bet, plataforma de apostas de cassinos online, onde a dupla é responsável por divulgar os jogos nas redes sociais para conquistar novos apostadores, além de ensinar técnicas para aumentar os ganhos durante as apostas.

No ano passado, estava maior, com mais casas de apostas brasileiras. [Neste ano], podiam ter mais casas. Não sei se é porque o evento é muito caro, disse Souza.

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Agência Pública - Luxo, bebidas, lista vip e after em Floripa: bets ostentam poder durante evento em SP