Comecei a rimar quando criança. Parecia magia com as palavras, um jogo. Depois, tendo mais contato com o hip hop, passei a fazer o que chamo de poesias de revolução, conta a artista Coral Gemo, 31, sobre a sua caminhada de dez anos na cena.

Apesar da longa trajetória, ela ainda encontra poucas mulheres nas batalhas de rimas e slams que frequenta na Grande São Paulo. Isso porque, embora estejam ganhando mais destaque, as mulheres são minoria no hip hop e precisam enfrentar o machismo para seguir ocupando os espaços e fazendo poesia.

Moradora de Guarulhos, na Grande São Paulo, Coral já acumula mais de dez vitórias nas batalhas de slam. Ela voltou a competir há cerca de um ano, após quatro de pausa, depois de passar pela transição de gênero.

Coral, artista que recita poesias nos slams de Guarulhos @Magno Borges/Agência Mural

Minha trajetória se divide em dois momentos, diz. O desafio que vivo agora é encontrar uma plateia que tenha a diversidade que o hip-hop pede. Para toda mulher é difícil rimar quando 90% da plateia é homem. Para mim, fica ainda mais difícil quando 99% da plateia é cisgênero.

Os sentimentos de Coral são descritos em números: os homens são a esmagadora maioria (92%) dos artistas de rap mais executados na base da distribuidora de música ONErpm (ONE Revolution People’s Music), segundo dados de 2022. A representatividade de mulheres na cena era de apenas 8%.

Um ano depois, em 2023, um grupo de pesquisa da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) analisou 2.551 inscrições válidas no Edital Prêmio Cultura Viva Construção Nacional do Hip-Hop. O resultado segue na mesma linha: 71,9% dos artistas contemplados eram homens cis; 24,5% mulheres cis; 2,3% pessoas não binárias; e apenas 1% pessoas trans.

Para as mulheres deste grupo, como Coral, o maior desafio está em enfrentar o preconceito do público. Ela avalia que, embora temas como classe e raça já sejam mais aceitos nas batalhas, o debate sobre gênero ainda não tem o mesmo espaço – apesar de começar a encontrar algum apoio.

‘Quando vou representar Guarulhos em batalhas em São Paulo e vejo guarulhenses lá, me defendendo de comentários transfóbicos, é uma coisa muito louca. Faz perceber que a semente que a gente planta em solo árido, às vezes até no concreto, achando que não vai nascer, nasce’

Coral Gemo, artista

Enfrentamento ao machismo

Este está sendo o ano das mulheres, é o que as pessoas estão dizendo… Na verdade, elas sempre estiveram na cena, as pessoas é que não estavam interessadas em vê-las rimando. Agora dão visibilidade, avalia Vanessa Costa, 22, conhecida como M3dusa, ou M3. Ela é rapper e fundadora da Batalha da Euphoria, em Suzano, na Grande São Paulo.

A maior parte dos artistas reconhecidos no rap são homens, no Brasil e no mundo. Porém, muitas mulheres já ocupam esse espaço há décadas, como Negra Li e Karol Conká, mesmo que ainda com menos espaço na mídia que os homens.

M3dusa é rapper e fundadora da Batalha da Euphoria, em Suzano @Magno Borges/Agência Mural

É o caso da rapper Ebony, que possui oito anos de carreira e três álbuns, e ainda assim ganhou o prêmio de “Revelação do Ano” no WME Awards 2025. Ela contestou o título de revelação em seu discurso, após já ter uma carreira consolidada: quanto uma mulher negra do rap precisa conquistar para ser revelação? Será que essa régua é igual para artistas de outros gêneros?.

Em Suzano, M3dusa aprovou a provocação. Para ela, embora o holofote das rimas esteja se voltando para as mulheres, é preciso ficar atento ao que está por trás deste interesse. Essa atenção é genuína ou é apenas uma ferramenta de engajamento para quem organiza os grandes eventos?, questiona.

A presença feminina é discreta não apenas nas batalhas, mas também na organização dos eventos. Não raras vezes, M3dusa é a única mulher na liderança de batalhas e precisa driblar o machismo para atuar nos bastidores, em especial pela falta de escuta e pelas tentativas de invisibilizar seu trabalho.

Sou mulher e normalmente acham que a organização de batalha é masculina. Muitas vezes fiquei de escanteio, porque convidava um homem para me ajudar a apresentar [o evento] e no outro dia diziam: ah, viu a Batalha da Euphoria? Tá com o fulano… não lembravam de mim.

A rapper diz que nas batalhas de rima precisa driblar o machismo @Magno Borges/Agência Mural

Apesar das tentativas de desmotivação, a rapper mantém o posicionamento firme: mais do que resistir ao machismo, ela quer mostrar aos homens do hip hop a importância do respeito mútuo, que beneficia a todos.

Eu não estou aqui só para realizar o meu sonho. Estou aqui para realizar o sonho dos jovens rappers. Criei um espaço que pode fazer a rima de alguém estourar em um vídeo, então estou ajudando a realizar o sonho dos rappers e eles estão me ajudando a realizar o meu, desabafa.

A rima como resistência

A resistência no hip hop também faz parte da trajetória da Mayara Miyuki, 20, rapper guarulhense conhecida como Caos. Ela rima desde criança e transformou a brincadeira de juntar palavras bonitas em um trabalho para espalhar uma mensagem para outras pessoas.

Quando colocamos nossa voz, mesmo com insegurança ou medo, abrimos portas para que outras pessoas também transmitam as vozes delas, diz a poetisa.

Mayara, rapper é conhecida como Caos e começou rimar na infância com algumas brincadeiras @Magno Borges/Agência Mural

Inspirada por outras mulheres da cena, como Loba V, Najuh e Naiá Curumim, Caos utiliza a escrita como ferramenta de expressão e entendimento emocional. Na maioria das vezes em que crio poesia, estou tentando lidar com sentimentos. É uma forma de me inspirar, revela a jovem.

Em seus versos, ela expõe a pressão social para que as mulheres se moldem a expectativas externas, as dificuldades em se manter como artista e a importância da ancestralidade.

Para Caos, a poesia tem o poder de ajudar a romper um sistema que ensina mulheres a se silenciar em troca de aceitação familiar ou profissional, como discute em um de seus versos:

 A família de sangue é a que mais faz sangrar. 

Encontrei na coroa do Orí o que não tive no lar. 

Eu preciso me encontrar. 

Tô correndo contra o tempo para fazer essa porra virar. 

Eu não posso mais me auto-sabotar

 Poema recitado por Caos no Slam Quilombo

Novas gerações

Para as mulheres que desejam ingressar no mundo das batalhas, mas temem o julgamento, as três artistas são unânimes em defender que a ocupação é necessária.

A rapper Caos reforça que as vozes femininas precisam ser ouvidas, vencendo pressões internas e externas na cena do rap e mostrando a força das mulheres.

Vá mesmo com medo. Sua voz é importante e sua existência também. Às vezes travamos por medo de errar, mas o que sai é perfeito, incentiva.

Ela sugere que um bom caminho para começar é buscar artistas mais velhas que estão dispostas a ensinar, além de participar de eventos de microfone aberto, para aprender a lidar com o público. Se você quer começar a rimar, se joga, porque o Hip Hop com certeza quer ouvir o que você tem a dizer.

A suzanense M3dusa concorda e deixa um recado para quem deseja criar seus próprios projetos:

Tenha a mente forte, pois altos e baixos vão acontecer. Põe seu sonho em primeiro lugar e continua. O futuro sempre reserva algo bom para quem tem a persistência de seguir, conclui.

Agência Mural

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