Em 2007, Israel Joaquim dos Santos, conhecido como Rael, então com 17 anos, plantou sua primeira árvore em uma das regiões mais vulneráveis de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. A área, conhecida como Caixa Baixa, sofre com alagamentos causados pelas chuvas, que fazem o Córrego Antonico transbordar, apesar de estar em processo de canalização.
Eu plantei no local onde moro. Senti vontade de revitalizar e mudar o cenário de abandono. As pessoas sempre olharam para a região da Caixa Baixa com desprezo, e eu queria dignidade, queria ser olhado com respeito. Então decidi me mobilizar, tirar o lixo e revitalizar o máximo que pude, conta.
Local onde Rael cultiva plantas, na região conhecida como Caixa Baixa, em Paraisópolis @Glória Maria/Agência Mural
Rael, 36, nasceu em Pernambuco (PE) e se mudou para Paraisópolis aos 5 anos, com os pais. Ele empreende na floricultura Plantar é Arte e faz manutenção de espaços públicos e privados, com limpeza de ruas e vielas, especialmente com retirada de lixo.
‘Havia vielas em que o acúmulo era tanto que não dava nem para passar. Foi aí que, junto com a comunidade, decidimos que aquele espaço não seria mais um ponto de descarte, porque era inviável’
Rael, morador de Paraisópolis
Mudança de vida
O talento e a paixão de Rael pelas plantas ganhou força em junho de 2014, quando ele foi privado de liberdade. Nos três anos que esteve no sistema prisional, atuou na manutenção geral da unidade, com foco no cuidado de jardins e plantas, além de colaborar na organização de atividades em uma Casa de Cultura.
Sempre gostei de plantas, mas foi ali que tive um contato mais profundo com floricultura. Também aprendi sobre organização, algo que carrego até hoje, relembra.
Ao sair, em julho de 2017, encontrou Paraisópolis sofrendo com acúmulo de lixo e decidiu agir. Vi a nossa comunidade em descaso do governo: ruas todas esburacadas, paredes deterioradas, falta de energia. Então tomei a decisão de fazer uma revolução, começando pela minha parte, pintando alguns espaços e revitalizando com plantas, afirma.
A primeira árvore que Rael plantou, em 2007, perto de onde mora @Glória Maria/Agência Mural
A semente germinou: nove anos depois, já são ao menos 50 vielas limpas, pintadas e florestadas na região, com muita arte. Ele utiliza objetos doados para compor os cenários, como carrinhos de supermercado que seriam descartados.
O trabalho, que começou de forma voluntária, hoje ajuda a compor renda. Rael e os moradores identificam os locais que precisam de intervenção e os vizinhos realizam uma vaquinha para pagar o trabalho de limpeza nas vielas. Com a verba arrecadada, ele paga os quatro colaboradores que trabalham com ele.
‘Comecei as limpezas de forma voluntária, mas os moradores das vielas se juntaram e passaram a contratar meu trabalho
Além disso, ele mantém uma loja de jardinagem na rua de sua casa.
O serviço custa R$ 500 e inclui a limpeza do espaço, a pintura de paredes e plantio das mudas, como costela-de-adão, espada de São Jorge e jiboias, espécies com as quais gosta de trabalhar.
Apesar de ter transformado as ações em trabalho, ele ainda revitaliza vielas de forma voluntária, quando os moradores não podem pagar ou quando a situação é muito crítica, custeando os materiais com recursos próprios. Além de aceitar doações de plantas e tintas.
Sem o poder público, mas com a comunidade
Embora a prefeitura realize a coleta de lixo segunda à sábado em Paraisópolis, sobram grandes volumes de resíduos descartados incorretamente, como móveis e entulho, em diferentes pontos da comunidade.
Nestes casos, ele aciona o poder público ou direciona o caso para o fiscal de coleta da região. O profissional contratado pela prefeitura para acompanhar o trabalho dos coletores e garis, fiscalizar descarte irregular de lixo e orientar moradores sobre resíduos.
Viramos uma referência e começamos a nos aproximar de contatos na prefeitura. A gente mobiliza, registra e faz o trabalho junto, porque quem mora aqui sabe das necessidades, diz, Rael, que afirma nunca ter buscado apoio do poder público ou da iniciativa privada para fazer o trabalho.
Além da limpeza, ele aposta na arte e na comunicação visual para manter os espaços preservados: instala placas orientando para não descartar lixo no local, inclui plantas nas áreas revitalizadas e decora paredes com uma técnica que carimba galhos e folhas em muros, para criar formas únicas.