Tapete azul, plantas tropicais, convidados e imprensa à esquerda, vips à direita, painéis cenográficos instagramáveis. No fim do corredor em forma de um L invertido, com a Baía de Guanabara ao fundo e rodeado por palmeiras imperiais, está o local para onde todos os olhares irão convergir na tarde de hoje: o palco em que Carlo Ancelotti fará a revelação dos seus 26 escolhidos para representar o Brasil na Copa do Mundo. A parte não visível desse cenário é a teia de conexões por trás do evento que a CBF promove no Museu do Amanhã, centro do Rio, para a convocação da seleção.
No coração desta teia está a empresa contratada pela CBF como responsável pela produção da cerimônia: a R2B Produções de Eventos, domiciliada em Brasília.
De acordo com uma investigação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) que culminou com a Operação Praia de Goia em 18 de setembro de 2018, a R2B foi beneficiária de milhões ao longo dos anos em patrocínios e incentivos fiscais do governo do Distrito Federal e do Banco Regional de Brasília (BRB). Já a Terracap (Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal) teria outra função no esquema, segundo a PCDF: a cessão subfaturada de espaços públicos para eventos.
Gustavo Dias Henrique, vice-presidente da CBF e considerado nos bastidores como o nome mais poderoso da instituição na atual gestão, ocupou diversos cargos de comando na Terracap entre 2015 e 2019. Em 2019, assumiu o comando da Biotic, uma subsidiária da Terracap. O brasiliense nega qualquer relação com a R2B na ocasião.
Apenas entre 2023 e 2025, durante a gestão de Paulo Henrique Costa, que está preso por transações financeiras ilícita, o BRB aportou R$ 3.600.000,00 (três milhões e seiscentos mil reais) para a R2B em 4 pagamentos (ver quadro ao fim da reportagem).
Além da R2B na produção, a CBF escolheu para cuidar da decoração do Museu do Amanhã o Studio Traços de Arquitetura. A R2B e o Studio Traços tem laços entre eles: uma das sócias do estúdio, Ana Falconi, é casada com Lucas Sarmento Mendes, que se apresenta nas redes sociais como sócio da R2B e tem participação societária na Colabr2 Participações junto com outros acionistas da R2B.
Não é só a convocação que terá produção da R2B e do Studio Traços. As duas firmas brasilienses monopolizaram os grandes eventos mais recentes da CBF, como o Summit CBF Academy e o camarote da entidade na Marques de Sapucaí no carnaval deste ano.
A operação de 2018 realizada pela Cecor (Coordenação de Combate ao Crime Organizado) da PCDF, apontou indícios de crimes financeiros, lavagem de dinheiro crimes contra a administração pública e organização criminosa. A suspeita era de que a empresa teria utilizado de forma irregular a Lei de Incentivo à Cultura e os milhões em patrocínios. A operação gerou um processo, que em 2023 foi arquivado na justiça do DF.
POLÍCIA CIVIL DO DF APONTOU PAPÉIS COMPLEMENTARES ENTRE TERRACAP, BRB E GOVERNO DO DISTRITO FEDERAL NA ORGANIZAÇÃO
De acordo com o que foi apurado então pela Polícia Civil, os braços da estrutura tinham funções bem definidas: o governo do DF era o epicentro da engrenagem. O BRB era o principal ator financeiro, entrando com os maiores valores destinados para a R2B. A função da Terracap era primordial: embora tenha chegado a conceder patrocínio em dinheiro, tinha como papel principal ser a responsável por viabilizar os eventos ao ceder os terrenos públicos com aluguéis subfaturados. O que a PCDF chamou de patrocinador indireto.
Em uma das escutas policiais que resultaram na operação, a relação próxima entre a R2B e a Terracap é destacada.
