Era 2009. O Rei Pelé entra em um restaurante da cidade de Santos e, por acaso, encontra o cantor Chorão. Os dois decidem jantar juntos enquanto falam sobre a sua paixão em comum: o Santos FC. Naquele mesmo ano, o escritor Rubem Fonseca lançou o livro O Seminarista, o qual deu de presente para Jô Soares, enquanto dirigia um táxi para o apresentador.
Todos esses fatos realmente ocorrem? Nesta ordem? O que dá para afirmar com certeza é que eles são parte do universo criado pelo jornalista e escritor João Vitor Nascimento, 27, no livro Encontros, lançado em junho de 2025. A obra marca a estreia no mercado editorial do autor, que é morador do bairro Jardim da Conquista, entre os distritos do Iguatemi e São Mateus, na zona leste de São Paulo.
Em 40 contos, João imagina figuras conhecidas que se encontram em situações casuais e misturam pessoas reais em contextos fictícios. A ideia do autor é justamente levantar a pergunta: isso realmente aconteceu?
O escritor João com a primeira obra, “Encontros”, que reúne 40 contos retratados entre a realidade e a ficção @Matheus Santino/Agência Mural
O critério foi focar em personalidades contemporâneas, para que o encontro fizesse sentido tanto para o autor, quanto para o leitor.
‘No caso de Pelé e Chorão, a ligação era o Santos. Coloquei Janis Joplin e Jimi Hendrix dando entrevista juntos, já que viveram na mesma época, mas não existem registros de que eles se encontraram no palco ou fizeram algo juntos’
João Vitor, escritor
Formado em jornalismo e pós-graduado em comunicação e mídia, João sempre foi apaixonado por livros e sonhava em escrever o seu próprio. A ideia inusitada dos encontros entre famosos nasceu de uma reflexão: o que ele poderia trazer de diferente para a literatura como jornalista?
Em abril de 2024 ele começou a maturar a ideia e pensar nos contos e nas personalidades que gostaria de incluir. Apenas um ano depois, o livro ganhou o mundo – mas não sozinho. Os textos contam com uma ilustração que retrata o encontro. As artes, capa e projeto gráfico são assinados pela designer editorial Carla Heloísa.
O livro está concorrendo ao Prêmio Jabuti de 2026, principal prêmio literário do país, na categoria Conto. Apesar disso, o autor diz que prêmios não são sua ambição. Meu objetivo é ser lido. O grande prêmio é ser lido tanto por uma criança, quanto por uma pessoa idosa.
Entre personagens e memórias
Todos os personagens dos contos tiveram algum impacto ou relevância na vida do autor. Chorão, com a banda Charlie Brown Jr, por exemplo, é uma das referências musicais favoritas do escritor até hoje. As letras foram importantes para ele, sobretudo na adolescência.
João criou histórias com os Papas Francisco e Bento XVI e não esqueceu de figuras como Sabotage, Rita Lee e Clarice Lispector. O livro tem um tom bem-humorado, mas também aborda problemas sociais, como intolerância religiosa e corrupção.
Em um dos contos do livro, chamado Maracanaço, os poetas Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira sofrem juntos na arquibancada do Maracanã durante a derrota da seleção brasileira para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950. Seria possível?
Independente da resposta, o texto foi destaque da antologia Boleiros – textos sobre futebol, editado pelo Selo Off Flip.
Capa e ilustrações feitas pela designer Carla Heloísa @Matheus Santino/Agência Mural
João dá aulas de redação em um cursinho popular de pré-vestibular no Iguatemi desde 2025 c e trabalha como assistente editorial na Editora Patuá, editora independente pela qual o livro foi lançado e está à venda.
Mas se engana quem pensa que a proximidade com a editora facilitou a publicação do livro. O autor fez questão de ser avaliado sem privilégios – tanto que aguardou os seis meses de prazo padrão da Pautá para ter uma resposta positiva ou negativa sobre o livro. E o tão esperado sim chegou.
Quando o projeto foi selecionado, fiquei muito contente. Lancei o livro na Feira da 451 no Pacaembu, na Livraria Patuscada e também fiz lançamentos na Paróquia São Miguel Arcanjo, minha paróquia, no meu bairro. Foi uma realização pessoal e coletiva, conta.
As 70 historinhas e o jornalismo
A literatura faz parte da vida de João desde a infância. Com três irmãs mais novas, ele passou um período na casa de uma tia após a mãe dar à luz a sua primeira irmã. Quando voltou para casa, recebeu de presente o livro infantil João e o Pé de Feijão, uma edição de capa dura e com muitos desenhos. Ali, a chama da leitura se acendeu e nunca mais apagou.
‘Quando eu era pequeno, ficava lendo gibis da Turma da Mônica enquanto esperávamos no dentista. No ensino fundamental, sempre levava livros da sala de leitura para casa; os primeiros que li eram do Calvin e Haroldo‘
Mas o livro que realmente marcou o autor foi “70 Historinhas”, de Carlos Drummond de Andrade. Lançado em 1978, a obra é uma coletânea de contos e crônicas publicados em diferentes livros do autor, que combina humor, crítica social e observação cotidiana.
O formato de contos rápidos despertou o interesse de João e fez de Drummond sua principal referência literária. Gostava tanto daquela edição do livro da escola que procurei por um igual em sebos do centro de São Paulo até achar. Tenho uma memória afetiva muito forte com essa obra e, sempre que posso, revisito a leitura.
Durante o ensino fundamental, ele participou de um concurso de poemas na escola, ficou em segundo lugar e ganhou um troféu. O evento marcou sua infância, mas já apontava para a identificação com a prosa e o conto. Os textos rápidos cativaram sua atenção e moldaram seu estilo de escrita.