Quem cresceu na periferia de São Paulo entre os anos 1990 e 2000 sabe que o rap foi um dos ritmos mais presentes no dia a dia, e seus impactos são sentidos até hoje.

Com letras que abordavam temas como racismo, desigualdade e o cotidiano das comunidades, o gênero ajudou muitos jovens a entender a própria realidade e imaginar outros caminhos.

Wellington Correia, 36, morador de Paraisópolis, é um exemplo dessa geração que encontrou no rap uma forma de expressão, identidade e direção.

O rap foi o pai que eu não tive, afirma Wellington Correia, rapper e produtor musical.

Wellington é produtor musical de outros rappers @Ellie Sasi/Agência Mural

Desde a adolescência, o rapper se dedica à música. Nascido e criado em Paraisópolis, ele passou a imaginar um futuro como cantor, inspirado na realidade que vivia e nos grupos de rap nacional que estavam em ascensão nos anos 1990. O primeiro contato com o gênero, porém, aconteceu ainda na infância.

Quando eu ia na casa das minhas tias, elas sempre estavam ouvindo CDs dos Racionais e do 509-E. E ali fui introduzido ao mundo do rap, ao mundo do hip-hop. A primeira música que ouvi foi ainda nos anos 90. O meu ex-padrasto tinha um vinil do Comando DMC. Eu era muito novo, mas as batidas já me chamavam a atenção. Ali já comecei a gostar.

Com o passar dos anos, o interesse pelo rap foi crescendo junto com ele. Para Wellington, as músicas deixaram de ser apenas entretenimento e passaram a servir como orientação em diferentes momentos da vida.

‘Eu acredito que, no mundo em que vivia e no ciclo daquela época, se não fosse o rap, nem estaria aqui contando esse depoimento’

Wellington, rapper

Ele lembra que as letras que escutava foram essenciais para construir referências sobre história e filosofia algo que também refletia na escola.

Quando me perguntavam questões de história na escola, eu já sabia, porque o rap já falava sobre isso.

O artista guarda um diário com fotos no qual relata o dia do hip hop na escola @Ellie Sasi/Agência Mural

Aos 18 anos, Wellington começou a escrever as próprias composições, tendo como principal referência, o grupo Facção Central, e, a partir disso, decidiu transformar essa relação com a música em um projeto autoral. Assim nasceu o Apologia Sonora.

Desde então, o projeto já resultou em seis álbuns lançados ao longo dos anos

  • Renascendo das Cinzas (2011)
  • Humildade nas Palavras Ricas (2014)
  • O Sistema Mata (2015)
  • Quem Não Senta Pra Aprender Não Fica Em Pé Pra Ensinar (2017)
  • Poesia Fantasma (2021)
  • A Isca Perfeita (2025)

Autodidata, Wellington entendeu que, para além da composição, precisaria aprender a produzir os próprios instrumentais. Por isso, diversas produções já lançadas foram feitas em seu estúdio.

Tudo que faz parte do estúdio é do próprio bolso. Às vezes, até tirando de onde não posso, comprando um equipamento aqui, outro ali, melhorando e me aperfeiçoando.

Embora já reúna milhares de ouvintes nas plataformas digitais, ele afirma que o retorno financeiro ainda é pequeno. Mesmo assim, qualquer valor arrecadado é reinvestido na própria música. Qualquer valor que eu consiga invisto no Apologia. Nem que seja em um cabo de 10 reais.

Para o rapper, a motivação nunca esteve ligada à fama ou ao reconhecimento imediato. O objetivo é que suas letras provoquem reflexões em quem escuta assim como aconteceu com ele.

Wellington é produtor musical de outros rappers @Ellie Sasi/Agência Mural

Quero que alguém, em algum momento, pare para escutar a letra e pense: caraca, que mensagem, e que isso mude sua direção.

Outro caminho encontrado no rap

A relação com o rap também aparece na história de Edielson Soares, 43, conhecido artisticamente como Edi-E. Morador de Paraisópolis desde os anos 1990, ele encontrou no gênero uma referência importante ainda jovem.

O momento que mais marcou esse início foi quando ele ouviu uma das músicas mais conhecidas dos Racionais MCs.

Quando ouvi O Homem na Estrada, dos Racionais MCs, me identifiquei e falei: meu, eu tenho que fazer uma parada mais ou menos dessa forma aí.

Edielson também tem o próprio estúdio em Paraisópolis @Ellie Sasi/Agência Mural

A partir dali, o rap passou a fazer parte do cotidiano de Edi-E e também influenciou a forma como ele, até então, enxergava o próprio caminho.

O rap fez parte da minha vida, me livrou de muita coisa, da criminalidade. Eu andava muito com os caras das antigas, mas nunca me envolvi com nada de errado. Foi ouvindo o rap que pensei: não, esse não é o caminho.

Após conhecer o grupo Apocalipse 16, Edielson decidiu direcionar as composições para o rap gospel, aproximando a música da fé.

Hoje, ele divide o tempo entre a música e a administração de uma academia, localizada na comunidade. O rapper prepara, inclusive, o lançamento do primeiro álbum A Carta Viva.

Rap, identidade e saúde mental nas periferias

As histórias de Wellington e Edielson ajudam a entender o porquê do rap ter tanto impacto na vida dos jovens que crescem nas comunidades de São Paulo. Para o psicólogo Gustavo Ribeiro, 26, morador do Campo Limpo e apreciador do gênero, a música pode funcionar como um importante suporte emocional.

‘No rap, muitas vezes alguém está colocando em palavras aquilo que outras pessoas também sentem ou vivem. Isso gera identificação e cria um sentimento de pertencimento’

Gustavo, psicólogo

De acordo com o especialista, essa identificação pode contribuir para o bem-estar emocional e para a forma como os jovens interpretam a própria realidade.

Quando alguém coloca um fone e escuta uma música que faz sentido para aquela realidade, é como se entrasse em um espaço próprio. Aquilo pode trazer conforto, reflexão e até ajudar na tomada de decisões.

Agência Mural

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