O Sebrae-SP certificou cerca de 60 refugiados afegãos empreendedores em São Paulo na última quinta-feira (18), dois dias antes do Dia Mundial do Refugiado, comemorado anualmente em 20 de junho, data estabelecida pela ONU. O evento foi realizado no Escritório Regional do Sebrae-SP na zona norte da capital.
As capacitações ocorrem em São Paulo desde 2025. A primeira turma, com cerca de 30 concluintes, teve uma primeira capacitação no ano passado, mas retornou para mais conteúdo no último mês de maio com mais uma turma nova com também cerca de 30 afegãos, totalizando cerca de 60 pessoas que foram certificadas, com aulas encerradas neste mês de junho. As pessoas refugiadas tiveram capacitações de gestão empresarial com foco em planejamento, marketing e finanças, desde a modelagem de negócios até a formação de preço de venda de um produto ou serviço.
Mohammad Hesaby, que adotou o nome de Pedro ao chegar ao Brasil, foi um dos alunos certificados. Ele trabalha com eventos e feiras, vendendo comidas típicas do Afeganistão. Para ele, o curso foi essencial para aprender novas ferramentas de gestão e planejar os próximos passos do negócio. Nós aprendemos a fazer plano estratégico, gestão de fluxo de caixa, gestão financeira e preço de venda. Tudo isso me ajudou a pensar no futuro do meu negócio, já que agora a minha empresa tem objetivo, missão, visão e valor, destaca Pedro.
Para o gerente regional do Sebrae-SP, Alessandro Leite de Lima, as capacitações representaram uma oportunidade para que os refugiados transformassem suas habilidades, experiências e referências culturais em negócios, promovendo sua inclusão por meio do empreendedorismo e contribuindo para o enriquecimento da diversidade cultural no estado de São Paulo.
“O Sebrae-SP também apoia na formalização desses refugiados. São oferecidas orientações sobre planejamento, gestão e formalização dos negócios, para que os empreendedores possam estar em situação regular no Brasil “, completa o gerente.
As capacitações foram parte de uma parceria entre Sebrae-SP, Caritas Arquidiocesana de São Paulo e Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Para a chefe do escritório do ACNUR em São Paulo, Maria Beatriz Nogueira, muitos refugiados encontram no empreendedorismo uma oportunidade de buscar a autossuficiência financeira, sem barreiras em relação ao idioma e sem a necessidade de ter o diploma do ensino superior revalidado.
Essa parceria entre Sebrae-SP e ACNUR tem se mostrado muito acertada em dar as ferramentas necessárias para que os refugiados possam abrir o próprio negócio. O Sebrae tem nos atendido sempre que necessário, adaptando as capacitações aos diferentes costumes, aos idiomas e tratando a população refugiada com muita atenção e carinho. Por isso, esperamos que essa parceria seja muito longeva e que possamos aprofundar cada vez mais os treinamentos, aponta.
Para Ronaldo Vieira, coordenador de projetos da Caritas, as capacitações são essenciais para o despertar de novas ideias. Alguns já chegam com ideias, mas não sabem como implementar. Os cursos ajudam a ter uma visão mais palpável do que é possível, unindo conhecimento teórico e prático. E a partir disso, eles também conseguem buscar integração local e autonomia com a sociedade, destaca.
Histórias
Frözan Sediqui também recebeu a certificação e mora em São Paulo há cerca de dois anos. Atualmente trabalha com esculturas em madeira, pintura e elaboração de joias. Ela destaca como as aulas abordaram habilidades importantes para quem quer montar o próprio negócio. “Essa capacitação foi muito importante para ajudar os afegãos que ainda não sabem qual caminho seguir. As aulas abordaram temas que fazem parte dos meus objetivos e me ajudam a ter uma visão de futuro.”
Refugiados no Brasil
De acordo com dados divulgados pelo ACNUR Brasil (agência da ONU para refugiados) na última edição do relatório “Refúgio em Números”, entre 2015 e 2024, o Brasil recebeu solicitações de reconhecimento da condição de refugiadas de pessoas oriundas de 175 países, totalizando 454.165 pedidos.
Das 454.165 pessoas que solicitaram asilo ao Brasil entre 2015 e 2024, as principais nacionalidades foram: venezuelanos (266.862), cubanos (52.488), haitianos (37.283) e angolanos (18.435). Juntas, essas quatro nacionalidades correspondem por 82,6% do total de solicitações registradas no país na última década.
Apenas em 2024, foram registradas 68.159 solicitações de asilo, um aumento de 9.531 (ou 16,3%) em relação a 2023, quando houve 58.628 pedidos. As nacionalidades que predominaram em 2024 nas solicitações de asilo foram venezuelanos (39,8%), cubanos (32,7%) e angolanos (5%). Entre os afegãos, foram 345 solicitações.
Ao final de 2024, o Brasil contabilizava 156.612 pessoas reconhecidas como refugiadas, o que representa um aumento de 9,5% em relação a 2023.