Maria*, 17, mantinha uma rotina de estudos, treinos e trabalho durante a manhã e tarde e cursava o ensino médio à noite na escola estadual Oswaldo Gagliardi, em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo.
Sem aviso prévio, a escola fechou o ensino noturno no começo de 2026 e transferiu os alunos para outra unidade, afetando a vida dos jovens. Com a mudança de escola, veio um desgaste mental de organizar toda a rotina de novo, diz a estudante.
A escola faz parte da URE (Unidade Regional de Ensino) Leste 3, responsável pela jurisdição das escolas estaduais nos distritos de Cidade Tiradentes, Guaianases, Iguatemi, José Bonifácio e São Rafael.
São 48 escolas com ensino médio nos distritos da Leste 3, mas apenas 18 funcionam no turno da noite. O Iguatemi tem maior oferta, com 6 escolas abertas à noite, enquanto José Bonifácio tem apenas uma.
José Bonifácio tem apenas uma escola com ensino médio noturno @Divulgação
Agora aluna da escola estadual Cláudia Dutra Viana, também em Cidade Tiradentes, Maria conseguiu se adaptar, mas viu colegas cogitando abandonar os estudos pela necessidade de trabalhar, enquanto outros tiveram que procurar um novo emprego. É difícil achar um trabalho de jovem aprendiz no período da tarde para a noite, diz.
O filho de Amanda, que pediu para não ser identificada, seguiu o mesmo caminho que Maria. O jovem fez o 1º ano do ensino médio na escola Oswaldo e só soube da mudança para a Cláudia Dutra em janeiro, quando entrou no Sala do Futuro, plataforma digital da Seduc-SP (Secretaria da Educação do Estado de São Paulo).
O jovem trabalha registrado durante o dia e o encerramento do noturno, sem que os responsáveis fossem avisados, poderia ter um impacto maior se não houvesse outra escola próxima.
Tenho outro filho de 12 anos que estuda no Oswaldo e pensa em trabalhar quando começar no ensino médio. Espero que até lá o Dutra não feche o noturno, porque será difícil achar outra escola na região à noite, diz Amanda.
Além dos alunos, os professores também foram afetados. É o caso de Jéssica, professora da região que prefere não se identificar. Ela comenta que a Oswaldo Gagliardi tinha nove salas no noturno, que foram transferidas para a Cláudia Dutra, que já tinha 12, sem abertura de novas salas e melhorias na estrutura.
A docente denuncia que alguns colegas perderam aulas após o fechamento e que ela teve que refazer todo seu planejamento, já que 80% dos seus alunos eram do ensino médio noturno. Uma escola que funcionava há mais de 25 anos no noturno e sempre caminhou muito bem, com alunos regularmente matriculados e sem evasão. Ficamos sem entender, desabafa.
E.E. Profº Simão Mathias, no Iguatemi, não oferece mais ensino médio noturno @Matheus Santino/Agência Mural
Professores, pais e alunos da escola Oswaldo Gagliardi fizeram um abaixo-assinado contra o encerramento do noturno para pressionar a diretoria. Apesar da grande adesão, o instrumento não teve efeito.
Outras escolas da Leste 3 sofrem o mesmo processo. No Belize, eliminaram os 1º anos de ensino médio. No Simão Mathias, Ruy de Mello e Borges não oferecem mais o noturno, diz Fabio* professor de uma escola no Iguatemi. Ele teve o nome mudado, pois teme retaliações. As unidades citadas ficam no Iguatemi e Cidade Tiradentes.
O fechamento das turmas causou transtornos estruturais na escola em que ele dá aula. O professor diz que, para acomodar alunos transferidos da noite, utilizaram de maneira irregular salas de informática e de leitura como salas de aula.
Nas salas improvisadas, não havia lousas até pouco tempo e, até a entrevista, não tinham chegado carteiras adequadas. Os alunos estudam em mesas redondas de seis cadeiras. Enquanto isso, a escola tem falta de inspetores, um elevador que nunca funcionou e 70 degraus para chegar ao último andar, relata.
Versão da secretaria
Em nota, a Seduc afirmou que garante atendimento a estudantes que precisam do noturno em unidades próximas e com vagas, conforme normas vigentes, e que a abertura de turmas considera a demanda anual e a distribuição de vagas.
Sobre a URE Leste 3, disse que as escolas citadas não tiveram demanda por turmas noturnas e outras aderiram ao Programa de Ensino Integral. Atualmente, há 15 escolas com ensino noturno e 11 do programa integral de sete horas, com aulas até as 21h30.
Em relação à infraestrutura, a Seduc diz não haver registro de uso irregular generalizado de salas pedagógicas como salas de aula e que, em situação pontual, houve atraso logístico na entrega de mobiliário destinado a salas construídas em projeto de ampliação, situação já regularizada.
Quem é mais afetado
Gabriel Di Pierro, coordenador da área de juventude da Ação Educativa, diz que o fechamento de turmas nunca parou e tem sido feito com baixa transparência.
‘É uma retomada silenciosa [do fechamento de turmas]. Está vinculado à implementação de escolas de tempo integral, que não mantêm uma oferta diversificada’
Gabriel Di Pierro, da Ação Educativa
Grande parte das escolas da Leste 3 migrou para a EPT (Educação Profissional Técnica) ou para o PEI (Programa de Ensino Integral) de sete ou nove horas.
