O que esperam de nós pela nossa origem ou pelo lugar que moramos? Foi um dos questionamentos que tive durante uma conversa com minha namorada esses dias. Nós dois somos jornalistas, filhos de migrantes nordestinos, nascidos e criados na periferia da zona leste de São Paulo. Como nós, outros milhões com esse mesmo histórico.

A proximidade geográfica e a similaridade familiar nos trouxe experiências parecidas e nos fez refletir como as periferias se conectam no modo de vida, afinal, cantava GOG, o poeta do rap nacional, que periferia é periferia em qualquer lugar.

Mas, ao mesmo tempo, sinto que cada região e zona dessa imensa São Paulo tem um jeito único e carrega diferentes estereótipos.

Cohab Teotônio Vilela 1 na zona leste de São Paulo @Matheus Santino/Agência Mural

Durante a conversa, lembrei de uma situação que passei anos atrás em uma entrevista de emprego. Logo após eu ter falado o bairro onde morava, me foi perguntado se era verdade que os homens da zona leste eram mais machistas que os outros. Gelei na hora.

Qual a importância daquela pergunta para o decorrer da entrevista? Não sei, mas tive a sensação de que a minha resposta poderia decidir se eu conseguiria aquele emprego ou não.

No momento, eu nem entendi o peso do questionamento, feito em meio a risadas, enquanto eu era visto quase como uma pessoa exótica tentando adentrar um lugar que, aparentemente, não tinha sido construído para homens que vêm de onde eu venho.

Vila Lar Nacional, Pq Novo Lar e Cohab Teotônio Vilela 1 @Matheus Santino/Agência Mural

Em segundos vieram vários pensamentos na minha cabeça: será essa a visão que essa pessoa tem de mim? Existe um dado sobre isso? É esse comportamento esperado de uma pessoa como eu?.

Desconfortável, respondi que nunca tinha ouvido falar sobre isso e que, para mim, tinham essa percepção por ser uma região majoritariamente de bairros pobres, mas que essa afirmação não era verdadeira. Pensando agora, deve ser isso que esperam de bairros periféricos: pessoas sem instrução, atrasadas e com comportamentos não aceitos pela sociedade.

Afinal, os homens da zona leste são mais machistas? Sinceramente, não acho. Com tantos casos de feminicídio, abuso sexual e violência doméstica contra mulheres nos últimos tempos, não quero que isso pareça um discurso de defesa como aqueles nem todo homem, longe disso. Mas acredito que rotular uma região da cidade como mais machista é também uma forma de desumanizar as pessoas que vivem lá.

Nesse mesmo sentido, recentemente, vi um post no Instagram que comentava sobre a ampliação da Linha Verde do Metrô e da Linha Coral da CPTM: ambas irão passar pela estação Penha, que já faz parte da Linha Vermelha, principal meio para quem é da ZL ir para o centro.

Nos comentários, vi pessoas revoltadas porque, segundo elas, agora a linha verde vai ficar um inferno e cheia de favelado e gente mal educada.

Monotrilho da região de Sapopemba, na zona leste @Matheus Santino/Agência Mural

É curioso, porque já perdi as contas de quantas vezes demorei quase 1 hora para conseguir um Uber de noite ou de madrugada para casa ou de quantas vezes o motorista aceita, mas reclama o caminho inteiro, dizendo ter medo de ser roubado e que se tivesse visto para onde era a corrida, não teria aceitado.

Se no Uber, pagando pelo conforto, nós somos hostilizados, e se uma expansão do metrô para o lado leste da cidade também é visto como algo negativo por alguns, o que devemos fazer? É sempre o pior que esperam de nós?

A impressão é que, por esperarem tão pouco, nos invisibilizam. Rotulam uma zona inteira, com exceção de alguns bairros aceitáveis. Querem esconder esse lado da cidade para que ninguém saiba o que acontece aqui. Não querem que a gente circule porque, da Penha (a Zona Leste aceitável) para trás, nada presta. Mas eles vêm saber o que acontece por aqui?

Monotrilho da estação Jardim Planalto @Matheus Santino/Agência Mural

Aliás, lembro até hoje que esse uber que ficou com medo de ser roubado me falou que morava na Vila Carrão, uma parte mais aceitável da ZL. Só pude soltar uma risada no banco de trás.

Passando por tudo isso e vendo como as pessoas enxergam a Leste, refleti sobre o que ela significa para mim. A sensação que me veio foi de uma grande casa, um ambiente familiar.

Não importa a quebrada que eu esteja, se for na zona leste, sinto que estou em casa, me sinto conectado às pessoas que vivem ali. O pertencimento nos une.

É aquela sensação de descer do metrô em Itaquera e automaticamente sentir o cheirinho de churrasco e pensar que aquele dia difícil está chegando ao fim, porque você já está em casa, mesmo que ainda falte um trajeto longo de ônibus.

Quadra da Nenê de Vila Matilde @André Possidônio/Divulgação

Sabe aquela fita de romantizar um pouco a sua vida ou a sua realidade? Acho que é um pouco disso.

Não sinto raiva daqui, não vejo como o pior lugar do mundo e com certeza não acho que as pessoas daqui sejam piores do que as de outros lugares. Pelo contrário, aqui estão as raízes da minha família, aqui eu nasci, aqui fiz minhas primeiras amizades e aqui foi o meu primeiro significado de mundo. Diverso, caótico e bonito aos olhos de quem sabe enxergar beleza.

Porque aqui o sol nasce primeiro e é essa beleza que ilumina meu povo – o povo em quem eu acredito. Já que querem tanto que fiquemos só entre os nossos, lembro o enredo de 1988 da Nenê de Vila Matilde, lema da escola até os dias de hoje e que é poético e poderoso: Zona Leste somos nós.

Agência Mural

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