A quebra de sigilo telefônico indicou, segundo a investigação, entre outras coisas, até movimentações dos sócios da R2B junto ao governo do DF, relacionadas à tentativa de evitar que a Terracap cedesse a Torre Digital para evento de empresa concorrente, sob o argumento de que o espaço vinha sendo utilizado pela R2B no evento denominado Surreal.
De acordo com as gravações, os sócios da R2B se preocuparam em suas ações em não causar constrangimento para a Terracap. Sartório diz para o Rafa ver a melhor forma de falar para não exporem a Terracap. Rafa diz que falará direto com ele, que pretendem fazer a Federal Music na Torre Digital… e isso é péssimo.
Sartório e Rafa em questão são Rafael Damas e Bruno Sartório, sócios da R2B.
Gustavo Dias Henrique, que entrou na CBF ainda com Ednaldo Rodrigues na presidência, foi uma das indicações do ministro do STF Gilmar Mendes na atual diretoria da CBF. O brasiliense é doutorando em administração pública pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), comandado pelo filho do magistrado, Francisco Schertel Mendes, que tem contrato para ministrar os cursos da CBF Academy/IDP.
Questionado pela reportagem sobre a relação com a R2B, Gustavo Dias Henrique afirmou através da assessoria de imprensa da CBF que no âmbito da Terracap, atuou como Diretor de Habitação e Regularização Fundiária de Interesse Social e nesta condição não atuou na contratação ou parceria com a R2B, na medida em que contratos desta natureza não eram atribuição de sua competência.
De acordo com um currículo disponibilizado por ele mesmo e publicado ao ser homenageado pela Assembleia Legislativa de Alagoas em 2024, o vice-presidente da CBF passou por diferentes diretorias na Terracap entre 2015 e 2019:
Diretor de Habitação e Regularização Fundiária Social e Rural, Diretor Extraordinário de Habitação e Regularização Fundiária Interesse Social, Diretor Extraordinário de Regularização de Imóveis Rurais, Diretor de Comercialização e Novos Negócios (em substituição), Diretor de Administração e Finanças (em substituição) e Presidente (em substituição). Em seguida, assumiu como diretor presidente da Biotic, onde ficou até 2024. (veja íntegra da resposta da CBF ao fim, em outro lado).
A Terracap, origem de Gustavo Dias Henrique antes da CBF e que tem como missão assegurar a gestão das terras públicas do DF, é a concedente do Estádio Mané Garrincha, que, até o mês passado, levava o nome de Arena BRB. Após o escândalo do Banco Master o contrato de naming rights foi encerrado, voltando ao nome original. O escritório da R2B fica no Estádio Mané Garrincha. Também estão sob gestão da Terracap espaços candangos como o conjunto Aquático Cláudio Coutinho e Quadras Poliesportivas, além da Área da Concha Acústica, Orla do Lago Paranoá, Parque Tecnológico BIOTIC, Torre de TV e entorno do Eixo Monumental, palcos de eventos da empresa.
Um relatório de inteligência financeira (RIF)sobre a atuação da R2B emitido pelo COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão ligado ao Banco Central e responsável por prevenir e combater a lavagem de dinheiro, constatou a existência de saques de vultosas quantias em dinheiro, o que, segundo a autoridade policial, apontaria a existência de indícios da prática do crime de lavagem de dinheiro, em razão de causar estranheza o volume de dinheiro em espécie movimentado, mesmo porque quase tudo no evento é feito por meio de transações com cartão de crédito.
O inquérito de 2018 cita que grande parte dos gastos custeados com os recursos da lei de incentivo teria tido foi apresentando na prestação de contas como compra de equipamentos, e que teria havido sobrepreço, como, segundo a peça, a aquisição de um gerador com valor superfaturado em 59%.
