O Dia dos Namorados foi uma data criada em 1949, para movimentar o comércio, sabemos. A escolha do dia 12 de junho foi proposital: a ideia era celebrar na véspera do Dia de Santo Antônio, conhecido como o santo casamenteiro. Mas, como filha de florista, digo que casamenteiro mesmo é o meu pai.

Emílio Monteiro começou a trabalhar como florista em 1º de abril de 1991, quase um ano depois de migrar da Bahia para a região de Piraporinha, bairro periférico da zona sul São Paulo. Apesar da data ser conhecida como o Dia da Mentira, foi nessa data que ele começou a mostrar que o romantismo – com verdade – pode sim sustentar o amor e os afetos.

Digo isso pois cheguei uns anos depois, em 1999, e cresci ouvindo e vivendo histórias de amor dentro da floricultura. Ouvi muito meu pai dizer para crianças que chegavam lá: Sabia que eu casei seus pais? Tu é o fruto que minhas flores plantaram.

Emilio começou a trabalhar como florista em 1991 como indicação de alguns irmãos que já trabalharam no ramo @Rafaela Monteiro/Agência Mural

Já vi diversas pessoas irem lá só para pedir conselhos amorosos ao Emílio – e, no fim, acabavam levando um buquê de rosas vermelhas, as preferidas dele.

Também presenciei um rapaz ficar duas horas escrevendo uma carta, em várias folhas de sulfite, enquanto chorava compulsivamente. Foi ali, aos 12 anos, que descobri que homens adultos também choram. E adivinha o que ele está levando? Um buquê de rosas vermelhas!

Seja para pedir desculpas, tentar conquistar ou seguir reconquistando, as rosas vermelhas tocam o coração. Por isso, mesmo que seja um buquê de flores do campo, o florista sempre pede para o cliente deixar colocar uma no meio do arranjo, para atrair sorte. É o que eu aprendi.

Um dos felizardos da flecha do cupido é o Ibrahim. Em 1996, ele comprou um buquê para um primeiro encontro e ouviu meu pai dizer: volte aqui para me contar se as flores deram sorte!. Deram! Ele se casou com a moça e estão juntos até hoje, trocando flores da floricultura do meu pai.

Como nem só de conto de fadas se vive, teve gente que quis multiplicar as flechas do cupido para vários alvos. Lembro de um rapaz que comprava flores para duas namoradas. Uma hora, claro, a casa caiu e ele foi lá chorar as pitangas para quem? Para o senhor Emílio, que foi cirúrgico: acabou sem nenhuma, né?!.

Alguns momentos da vida de um florista poderiam ser cenas de novela. Certa vez, um freguês pediu que meu pai decorasse a igreja para o casamento dele. No dia, a mãe do noivo se recusou a entrar, porque não aceitava a união com a futura nora.

Há 30 anos no ramo das flores, Emilio acredita que as rosas vermelhas atraem sorte @Rafaela Monteiro/Agência Mural

O florista ouviu tudo: “não vou entrar para você casar com essa menina!”. Foi a maior esculhambação, mas com final feliz. Eles brigaram, mas ela entrou e teve casamento”, conta – não falei que ele era casamenteiro?

Quando meu pai conheceu minha mãe, ele já trabalhava como florista. Dona Hilda Felix carregava buquês gigantes na volta do trabalho para casa, chamando a atenção de todo mundo no busão.

Depois, ela descobriu que o namorado era o florista e ficou emburrada, mas passou. Ainda hoje, ela guardou todos os cartões que acompanhavam as flores que meu pai dedicava carinhosamente para minha neguinha.

Emílio, como um bom filho de Oxossi, é conquistador e com mãos boas para a terra, tanto que as flores deram frutos. Anos depois, nascemos eu e meu irmão, Vinicius, em 2004.

Mas a celebração do casamento dos dois ainda não tinha acontecido. Minha mãe sempre dizia: se demorar não vou casar mais, me recuso a casar depois dos 40 anos. Para surpresa dela, quando foi o casamento? Exatamente no seu aniversário de 40 anos, comemorados em 2012. Foi quando se mudou para São Mateus, na zona leste, embora seguisse entregando flores em Indianópolis, na zona sul.

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Hoje, as pessoas já não compram mais tanto presencialmente, nem escrevem mensagens à mão – que às vezes eram ditadas pelo telefone fixo para que nós escrevêssemos, com nossa letra (e confesso que algumas vezes buscávamos em um livro com mensagens prontas para declarações de amor, namoro, casamento, bodas e pedidos de desculpas).

Há uns anos, quem ainda escolhe enviar mensagem prefere que ela seja impressa, já que muitos pedidos são feitos online. Vendo isso, eu achava que a troca tinha se tornado mais escassa e menos romântica, até que um dia um babalorixá entrou na floricultura e disse para o meu pai: o que você vende não são flores, é encantamento, afeto, alegria, paixão, energia e intenção. É o reflexo do que carregamos com a gente.

Foi aí que eu entendi o porquê os fregueses voltam, mesmo que de forma digital. O cuidado e o carinho que o florista tem nos arranjos está também em cada um que presenteia. O afeto, assim como as flores, também nos faz admirar o presente e precisa de atenção para continuar vivo.

Emílio, depois de tantos anos, continua firme com os encantos de florista casamenteiro. Então, se precisar de um conselho amoroso – ou de uma flor – é só aparecer na avenida Indianópolis, número 309, embaixo de um posto de gasolina. Você vai encontrar um senhor de 50 anos, com cabelos grisalhos e muita história para contar. Afinal, o Dia dos Namorados está aí não para aquecer o comércio, mas sim o amor.

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