Da Ponte Grande, em Guarulhos, o ator, diretor e dramaturgo Filipe Celestino, 40, é um dos participantes da atual turnê do rapper Emicida. Por trás do trabalho na “Emicida Racional MCMV Tour, o multiartista guarulhense construiu uma carreira marcada pela valorização das histórias de pessoas negras nos palcos e pela defesa de um teatro político e popular.

Cofundador do grupo O Bonde e filho de uma família cearense que chegou a Guarulhos há quase seis décadas, o artista cresceu imerso em histórias e tradições familiares. Os avós dele migraram do Crato, no Ceará, em 1970, viajando em um pau de arara ao lado dos dez filhos.

Eles se estabeleceram na região da Ponte Grande, bairro periférico da cidade, onde se reuniam frequentemente com os familiares. As conversas, sempre cheias de histórias, tiveram papel essencial na formação artística de Filipe.

A minha avó contava muita história. Era aquele almoço de domingo cheio de gente, bem periferia mesmo. E tinha meu tio tocando violão no fim das festas, relembra.

Filipe cantando junto com o baterista, em cenas do espetáculo ‘Bom dia, Eternidade @Noelia Najéra/Divulgação

A avó transformava acontecimentos cotidianos em verdadeiras novelas, enquanto tios, tias e primos improvisavam músicas, brincadeiras e pequenos teatros dentro de casa.

Apesar desse ambiente criativo, Filipe nunca imaginou seguir carreira artística. Muito tímido, enfrentou dificuldades de socialização quando a família se mudou temporariamente para Atibaia, em 2001.

Foi a insistência da mãe que mudou a vida dele. Preocupada com o isolamento do filho, ela o levou até um grupo de jovens da igreja católica da cidade. Relutante, Filipe quase desistiu antes de entrar, mas acabou convencido por um dos participantes. Lá dentro, encontrou os preparativos para a tradicional encenação da Paixão de Cristo.

Naquele dia, os jovens tentavam decidir quem interpretaria Pedro, personagem que precisava chorar diante do público. Ninguém queria o papel. Perguntaram se eu queria fazer. Fiquei com vergonha de dizer não e balancei a cabeça, conta. A cena marcou a estreia dele no teatro com 15 anos.

Mais do que atuar, Filipe descobriu o impacto emocional da arte. O que mais me encantava era ver as pessoas sentindo alguma coisa, chorando, se emocionando. Se eu conseguisse mudar um pouco a energia da pessoa naquele dia, já fazia sentido para mim.

Depois disso, mergulhou nos grupos de teatro de Atibaia entre 2001 e 2009, até se mudar para Santo André, no ABC Paulista, para estudar na Escola Livre de Teatro, em 2010, uma das principais instituições de formação voltadas ao teatro experimental e político no país.

Filipe ao lado de outros artistas na peça “Tá Pra Vencer”, que foi pelo grupo ‘O Bonde’ apresentada em 2024 @Helbert Rodrigues/Divulgação

Foi ali que entrou em contato com processos coletivos de criação, debates sobre políticas culturais e reflexões sobre o papel social da arte. Nesse período, começou a compreender a própria identidade racial.

Filho de uma família majoritariamente branca, Filipe conta que demorou para se reconhecer como um homem negro de pele clara. A virada aconteceu em 2015, durante um debate sobre blackface no Itaú Cultural, quando ouviu a atriz e pesquisadora Roberta Estrela DAlva iniciar a fala dizendo: Sou uma mulher negra.

‘Na hora pensei: Mas sou da mesma cor que ela. Foi como uma bigorna caindo na minha cabeça. Até então, nunca havia refletido profundamente sobre racialidade’

Filipe, multiartista

Estava nesse meio-termo, nesse não lugar. E isso também é uma faceta do racismo”, afirma o artista

A partir dessa descoberta, iniciou uma intensa pesquisa sobre negritude, colorismo e racialização, processo que passou a atravessar diretamente a produção artística de Filipe.