Os relatórios da Coordenação Especial de Combate à Corrupção (CECOR), da Polícia Civil do DF, e o RIF do COAF detalham o favorecimento do governo do DF via incentivos fiscais e Terracap, BRB e Banco do Brasil para a R2B, de acordo com o inquérito:
… a existência de indícios de que o grupo de empresas R2 Produções, do qual era diretor financeiro Gilberto Soares da Silva Júnior, entre elas, a R2B Produções e Eventos Ltda- da qual são sócios Bruno Sartório Silva, Ricardo Abreu Emediato, Rafael de Araújo Damas e Eduardo José de Azambuja Alves, teria sido favorecido irregularmente pelo Governo do Distrito Federal, mediante benefícios e incentivos fiscais disponibilizados pela Secretaria de Estado de Cultura do DF, e por patrocínios da Terracap, BRB e Banco do Brasil, para realizar os eventos denominados Na Praia, Na Praia Social e Na Praia Cultural, ocorridos entre os anos de 2015 e 2017. Os relatórios ns. 13 e 25 do CECOR detalham a participação de cada sócio no grupo empresarial e nos eventos produzidos pelo grupo entre os anos de 2015 e 2017. E apontaram a contratação de parceiros comerciais por valores exorbitantes, bem como a existência de indícios de favorecimento do grupo R2 pelo Governo do DF, pelo Banco do Brasil, pelo BRB e pela Terracap. E o relatório de inteligência financeira, elaborado pelo COAF, registra grande movimentação financeira dos envolvidos, em curto período, a evidenciar a existência de indícios de irregularidades que podem caracterizar, em tese, crimes.
A investigação cita ainda suspeitas de que a R2B, responsável pelos eventos Na Praia, Na Praia Social e Na Praia Cultural, estaria recebendo tratamento diferenciado do governo, uma vez que teria recebido nos anos de 2015, 2016 e 2017, não só benefícios e incentivos fiscais concedidos pela Secretaria de Cultura, como também patrocínios da Terracap, do BRB e do Banco do Brasil, todos concedidos sem a realização de licitação, por meio de contratação direta.
A operação da Polícia Civil também mirou o ex-administrador do Plano Piloto, Igor Tokarski. Em uma das escutas, Rafael Damas, sócio da R2B, citou que o gestor teria me ajudado muito e que, por isso, teria feito doação para a campanha parlamentar de Tokarski em 2018 no valor de R$ 30 mil. A doação consta na página do TSE.
EMPRESA TEM ESTRUTURA SOCIETÁRIA COMPLEXA
Em 2015, a Terracap destinou R$ 100 mil (corrigidos para valores atuais pelo IGPM, seriam R$ 207.984,98) para a R2B para a realização do Na Praia Social.
A PCDF também apontou outros episódios que, segundo os investigadores, poderiam indicar tratamento privilegiado. De acordo com a investigação da PCDF, a R2B estava sendo favorecida pelo Governo do Distrito Federal também em relação a outros eventos culturais:
…a exemplo do carnaval, tudo conforme anteriormente exposto, em que, pelo menos no ano de 2018, tradicionais blocos carnavalescos do DF não lograram obter apoio junto à Secretaria de Cultura, chegando, inclusive, a não sair às ruas, enquanto evento de natureza privada, o denominado Carnaval no Parque, produzido pelos representados R2B Produções e Eventos Ltda… teria sido privilegiado pela Secretaria de Cultura, inclusive, mediante cessão de espaços públicos para utilização de coletiva de imprensa do referido projeto cultural. Além disso, diante dos prefalados indícios de ocorrência de crimes de lavagem de dinheiro e de corrupção ativa e passiva, foi solicitado ao COAF relatório das pessoas físicas e jurídicas envolvidas nas investigações, o qual trouxe a lume diversas transações financeiras com indícios de irregularidade, merecendo destaque, a título de exemplo, a movimentação, pela empresa R2B Produções de Eventos, entre os meses de julho e agosto de 2015, meses em que ocorreu o evento Na Praia, do importe de R$ 902.030,00 em espécie, isto é, em transações de saque e depósito, o que é típico de atividades relacionadas aos crimes de lavagem de dinheiro.