E.E. Profª Carmelinda M. Pereira é uma das escolas no distrito do Iguatemi que oferece ensino médio noturno @Matheus Santino/Agência Mural
A pesquisa “Reflexões, Desafios e Perspectivas sobre o Ensino Médio Noturno” traz um panorama da situação do ensino médio no Brasil. A iniciativa do Instituto Fefig emparceria com aFundação Roberto Marinho e o apoio do Itaú, Educaçãoe Trabalho sistematiza achados de dados secundários (IBGE/Pnad e Inep/Censo Escolar) e entrevistas com especialistas e com jovens.
O relatório mostra que as matrículas no ensino médio regular no Brasil atingiram o ápice em 2004, com mais de 9 milhões de estudantes.
Em 2020, o número caiu para 7,5 milhões, uma queda de 18%. No período noturno o impacto foi ainda maior: entre 2007 e 2019, as matrículas caíram de 3,4 milhões para 1,3 milhão, uma redução de 60%.
Segundo a pesquisa, a necessidade de trabalhar é motivo de abandono para 40% dos alunos e a principal causa de evasão escolar entre os entrevistados.
Ana Lima, coordenadora do Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional), comenta que o assunto é complexo e divide os especialistas em educação, o que torna ainda mais difícil chegar a uma resolução.
O ensino médio noturno não mantém a qualidade do diurno devido à jornada de trabalho, cansaço e tempo curto. Alguns acreditam que é melhor ter um ensino “Série B” do que nada; outros defendem que jovens de 15 a 18 anos não deveriam trabalhar, mas sim estudar de dia com qualidade”, afirma Ana Lima.
“O problema é que, ao fechar vagas noturnas sem oferecer alternativas, você acaba condenando certos grupos a abandonar a escola.
A especialista diz que focar apenas no integral garante o direito de alguns a uma formação robusta, mas exclui outros.
‘É preciso olhar para assistência social, segurança e transporte para garantir que a transição não exclua os mesmos grupos de sempre’
Ana Lima
Conforme o relatório, entre jovens de 15 a 17 anos que não frequentavam a escola e não concluíram a educação básica, 75% eram negros(as). Ana ainda relata que o sistema muitas vezes empurra para a noite os alunos mais frágeis ou bagunceiros, como forma de exclusão.
São Paulo, sendo o estado mais rico, deveria ser exemplo de planejamento integrado e escuta da população. Se o lugar que tem recursos e especialistas não conseguir resolver isso com continuidade e critérios técnicos, quem conseguirá?, questiona.
Duas escolas, um prédio
As mudanças no noturno fazem parte de um processo mais amplo de reorganização da rede estadual. Fábio e outra professora lecionam a mesma disciplina, utilizam os mesmos materiais, no mesmo prédio, mas não podem conversar ou se ajudar, porque cada um faz parte de uma escola diferente.
Esse é o cotidiano dos docentes após a Seduc implementar, em 2026, um programa de cisão escolar, que consiste em transformar escolas com mais de 1,2 mil alunos em duas unidades administrativas. Na prática, são duas escolas funcionando no mesmo lugar, cada uma em um período, com nome e diretoria próprios.
Leste 3 publicou edital para diretores em janeiro deste ano
Em entrevista à Rádio Eldorado em dezembro de 2025, o secretário estadual da Educação, Renato Feder, disse que a adesão ao projeto é voluntária e, a princípio, foi implementado em 50 escolas. Segundo Feder, a medida serve para melhorar o acompanhamento dos diretores em escolas maiores.
Porém, Fábio diz que a medida foi implementada sem a consulta da comunidade escolar. Oficialmente, disseram que a comunidade e a Associação de Pais e Mestres seriam consultadas, mas isso não aconteceu. Em dois dias, convocaram uma reunião online e avisaram que a cisão ocorreria. Não pudemos nem escolher o nome da nova unidade, relata.
O professor diz ser complexo explicar o que é a cisão e que não existe uma regulamentação ou legislação no Diário Oficial que explique a prática.
A escola onde ele trabalha também faz parte da Leste 3. Segundo o site da URE, ao todo são 85 escolas na região, em 72 endereços, o que mostra que 13 aderiram à separação.
Gabriel Di Pierro lembra que as ocupações de escolas em 2015 foram uma resposta a um processo de cisão do governo estadual que resultou no fechamento de escolas. (A cisão) é uma prerrogativa do Estado, porém, a gestão deve garantir que o direito à educação não seja afetado e que o processo não prejudique estudantes e professores, diz.
Questionada, a Seduc-SP afiirm que a adesão ocorreu conforme trâmites administrativos previstos, com aprovação nos Conselhos de Escola e participação da comunidade escolar.
Em nota, a Seduc diz que, na Leste 3, 13 unidades aderiram à medida e que não houve redução de módulos, ao contrário, as unidades tiveram ampliação das equipes de gestão e de Agentes de Organização Escolar. Segundo a secretaria, o impacto pedagógico é positivo.
*Os nomes foram alterados para preservar as fontes de retaliação.
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