Para entender

Negritude é o reconhecimento da vivência negra e a valorização da identidade, da trajetória histórica e das expressões culturais da população negra.

Colorismo é a diferenciação de tratamento entre pessoas de um mesmo grupo racial com base no tom de pele, geralmente favorecendo peles mais claras.

Racialização é o processo pelo qual características, comportamentos ou grupos passam a ser interpretados e definidos em termos raciais dentro de contextos sociais, históricos e políticos.

Fundado em dezembro de 2017, em conjunto com os artistas Ailton Barros e Jhonny Salaberg, o coletivo O Bonde, do qual Filipe faz parte, tornou-se uma referência do teatro negro contemporâneo em São Paulo.

O grupo surgiu da necessidade de fortalecimento coletivo diante de experiências de racismo vividas pelos integrantes em outros espaços artísticos.

Desde então, o coletivo desenvolve peças sobre necropolítica, memória negra, oralidade e subjetividade. Entre os trabalhos de maior destaque está uma trilogia que aborda os impactos da violência racial em diferentes fases da vida da população negra: infância, vida adulta e velhice.

Jhonny à esquerda, Filipe no meio e Amilton a direita integrantes do coletivo O Bonde @Noelia Najéra/Divulgação

O espetáculo Quando eu morrer, vou contar tudo a Deus estreou em março de 2019, no Sesc Belenzinho. A obra parte da história real de um menino encontrado morto dentro de uma mala na fronteira entre Marrocos e Espanha.

Já Desfazenda, vencedora do prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos) de Melhor Espetáculo durante a pandemia, estreou em 25 de junho de 2021. A obra foi inspirada no documentário “Menino 23”, que aborda a história de crianças negras submetidas ao trabalho escravo em uma fazenda integralista no interior paulista. A versão presencial do espetáculo estreou em janeiro de 2023, no Sesc Avenida Paulista.

Turnê

O trabalho mais recente, Bom Dia Eternidade, em cartaz de janeiro a fevereiro de 2024, discutiu o envelhecimento da população negra e reúne em cena músicos negros entre 60 e 85 anos ao lado de atores mais jovens.

‘Quem consegue imaginar a própria velhice? Para muitas pessoas negras, o futuro parece interrompido antes’

Além do trabalho com o coletivo O Bonde, Filipe participou recentemente do espetáculo Tá Pra Vencer, criado em parceria com o rapper Emicida. A colaboração surgiu de forma inusitada: Filipe decidiu enviar um e-mail ao artista apresentando a proposta do projeto. Pouco tempo depois, recebeu a resposta direta e entusiasmada: Tô dentro!.

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Emicida assumiu a direção musical da montagem, que aborda temas como saúde mental, burnout e o excesso de trabalho vivido nas periferias brasileiras. Misturando teatro e música, o espetáculo constrói uma narrativa que transita entre o humor, o afeto e a tensão emocional.

O sucesso da parceria ultrapassou os palcos teatrais. Tá Pra Vencer foi adaptado e passou a integrar a turnê Emicida Racional MCMV Tour, que estreou em São Paulo no início de maio e segue em circulação pelo Brasil até setembro.

Para Filipe, a experiência evidencia a necessidade de aproximar o teatro das periferias. O teatro ainda é visto como um espaço burguês. Muita gente acha que não pertence a esse lugar, diz.

Ao longo de quase dez anos de trajetória, ‘O Bonde’ passou por mais de 70 cidades brasileiras. Mesmo assim, as apresentações em Guarulhos ainda são poucas. Para o artista, fortalecer o teatro negro passa necessariamente pela ampliação do acesso e pela valorização das histórias negras nos palcos.

Não é só sobre reconhecimento. É sobre conseguir viver da nossa arte e fazer com que histórias pretas sejam valorizadas.

Agência Mural

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