Um dos momentos mais marcantes da fenomenal carreira de Mamonas Assassinas foi o discurso de Dinho em janeiro de 1996, no ginásio Thomeusão, em Guarulhos, na Grande São Paulo. Foi lá que a banda foi rejeitada antes da fama e, depois, convidada a se apresentar.
Em tom de desabafo, o cantor disse para quem estava na plateia acreditar nos próprios sonhos e não desistir, pois nada é impossível. Na mesma fala, ele fez uma declaração sobre a cidade onde cresceu.
Nós continuamos de Guarulhos , enfatizou.
‘Nós não somos de São Paulo. Nós não somos de nenhum lugar. Nós somos a banda Mamonas Assassinas de Guarulhos, que leva o nome dessa cidade pelo Brasil afora e vamos levar para o exterior também’
Infelizmente, dois meses depois, um acidente de avião na véspera de uma turnê internacional encerrou prematuramente a história do grupo, que não teve tempo de levar o nome do município para outros países.
Aquela fala emocionada é um dos exemplos de como eles se identificavam com o território. Mais do que isso, as letras foram também um símbolo do que era a vida nas periferias daquele período – e talvez até os dias de hoje, em especial para homens e meninos.
Muitas das letras não seriam aceitas hoje e refletem preconceitos e discursos problemáticos – como ver as mulheres como vilãs, incluindo trechos de violência, abordar zoofilia e homofobia.
Este texto foca na questão do território.
Para além das piadas e brincadeiras da quinta série que fizeram das letras dos Mamonas um fenômeno, é possível ver a vivência de quem está numa cidade da Grande São Paulo e demarca o que era a vida com pouco dinheiro. Alguns sucessos do único disco do Mamonas, lançado em 1995, mostram isso.
É o caso de Chopis Centis, aquela que começa com Eu di um beijo nela, e chamei pra passear. A ideia do shopping center, espaço comercial que ainda é uma área de lazer marcante para jovens que querem dar um passeio pra mó de a gente lanchar ainda representa muito.
Mas que lanche era esse? Comi uns bicho estranho, com um tal de gergelim. Até que tava gostchoso, mas eu prefiro aipim.
Nascido em Irecê (BA), Dinho trazia muito o imaginário nordestino nas canções e no sotaque humorístico, vivenciado em várias periferias que foram construídas em grande parte por quem veio de um dos nove estados do Nordeste.