Já imaginou deixar sua profissão para viver de uma paixão e ainda ajudar seus vizinhos a ter uma saúde melhor? A psicóloga Cristiane Bonfim, 47, não só imaginou, como teve coragem de colocar esse plano em prática. Moradora do Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo, ela deixou o hospital para criar um projeto de dança no distrito onde vive.

Há cinco anos, ela está à frente do Balance.Iee, um grupo de dança para idosas, que se dedicam a aprender (e ensinar) diferentes ritmos, enquanto fortalecem laços de amizade, participação comunitária, saúde e autoestima.

Decidi começar a dar aula para as mulheres da comunidade com a intenção de promover movimento e de trazer vitalidade. Porque é isso que a dança representa para mim: bem-estar, alegria e movimento, conta.

Cristiane criou o projeto de danças Balance.lee, com aulas de ritmos variados para idosas @Daniel Santana/Agência Mural

A aposta deu certo. Semanalmente, 80 mulheres se encontram na sede do coletivo Bloco do Beco, no Jardim Ibirapuera, na zona sul, para dançar forró, piseiro, salsa, carimbó e outros ritmos.

O nome do projeto é inspirado na música Balancê, da cantora portuguesa Sara Tavares, que fala sobre a dança como uma forma de conexão entre as pessoas. Com esse estímulo e muita força de vontade, Cristiane já conquistou, desde 2024, financiamento para o projeto pelo VAI, programa da Prefeitura de São Paulo que apoia coletivos artístico-culturais.

‘No ritmo e na dança, tudo é voltado para o sentir, porque a música é sentimento. Esse é o caminho. Se fosse definir a dança em uma palavra, seria liberdade’

Cristiane Bonfim, professora de dança

Uma história dançando

A dança faz parte da vida de Cris, como é conhecida, desde os 11 anos, quando se apaixonou pelo longa Salsa – O Filme Quente (1988), estrelado por Draco Rosa. Daí em diante, o interesse pela dança se intensificou na vida dela.

Mas como a vida segue diferentes caminhos, ela se formou em psicologia e trabalhou seis anos na área. Porém, a dança falou mais alto: Mas sempre gostei de dançar, desde muito jovem. Por ser um gosto antigo, decidi fazer algumas formações para entender melhor onde me encaixava e o que gostaria de fazer.

Desde 2020, ela é formada em zumba e dança de salão. Com esse conhecimento adquirido, Cris se propôs a ser voluntária do Bloco do Beco já no começo do ano seguinte, ensinando aquilo que mais gosta de fazer.

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As aulas começaram com ritmos variados, reunindo diferentes gêneros musicais, como samba-rock, pop, música latina, entre outros. Inicialmente, cerca de 10 alunas, todas com mais de 50 anos, participaram da atividade, formando uma turma pequena e bastante engajada.

Mas, com a energia da professora e dos ritmos, uma foi chamando a outra e o grupo cresceu, as aulas aumentaram e a animação também. Atualmente, são 30 mulheres na aula de forró, 12 na de carimbó e 40 na de ritmos variados, que incluem também samba rock, pop e música latina.

O Carimbó é uma dança de roda típica do Pará, de origem indígena. É marcada por movimentos giratórios de mulheres, usando saias coloridas e rodadas.

No ritmo da autoestima

As alunas não titubeiam: o ritmo mais pedido é o forró, muito popular no bairro, de forte influência nordestina. E que bom, porque Cris é apaixonada pelo estilo desde a adolescência, quando ia dançar em festas e bailes.

Elas gostavam e pediam muito forró. Depois introduzi o carimbó, trabalhando o ritmo de uma forma bem leve, para que elas pudessem se divertir, conta. A chegada desta nova dança veio com uma aluna paraense, que começou a fazer aulas em 2021 e fez Cris se debruçar alguns meses nos estudos para aprender o novo estilo.

Maria Cecilia passou a ter mais vitalidade após entrar no Balance.Iee @Daniel Santana/Agência Mural

Assim, o ritmo passou a mudar a vida de todas as alunas envolvidas, como a de Maria Cecília Ferreira, 78. A dona de casa não esconde a animação e alegria em fazer parte das aulas, além da vitalidade gerada pelas atividades.