Em novembro de 2014, a secretaria de cultura do DF autorizou a R2B a captar R$ 1.029.867,11 (um milhão, vinte e nove mil, oitocentos e sessenta e sete reais e onze centavos) para o Festival Vila Brasil.
No ano seguinte, o BRB entrou com uma cota de R$ 240.000,00 para a R2B pelo evento Na Praia.
Atualmente, a R2B oferece o trecho da orla do Lago Paranoá conhecido como Prainha para aluguel de eventos no trecho chamado de Setor de Clubes Sul. No site da empresa, a R2B promete o aluguel do espaço da orla e serviço completo: Sim, vamos além da locação! Além de oferecer os espaços, produzimos todo o seu evento com a excelência e a experiência consolidada da R2, garantindo um evento completo e de alto padrão. A gestão da orla é da Terracap.
A R2B é parte de uma estrutura societária complexa e sofisticada, em várias camadas, onde a controladora é a R22 Holding e a participação cruzada de pessoas físicas, holdings patrimoniais, empresas de participações, consultorias e investidores individuais.
QUADRO:
VERBA CONCEDIDA PELO BRB PARA A R2B ENTRE 2023 E 2025:
1-
172/2025:
PATROCÍNIO À EVENTO ESPORTIVO
Vigência: 11 de março de 2025 Limite da vigência 30 de março de 2025
Valor do contrato: R$ 1.200.000,00 (valor consumido)
2-
048/2024:
Objeto: PATROCÍNIO CARNAVOOU.
Vigência: 27 de fevereiro de 2024 Limite da vigência 31 de março de 2024
Valor do contrato R$ 600.000,00 (Valor consumido)
3-
024/2024
Objeto: PATROCINIO DO PROJETO CARNAVAL DO MANE 2024
Vigência: 4 de março de 2024 Limite da vigência 31 de março de 2024
Valor do contrato R$ 1.000.000,00
4-
383/2023
Objeto: PATROCÍNIO DO EVENTO FINAL DE ANO NO MANÉ.
Vigência: 8 de janeiro de 2024 Limite da vigência 31 de janeiro de 2024
Valor do contrato: R$ 800.000,00
TOTAL:
R$ 3.600.000, 00 (três milhões e seiscentos mil reais)
OUTRO LADO:
CBF:
Em atenção às questões encaminhadas, a CBF informa que suas contratações seguem diretrizes internas de governança e observam a legislação aplicável às entidades privadas integrantes do Sistema Esportivo Nacional.
Em todos os casos, a seleção de fornecedores é feita com base em critérios técnicos, capacidade operacional, experiência compatível e adequação às necessidades específicas de cada projeto.
A escolha dos fornecedores para o evento de convocação da Seleção Brasileira no Museu do Amanhã observou exatamente essas condições, ainda mais necessárias diante da complexidade do evento.
Por razões de confidencialidade comercial, a CBF não divulga detalhes de suas relações contratuais com fornecedores.
Em relação ao vice-presidente Gustavo Dias Henrique, o mesmo esclarece que, no âmbito da Terracap, atuou como Diretor de Habitação e Regularização Fundiária de Interesse Social e nesta condição não atuou na contratação ou parceria com a R2B, na medida em que contratos desta natureza não eram atribuição de sua competência.
Por fim, a CBF não comenta ilações sobre processos já arquivados pelas autoridades. Como o próprio questionamento admite, não há qualquer investigação ou impedimento vigente envolvendo a empresa contratada no âmbito da operação citada.
R2B PRODUÇÕES DE EVENTOS:
A reportagem enviou pedido de resposta para a R2B, mas não obteve êxito.
STUDIO TRAÇOS
A reportagem enviou pedido de resposta para o Studio Traços Arquitetura, mas não obteve êxito.
TERRACAP
A reportagem enviou pedido de resposta para a Terracap, mas não obteve êxito.
BRB
A reportagem enviou pedido de resposta para o BRB, mas não obteve êxito.
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