O Comercial é parte da minha vida, diz o advogado e ex-presidente do clube de várzea Wilson Oliveira de Sá, 64. O Esporte Clube Comercial de Pirituba, conhecido por Galo de Pirituba, completou 70 anos em março de 2026. Fundado pelos comerciantes Manoel Domene Martins (Mané do Ganha Pouco), Fernandes de Mello, Augusto Zanini e André Papai, o clube atravessa gerações e resiste em meio às mudanças do futebol de várzea.

Com início em 29 de março de 1956 e atuando no mesmo campo, no jardim São José, em Pirituba, o time da zona noroeste marcou a infância de muitos jovens do bairro por meio de iniciativas como o Dente de Leite Comercial, escolinha de futebol do clube.

Sala de troféus do Comercial com os principais títulos @Arquivo pessoal

Diversas pessoas atuaram ou treinaram no campo do Galo. Eu passei a jogar no Dente de Leite Comercial com 11 anos de idade e joguei até os 40 anos, onde eu também era presidente, relembra o advogado.

O torcedor Aldemir Gonçalves da Cunha, 61, conhecido como Sapo, também cresceu acompanhando essa formação de perto. Eu comecei a jogar nas categorias de base aqui. E daí fui pulando de galho em galho até chegar no Comercial. Tô aqui até hoje, conta.

Segundo ele, o clube sempre teve papel importante na formação esportiva de crianças e adolescentes da região. Tem incentivado, tem as escolinhas, e o pessoal aqui fica muito de olho. Quando vê que o menino tá bem no futebol, a gente tenta puxar pro lado da gente, afirma.

Alguns desses jovens chegaram a grandes clubes, como o motorista de van escolar, Averaldo Luiz Barão do Nascimento, 60, que iniciou sua trajetória no Comercial aos 7 anos e, aos 15, estava na base do Palmeiras. A gente que joga na várzea e no profissional sente essa diferença. Eu tinha um estilo de jogar de mais chegada e o Comercial me ajudou muito com isso, diz o motorista de van.

Barão na base do palmeiras, quarto jogador ao lado esquerdo do goleiro @Arquivo pessoal

O clube carrega em sua história um legado vitorioso, sendo conhecido como Papa Títulos nos anos 70. Um dos campeonatos de maior relevância foi o Amadores da Capital, cujos campeões de cada zona da cidade (norte, sul, leste e oeste) disputaram, em 1976 e 1977, partidas no Pacaembu e no Morumbi, em preliminar da Seleção Brasileira. Outros títulos de relevância foram a Copa Kaiser e a Copa Brahma.

Disputamos várias Copas Kaiser, Copa Brahma, onde a gente foi campeão em 2010 no Pacaembu. Na década de 70, fizemos algumas preliminares, sendo uma com a Seleção Brasileira e a outra com times que jogavam o Campeonato Brasileiro, diz Wilson.

O contato com a Brahma não foi apenas no campeonato de 2010. Cinco anos após esse título, o Galo de Pirituba foi selecionado pela marca para participar da campanha Viva o Campinho, em que a cervejaria reformou o campo do time de Pirituba. Antes, o campo tinha o aspecto dos tradicionais terrões, porém passou a ter marcações e gramado sintético.

A estreia da reforma contou com a presença do campeão mundial Ronaldo Fenômeno e da apresentadora Sabrina Sato, que prestigiaram o jogo entre o Comercial e o rival Jardim Regina. Além do gramado, o time ganhou vestiário novo, banco de reservas e sistema de drenagem.

Ronaldo dando o pontapé inicial do jogo entre Comercial e Jardim Regina @Divulgação/Brahma

Mudanças no futebol de várzea

Segundo apuração da Mural, há presença de bets nas principais ligas da várzea, como a Copa da Paz e a Supercopa Pioneer. Em muitos casos, porém, esses investimentos são direcionados às ligas e não chegam diretamente aos times. Nesse cenário, marcado também pelo crescimento dos patrocínios e pela visibilidade nas redes sociais, clubes com menor estrutura financeira enfrentam mais dificuldades para se manter competitivos.

É o caso do Comercial de Pirituba. Para seguir ativo, o clube depende da mobilização da torcida, Para manter o time a gente faz rifa, faz eventos e tem também a renda do bar. Então hoje é muito difícil manter um time sem a participação de um empresário ou um aporte financeiro, aponta o advogado.

O campo antes e depois da reforma em 2015 @Divulgação/Brahma

Ele ainda observa que muitos jogadores optam por não jogar em times de seus bairros para atuar em equipes que pagam mais.

‘Hoje a várzea foi capitalizada, então o jogador só joga se for para ganhar dinheiro; aquele amor que a gente tinha antigamente pelo time do bairro acabou’

Wilson Oliveira de Sá

Sapo compartilha dessa percepção ao comentar as mudanças no futebol varzeano. Hoje o dinheiro tá mandando na várzea. Quem tem dinheiro monta time. Quem não tem, não monta, afirma. Para ele, esse movimento também alterou a relação entre os jogadores e seus territórios. Não tem mais aquele time raiz da quebrada, completa.

Mesmo diante dessas transformações, o Galo de Pirituba segue ativo. Hoje o Comercial reúne duas frentes, o time dos veteranos, que disputa amistosos com outras equipes da categoria, e o elenco mais jovem, que participa de campeonatos como a Copa da Paz.

Agência Mural

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