O acordo que encerrou o conflito entre os Estados Unidos e o Irã trouxe alívio ao mercado, mas deixou um recado incômodo: uma guerra do outro lado do mundo pode afetar o preço do combustível e até o pão do nosso dia a dia. 

Ao longo dos últimos três meses, o fechamento do estreito de Ormuz corredor por onde passam cerca de 20% do petróleo mundial trouxe alta na inflação e no preço dos combustíveis mundo afora, inclusive no Brasil. Internamente, a inflação acumulada em 12 meses no mês de maio chegou a 4,75%, ultrapassando o teto da meta para 12 meses, definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em 4,5%.

Embora medidas adotadas pelo governo tenham amortecido parte dos efeitos, economistas afirmam que a guerra expôs como disputas geopolíticas afetam diretamente a vida dos brasileiros. 

A quase 12 mil quilômetros de distância do conflito, na Marginal Tietê, a via expressa com intensa circulação de veículos da capital paulista, o eletricista industrial Paulo Sérgio Teixeira Fernandes, de 34 anos, acompanhava a crise do petróleo a seu estilo: pelas bombas de combustíveis de um posto de gasolina. Acostumado a viajar sempre a trabalho, utilizando o veículo da empresa, ele destacou que os preços estão estabilizados, mas com a gasolina a R$ 6,40 o litro ele acha que o preço do combustível tinha que melhorar. 

Mas a tendência é que a redução das tensões entre os dois países contribua para a queda dos preços internacionais do petróleo, beneficiando principalmente os consumidores, incluindo os brasileiros. 

Segundo a economista Juliane Furno, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), períodos de alta do barril favorecem o governo federal, que é o acionista majoritário da Petrobras, e também os investidores privados da companhia, que se beneficiam do aumento da arrecadação e dos dividendos (parcelas dos lucros da empresa) distribuídos pela estatal. Já o fim da crise tende a aliviar a pressão sobre os combustíveis e, consequentemente, sobre o custo de vida da população. 

Por que isso importa?

  • Apenas no Irã, o prejuízo econômico contabilizado com os ataques norte-americanos é de pelo menor 270 bilhões de dólares.
  • Estimativa do Programa Mundial de Alimentos aponta que o conflito iniciado com o ataque de Israel e Estados Unidos ao Irã incluiu cerca de 45 milhões de pessoas na lista daqueles que estão em situação de fome aguda no mundo.

Durante o conflito, o preço mundial do barril do petróleo brent, referência internacional do preço do combustível, foi negociado acima dos 120 dólares. Em janeiro de 2026, quando os EUA invadiram a Venezuela e prenderam o presidente Nicolás Maduro, o barril era comercializado por quase a metade do valor, cerca de 61 dólares. A pressão chegou às refinarias brasileiras para que elas também aumentassem os valores. 

Segundo os economistas ouvidos pela Agência Pública, quando conflitos internacionais afetam o sistema econômico global, as pessoas mais pobres e a classe trabalhadora, que são as que mais utilizam bens de consumo, são as mais atingidas pelos impactos. O aumento do preço dos combustíveis, por exemplo, gera um efeito em cadeia que afeta o valor dos alimentos. 

Furno explica que conflitos como dos EUA contra o Irã acarretam no aumento da inflação, logo, as mercadorias que são dependentes do petróleo ou que são transportadas por meios rodoviários   movidos a diesel. 

A consequência, portanto, segundo a avaliação da professora, é de que itens de consumo do dia a dia podem ficar mais caros. A dona Maria vai comprar um pão mais caro no mercado, porque os Estados Unidos fez essa ofensiva ao Irã, que respondeu fechando o estreito de Ormuz, onde o petróleo do mundo passa por ali, diz. 

Samuel Pessôa, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz que, em virtude da globalização – um processo de integração econômica, política e social entre as nações -, quando há um conflito de larga escala, a desorganização [econômica] é maior. 