Eu vivia num estresse doido, com muitas dores. O carimbó mudou tudo, não sinto mais nada. Minha saúde melhorou, afirma.

Há dois anos no carimbó, a aluna é presença constante nas sexta-feira e conta que dança a motiva a participar de outras atividades da região, como a Oficina de Mosaico do Ateliê Ibira 30, que restaura escadões e vielas do bairro. Além disso, ela participa das aulas de pilates do Bloco do Beco, às quartas-feiras.

Ela aponta que estar dançando, tendo o incentivo da professora no dia a dia, foi o pontapé inicial para uma rotina mais ativa.

Vilma fica emocionada ao lembrar das apresentações com o grupo @Daniel Santana/Agência Mural

O sentimento é compartilhado pela também dona de casa Vilma de Jesus, 75, que também dança carimbó e forró. No grupo há quatro anos, ela reforça o quanto a dança é importante para sua qualidade de vida.

‘Por causa da minha depressão, eu ficava em casa e não tinha ânimo para nada, estava toda jururu. Um dia me deu um estalo e disse: vou na Cris. Aí fiquei, ela me deu força e não parei mais. Gosto dela como filha, é muito especial

Vilma, dona de casa

Um dos momentos mais marcantes da trajetória de Vilma foi a primeira apresentação de carimbó do grupo em um palco, em novembro de 2024, no CEU Casablanca, na Vila das Belezas, também zona sul de São Paulo.

Fiquei toda emocionada. Quando o pessoal começou a bater palma, até hoje eu choro. Não esqueço, foi muita emoção para todas nós.

Depois dessa experiência, as alunas passaram cada vez mais a se ver como artistas, conta Cris, e não deixam de ir a outras apresentações em CEUs e em escolas da região. Além disso, o grupo participa com frequência de concursos de forró, como o Da Ponte Pro Roots, e eventos de carimbó.

As alunas fizeram apresentação de dança no CEU Casablanca em novembro de 2024 @Daniel Santana/Agência Mural

Elas se arrumam, se maquiam, levam adereços. Isso elevou a autoestima e houve um fortalecimento social: criou-se uma rede de apoio entre elas, complementa Cris.

A união das alunas é um destaque. Quando uma não está bem, a outra percebe, o grupo se mobiliza, visita, ajuda. Assim, cria-se uma rede forte de cuidado e afeto entre as idosas. As meninas são legais, todas elas. A gente conversa, dá risada. Nós mudamos da noite pro dia, diz Maria.

Novos sonhos

Para o futuro, a professora pretende ampliar o trabalho e levá-lo a mais mulheres. Além disso, planeja desenvolver workshops para trabalhar com danças africanas, sensualidade e expressão, tudo voltado para o sentir. Não é sobre o que gosto, mas sobre o que faz sentido para elas, diz a professora.

A dança, hoje, é o presente e o futuro de Cris e faz parte de cada um dos seus passos, dentro e fora dos palcos.

As idosas gostam da aula de carimbó, no Bloco do Beco @Daniel Santana/Agência Mural

Mas o sonho, que foi guiado pelos ritmos, continua o mesmo: que cada aluna encontre a dança à sua maneira, para se curar, se movimentar e se reconectar consigo mesma.

Bloco do Beco

Forró: Segunda-feira, das 18h30 às 19h30

Ritmos Variados: Terça-feira, das 8h às 9h

Carimbó: Sexta-feira, das 9h às 10h

Endereço: Endereço: R. Bento Barroso Pereira, 2 – Jardim Ibirapuera, SP

Formas de pagamento: Gratuito

CDC Joelma

Ritmos Brasileiros: Quarta-feira, das 9h às 10h

Endereço: Rua José Manoel Camisa Nova, 110 – Jardim Leticia, SP

Agência Mural - Projeto de dança fortalece saúde, vínculos e autoestima de idosas no Jardim São Luís