Hagata Matias, 17, tinha uma visão básica do que era a natureza. Era algo distante de onde morava. Imaginava um lugar muito verde. Não conseguia relacionar isso com a periferia, conta a estudante que vive no Jardim São Luís, na zona de São Paulo. A percepção dela mudou nos últimos meses.
Ela aprendeu sobre como plantar sementes e também a fazer atividades com uma composteira, sistema que transforma restos de alimentos (cascas de frutas, legumes, borra de café) em adubo orgânico. Vi que posso colaborar com o meio ambiente com atitudes simples, ressalta.
A adolescente é uma das participantes do curso JMA (Jovens Monitores Ambientais), onde foi apresentada a uma nova forma de compreender a natureza por meio de um dos princípios da permacultura: Cuidar da terra, cuidar das pessoas e a partilha justa.
O contato com o verde em atividades externas fazem parte do cotidiano dos jovens no curso @Projeto Inspirar/Divulgação
O programa é realizado pela Fundação Julita, entidade que atua na região, e onde trabalha a educadora Thaís Rosa, 29. Além de lecionar as atividades, Thais também é supervisora pedagógica do Centro de Educação Ambiental da Julita e do Projeto Inspirar.
Thais defende a necessidade de se falar em questões ambientais no cotidiano dos moradores do bairro. Principalmente nesses tempos de crise climática onde as periferias são ainda mais afetadas.
Thais afirma que o projeto ensina os jovens a ter contato com a natureza @Daniel Santana/ Agência Mural
O projeto nasce de uma leitura socioambiental do bairro, uma área urbanizada, periférica e com pouca presença de áreas verdes. O Inspirar propõe que eles (jovens) aprendam sobre as relações com a natureza, conta. “O conhecimento está nos territórios: nas vielas, nos campos de futebol, nos bares, nas igrejas, nos terreiros, nos espaços culturais.”
‘A periferia tem força, tem gente interessada e potência para colaborar com o meio ambiente’
Thais, educadora
Segundo o Mapa da Desigualdade de 2024, entre os 96 distritos da capital, o Jardim São Luís ocupa a 40ª posição no percentual de áreas com cobertura vegetal, com 24,1%.
Na comparação com outros bairros da zona sul, a região fica na 12ª colocação, atrás de distritos periféricos com forte presença de áreas verdes, como Marsilac e Parelheiros, mas também abaixo de bairros considerados nobres, como Morumbi e Moema.
O projeto começou em 2023 e chegou à segunda edição em outubro de 2025 com o objetivo de formar 30 jovens, de 15 a 17 anos.
Leonardo e Julia em uma atividade externa com as plantas @Projeto Inspirar/Divulgação
Ao longo de 12 meses, a proposta é passar por questões ambientais, técnicas de permacultura (sistema de planejamento sustentável que integra saberes científicos e tradicionais) e oficinas de contato com a natureza, fauna e plantio.
Os alunos exploram o espaço no entorno da Fazendinha da Fundação Julita, literalmente colocando as mãos na terra: aprendem a plantar feijão, algodão e até urucum em pequenos recipientes.
Também entendem a importância do uso de cisternas, a separação do acervo de pigmentos naturais e até a catalogar insetos raros ainda existentes em um pedacinho da mata atlântica da periferia.
Animais como besouros e outros aracnideos já foram encontrados e estudados pelos jovens @Daniel Santana/Agência Mural
Além de Hagata, Julia Barreto e Leonardo Andrade, ambos com 17 anos, também fazem parte do projeto. Conheci o projeto por indicação de uma amiga da escola e me interessei. São coisas que dificilmente aprenderia com tanta profundidade fora daqui. O tema do meio ambiente me chamou atenção, afirma Hagata.
Julia destaca que a permacultura envolve tudo o que acontece na natureza, inclusive processos invisíveis, como os do solo. Antes, ela via a terra de forma simplificada, sem compreender a origem ou funcionamento.
‘As estruturas que a gente constrói aqui, como o domo geodésico e o hiperadobe para atividades ao ar livre, me fazem enxergar possibilidades no ambiente. Começo a perceber elementos que antes passavam despercebidos, mas que estão presentes no dia a dia‘
Julia, aluna do projeto Jovens Monitores Ambientais
Na confecção do domo geodésico, os alunos do projeto apresentaram às crianças do Ipezinho (ação da Julita que atende crianças na faixa etária de 4 a 5 anos) como aprender sobre sustentabilidade brincando.
O domo nos mostra uma maneira ecológica de se construir uma casinha, por exemplo, já que materiais como bambu e tecido não poluem. Hoje, por meio desta e outras atividades, consigo enxergar melhor como tudo se conecta na natureza, complementa Julia.
O conhecimento ultrapassa o ambiente do curso e chega às famílias, como no caso de Leonardo, reforçando a importância dessa troca. Ele passou a levar para a convivência de casa os aprendizados ao ajudar sua mãe com as plantas que ela possui.
Nós não cuidavamos muito bem (das plantas). Depois que aprendemos sobre compostagem aqui, comecei a explicar para ela sobre adubo, fertilização e como deixar o solo mais vivo. Isso ajuda muito no crescimento das plantas, conta.
Algumas das plantações feitas pelos jovens @Daniel Santana/Agência Mural
O projeto é financiado pelo Condeca (Fundo Estadual da Criança e do Adolescente) e está no segundo ciclo de apoio, com recursos voltados ao fortalecimento do desenvolvimento local por meio das atividades do JMA.
Ainda assim, Thaís aponta que um dos principais desafios para sustentar iniciativas como essa nas periferias é a ausência de investimentos na área, além da dificuldade cultural de reconhecer o meio ambiente como parte da educação.
Para Hagata, Leonardo e Julia, ações como hortas comunitárias, reciclagem e a ampliação de áreas verdes já seriam passos iniciais importantes, mas é preciso que isso chegue a mais moradores.
Mudaria a comunicação, para que todos pudessem se unir em torno dessas ideias. É algo que todo mundo deveria vivenciar. Muda a forma como a gente enxerga a natureza e o nosso papel no mundo, afirma Julia.
Para o jovem, desde o início do curso no final de 2025, falar de meio ambiente com os colegas de classe e também com a família é algo de que ele gosta muito. Gostaria muito de plantar mais árvores com as pessoas da região, porque o bairro é muito asfaltado, muito quente e tem muita poluição. Falta esse contato com a natureza no nosso dia a dia e para mudar, é necessário união de todos, conclui.
O curso irá até setembro deste ano e ainda possui vagas em aberto.
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