Sempre quando tem um choque de oferta, principalmente se esse choque de oferta encarece alimentos, quem sofre mais são as pessoas mais pobres, porque são as pessoas que gastam, que comprometem uma parcela maior da sua renda com pagamentos de alimentos, com bens de primeira necessidade, argumenta. 

Desde janeiro, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador do IBGE que mede a inflação oficial do país e serve de referência para o custo de vida dos brasileiros, registrou variações mensais acima de 0,33%. Em março, no auge das tensões entre Estados Unidos e Irã, atingiu 0,88%, a maior alta do ano. Já em maio, a inflação ficou em 0,58%, o maior resultado para o mês em cinco anos. 

Governo atuou para conter alta do combustível

No auge da tensão política provocada pelo fechamento do Estreito de Ormuz, o governo federal assinou um pacote emergencial para impedir que a disparada do preço do petróleo chegasse às bombas dos postos de combustíveis e, por consequência, aos alimentos e à mesa dos brasileiros. A medida foi considerada bem-sucedida pelos analistas ouvidos pela reportagem.

Entre as ações, o governo zerou alíquotas de PIS/COFINS (tributos federais cobrados pelo governo às empresas) sobre o diesel e criou uma subvenção de R$ 0,32 por litro para produtores e importadores do combustível e instituiu um imposto regulatório sobre as exportações de petróleo para garantir o abastecimento interno. Também reforçou os mecanismos de fiscalização da Agência Nacional do Petróleo (ANP) para coibir aumentos abusivos de preços.

Ao anunciar as medidas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o objetivo era evitar que “os efeitos da irresponsabilidade das guerras” recaíssem sobre a população brasileira. “Não chegando ao bolso do caminhoneiro, não vai chegar ao prato de feijão, da salada de alface, da cebola e da comida que o povo mais come”, afirmou o presidente. 

A professora Furno avalia que se o governo não tivesse amortecido e se a Petrobras não tivesse segurado o preço, com certeza os combustíveis da bomba e do posto teriam ficado muito mais caros e, no médio prazo, o preço das mercadorias também, porque esse custo ia ser repassado para o consumidor final.

O motorista por aplicativos Cassio Maia, de 57 anos, roda 15 quilômetros por dia em São Paulo, em uma jornada de quase 10 horas diárias. Ele usa etanol no tanque de combustível para o seu carro, modelo sedan, e notou que os preços ficaram mais baratos nos últimos meses, mas destaca que ítens no supermercado se tornaram mais caros. Eu acho que essa parte está mais cara: carne, produtos alimentícios, de modo geral e produtos de limpeza. 

Como o preço do petróleo é um preço internacional, ele leva em consideração toda a demanda e toda a procura por petróleo parao preço final. E o preço final, internacional, vai chegar aqui como um componente importante do preço doméstico, explica Furno. 

Políticas governamentais fortaleceram produção interna 

O professor do curso de pós-graduação em Política e Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESPSP), Filipe Ribeiro, pondera, também, que o Brasil entrou na atual crise mais preparado do que a maior parte dos países. 

Ribeiro remonta à década de 1970, quando o primeiro choque do petróleo obrigou o país a procurar alternativas. Vieram o Proálcool, as hidrelétricas, a exploração em águas profundas e, décadas depois, o pré-sal. Hoje, o Brasil produz todo o petróleo cru que consome, embora continue dependente da importação de derivados, especialmente o diesel. 

Então, isso vai fazer com que o Brasil faça o pró-álcool, comece a desenvolver uma cadeia de combustíveis renováveis que vão chegar agora, depois de décadas de investimentos e pesquisa tecnológica, no nosso biodiesel de última geração que permite ao Brasil, por exemplo, diminuir as suas importações de diesel, explica o docente. 

Isso vai chegar a 2006, na descoberta do pré-sal […] que levou o Brasil a uma autonomia em relação ao petróleo cru. Então, o Brasil hoje extrai todo o petróleo que ele consome. Qual é o problema? Que a gente importa derivados. Então, por isso que a gente sente, não tanto quanto outros lugares, porque o Brasil hoje é um grande produtor de petróleo, conclui. 

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