por Isabelle Meunier*

Se você esteve em um parque urbano, ultimamente, tente lembrar o que você viu. Você viu alguma árvore com floração surpreendente, em vermelho flamejante, amarelo luminoso ou roxo profundo, de um jeito que você nem sabia existir? Reparou em gradientes impressionistas de verdes de copas que se entrelaçam, embaladas pelo vento? Viu crianças correndo sob o olhar de pais e mães, atentos mas seguros, sem as ameaças de automóveis? Ouviu a saudação do bem-te-vi, o anúncio do pitiguari ou o grito do gavião-carijó? Viu muitos canários e bicos-de-lacre comendo frutinhos do capim e a corruíra catando bichinhos em canteiros desordenados?

Pode ser que você tenha visto algum lago, fonte ou mesmo um trecho de rio e havia capivaras e até jacarés, frangos dágua ou uma garça-vaqueira. Viu também pessoas caminhando, correndo, namorando, conversando ou simplesmente respirando e vendo o tempo passar, aproveitando para simplesmente viver, sem artificialidades e estímulos de consumo. Sim, você estava em um parque urbano.

Mas se você visitou algum lugar com estacionamento cheio, barraquinhas variadas, esplanada impermeabilizada, placas de propaganda, telões, música animada, dança e até torcida de futebol, não amigo, você não esteve em um parque urbano. Você foi a um parque de eventos, a uma praça de alimentação, a um boulevard turístico ou a qualquer espaço urbano que pode ser muito legal para compartilhar a vida na sua cidade. Mas, ainda assim, você não teve a experiência proporcionada pela vivência em áreas verdes, não teve a chance de experimentar atividades independentes de apelos consumistas, não despertou seus sentidos com cores, sons e movimentos, lembrando que há vida e beleza além da ruidosa presença humana.

Publicidade no Parque Santana, concedido por 30 anos à iniciativa privada.

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Parece, e é, conversa de ambientalista.

A verdade é que o ambientalismo está muito mais atento às necessidades humanas do que o capitalismo tardio que aponta para a financeirização das áreas verdes. Muito mais do que gerar receita financeira, espaços como parques urbanos, praças e outras categorias de áreas verdes, públicas ou privadas, oferecem contribuições que vão além de produtos e serviços valoráveis, pois envolvem saúde física e mental, fortalecimento dos laços comunitários, bem-estar e felicidade das pessoas.

A garantia de oferta de Contribuições da Natureza para as Pessoas (CNP) em áreas verdes não depende de gestão empresarial nem exige geração de receita. Como serviço público essencial, exige, sim, investimentos, mas também muita sensibilidade, envolvimento social e cuidados de manutenção e proteção às formas de vida presentes, criando oportunidades para que as pessoas vivenciem experiências diversas e complexas, só oferecidas pelo ambiente natural. Não serão ingressos, maquininhas de crédito, quiosques e restaurantes que darão sustentabilidade aos parques do Recife, mas sim o compromisso efetivo de gestores e da sociedade com uma visão de cidade que acolhe e valoriza locais onde as pessoas se integram à natureza da qual fazem parte, aprendendo a respeitar sua diversidade, seus ritmos e processos.

  • Isabelle Meunier é engenheira Florestal e professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)

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