Com mais de 77 mil passageiros em dias úteis, a estação de trem metropolitano Guaianases, na zona leste de São Paulo, é uma das mais movimentadas da Linha 11-Coral. Apesar do alto fluxo, a falta de escadas rolantes e elevadores tem dificultado o acesso de usuários. O problema é ainda mais grave em horários de pico (entre 6h e 9h e 17h e 20h).
Utilizo a estação de manhã e à noite, sempre cheia. A falta de escada rolante pesa muito, principalmente na volta, quando o corpo já está cansado, chega a doer. Já deixei de entrar na estação e passei a ir até Itaquera por causa disso, conta a enfermeira Érica Regina Martins, 38, que reside próximo à estação.
Mesmo sem equipamentos que garantam acessibilidade, entre janeiro e novembro de 2025, a estação registrou 20,8 milhões de embarques. O total corresponde a ao menos 15% do total de passageiros transportados em toda linha no período, segundo dados obtidos via LAI (Lei de Acesso à Informação).
A Companhia diz que o espaço é acessível por conta das rampas. “Escadas rolantes são itens de conforto, e não de acessibilidade”, respondeu a Companhia no pedido via LAI.
Movimentação intensa na escada dentro da estação Guaianases, que recebe milhares de pessoas por dia @Ana Claudia Silva/Agência Mural
Não é o que pensam passageiros que precisam circular pelo local. A ausência de escadas rolantes e elevadores afeta principalmente quem tem dificuldade de locomoção. Ao menos 819,9 mil passageiros com deficiência passaram pela estação entre janeiro e dezembro do último ano (cerca de 2 mil por dia), o que corresponde a 25,6% de todos os usuários com deficiência da linha 11-Coral.
Além disso, 1,8 milhão de idosos utilizaram o local, representando 18,5% dos embarques desse público na Linha 11-Coral, segundo dados obtidos via LAI.
E é justamente quem precisa de mais suporte que encontra barreiras. É o caso da empregada doméstica Maria das Graças, que mora no Jardim Lourdes, na zona leste de São Paulo. Ela é uma pessoa com deficiência, faz uso de muletas e depende da estação para se locomover pela cidade.
‘É muito ruim não ter escada rolante. A gente sobe tudo a pé, chega lá em cima já cansada e ainda precisa seguir o caminho. Tenho problema de coluna, dificuldade na perna e falta de equilíbrio, então sinto muita dor’
Maria das Graças, empregada doméstica
A falta de estrutura também é um problema antigo, vivenciado pelos passageiros há pelo menos duas décadas, como conta Dacira Rodrigues, 40, vendedora e moradora de Guaianases.
Uso essa estação há 18 anos e sempre foi assim, sem escada rolante e sem elevador. No horário de pico, é extremamente difícil. Quem tem alguma limitação precisa subir pela rampa, diz.
A jovem Shirley Pasqual Custódios, 22, moradora de Carapicuíba e atendente de uniformes de um hospital, evita a estação devido a falta de acessibilidade. Grávida de sete meses e mãe de uma menina de cinco anos, a ausência de elevadores e escadas rolantes limitam seus deslocamentos. Torna tudo mais difícil. Já vi idosas caindo e situações de desrespeito. Não encontrei elevador na estação, diz.
Sem escadas rolantes, passageiros enfrentam a subida a pé em meio ao fluxo intenso nos horários de pico @Ana Claudia Silva/Agência Mural
Situação semelhante é vivida por Radaf Vivence, 23, grávida de seis meses e que utiliza o trem para se deslocar ao trabalho junto com o companheiro, Rian Vieira, 23. Ambos trabalham com enfermagem.
A gente usa a estação todos os dias, às 5h e às 19h30. Agora que ela está grávida, fica ainda mais complicado. Aqui não tem escada rolante nem elevador. É muito desgastante, lamenta Rian.
Item de conforto, diz CPTM
Em resposta encaminhada via LAI, a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) afirma que a estação Guaianases é considerada acessível conforme a legislação vigente, por possuir rampas nos acessos e rotas táteis.
A companhia também destaca que as escadas rolantes são classificadas como itens de conforto, e não de acessibilidade. Segundo a empresa, funcionários são treinados para auxiliar pessoas com deficiência durante o deslocamento dentro da estação, e não há registro de acidentes relacionados à acessibilidade.