Para começar, um elogio sincero: é muito louvável que um perfil com as características do Recife Ordinário, que em outros tempos seria classificado nas categorias “humor” ou “variedades”, promova uma discussão eleitoral em seu podcast. Há a possibilidade de que este escriba esteja sendo ingênuo, mas também é preciso ressaltar a digna postura do apresentador Gabriel Oliveira em seu esforço para garantir um mínimo de seriedade na troca de “ideias” entre os dois candidatos a deputado federal, o comunista Jones Manoel e um vereador de extrema-direita cujo nome não será publicado neste texto de opinião por questões de higiene.

Por melhores que tenham sido as intenções e motivações de quase todos os envolvidos à exceção do histérico extremista de direita , o fato de o debate ter sido transmitido no YouTube não quer dizer que tenha sido um conteúdo de YouTube. Ao contrário, o resultado foi um produto muito semelhante aos aborrecidos e intermináveis debates veiculados desde a redemocratização, em meados dos anos 1980, pela televisão brasileira.

O formato não ajudou. A produção e as assessorias dos debatedores não foram além da batidíssima divisão em blocos temáticos, enormes por sinal, com um candidato perguntando para o outro. E cada um respondendo o que bem entende. Faltou agilidade, mas não só.

Faltou jornalismo. Explico: senti falta de jornalistas com postura independente e crítica, capazes de tirar Jones e seu oponente das respectivas zonas de conforto. Por exemplo, questionar o comunista como a tal “esquerda radical” pode conduzir mudanças políticas sem sucesso nas urnas; ou perguntar ao direitista por que, em meio a toda sua verborragia, não citou nenhuma vez o nome de Flávio Bolsonaro.

Sem o elemento crítico, o que se viu foram dois monólogos. Ok, talvez seja impossível manter um mínimo de diálogo com aquele vereador direitista. Aliás, cabe parênteses: é provável que, se fosse tal indivíduo uma mulher, logo estaria sendo chamado pelos demais vereadores de “louca”, “histérica”, “desequilibrada” e “tresloucada”. Como é homem, branco, que bate nas costas dos colegas nos corredores da Câmara Municipal, conta com a complacência até mesmo da bancada (masculina) do PSB, partido de João Campos, seu alvo nº 2 (o número 1 são as vereadoras mulheres, conforme se lê nessa reportagem da Marco Zero).

Mesmo cansativo e arrastado para quem suportou até o final, o debate foi ótimo para os envolvidos, que tiveram a oportunidade de se posicionarem como antagonistas na disputa para as vagas na Câmara dos Deputados. Formando quase um núcleo coadjuvante, correndo paralelo à novela protagonizada por Raquel Lyra e João Campos.

Se o vereador pôde discursar e fazer jogo de cena para seu público da machosfera radicalizada, Jones Manoel teve competência em se apresentar como um político mais maduro, capaz de transitar por temas diversos, indo além do perfil de revolucionário e capaz de agradar ao chamado “voto de opinião” da esquerda. E isso, historicamente em Pernambuco, tem um potencial nada desprezível.

E, finalmente, para o Recife Ordinário, foi pra lá de excelente, afinal até então o episódio de maior audiência de seu podcast não tinha passado de 63 mil visualizações. No momento em que este texto foi publicado, o debate já beirava 240 mil visualizações. E isso sem que os produtores tenham encontrado um formato e uma linguagem tão intensa, ágil, descontraída e adaptada à internet como as transmissões esportivas da Cazé TV.

Recife Ordinário revela que vereador simulou atraso com ajuda da assessoria

Há meses o debate estava anunciado para começar às 19h, mas só teve início às 19h27min porque o vereador extremista chegou atrasado. Perto do final da live, o clima esquentou quando ele acusou o apresentador e a produção do Recife Ordinário de estarem favorecendo Jones Manoel. Nesse momento, Gabriel Oliveira surpreendeu a todos ao dizer que não era palhaço e que o parlamentar estava sendo escroto e safado.

O que o atraso tem a ver com o desabafo do moderador?

Hoje, a equipe do Recife Ordinário fez uma nova live revelando o que aconteceu nos bastidores, revelando a ligação entre os dois momentos.

Ele e a equipe dele se organizaram para nos enganar, para atrapalhar nosso trabalho. E eu não sei por que ele fez isso com a gente.

Estava combinado que os debatedores teriam de chegar meia hora antes para que tudo fosse testado com antecedência. Na live, os produtores revelaram que os assessores do vereador presentes ao estúdio se mostravam surpresos com o atraso, não sabiam explicar a razão, falando muito por cima que seu chefe estava com um problema familiar. Em seguida, foi dito que ele só poderia participar online porque havia acontecido um imprevisto com sua mãe, e que ele precisava dar suporte a ela.

Já estavam me enganando, desabafou Gabriel. Eram 19h20min. Dois minutos antes, o vereador havia mandando uma mensagem para o whatsapp do apresentador com o seguinte texto: Meu irmão, deu ruim. Tô com minha mãe. Imprevisto. Faz com ele. Sem bronca.

Era tudo mentira.

Entre a mensagem por zap e a chegada do vereador foram apenas 10 minutos de intervalo, revelou uma das produtoras.

As câmeras de segurança do estúdio e de outros estabelecimentos na rua mostraram o vereador passando várias vezes de carro em frente ao local bem antes das 19h. Ele desceu, ficou esperando começar, poderia ter entrado antes para que o debate começasse na hora certa, mas preferiu irromper, chegar de maneira errada, sem me deixar falar, desrespeitando todas as regras, contou Oliveira. O extremista acabou sentando na poltrona que estava reservada para o apresentador, mais próxima da câmera, ou seja, ficando mais em evidência no vídeo durante a live.

Aturamos tudo isso, fizemos acontecer, mas ele tentou construiu a narrativa para o público dele, que é um público agressivo, que ataca as pessoas, que a gente estava favorecendo Jones. Por isso eu precisava trazer isso, pra mostrar quem é esse cara, queixou-se.

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