Do gol a gol para o pique-pega. Do esconde-esconde ao skate, depois para o balanço e, em seguida, para a queimada. Samuca, vem almoçar!, alguém grita. Só mais um pouco, responde o menino, de 8 anos. Mais corrida, pique-bandeirinha e começa tudo de novo. O menino não se cansa, enquanto vive a pureza e a velocidade da infância. Só parou um dia das férias para levar um papo mais sério com o pai.
Era para falar de uma conversa que teve com um amigo, em que os dois riram porque viram um pouco demais do corpo de uma amiguinha. O pai, o goianiense Cleomar Barros, de 43 anos, morador de Brasília, recorda que precisou falar sério. Disse que era preciso respeitar as meninas, como sempre tratou a irmã, de 11 anos. E que não se deve dar risada. O menino concordou e o abraçou.
Cleomar Barros ensina o filho desde criança a respeitar as meninas - Foto Valter Campanato/Agência Brasil
Faço questão sempre de mostrar que devemos ser parceiros e amigos, diz Cleomar, que é analista de sistemas. Ele destaca que tenta mostrar ao filho gestos de cuidado e respeito que tem com a esposa e com a filha.
Aliás, a educação pelo exemplo é, segundo profissionais que estudam e trabalham com temas ligados à masculinidade saudável, uma chave para que os pais atuem contra a misoginia dentro de casa, segundo afirmaram em entrevistas à Agência Brasil. Cada passo contra o machismo em casa (ou em qualquer outro espaço) pode representar bem mais do que um presente de Dia dos Pais (que é só uma vez ao ano).
Ação afetiva
Em um cenário de tantas violências, de estupros coletivos a demonstrações de grupos masculinistas que demonstram ódio às mulheres, a ação afetiva dos pais no tempo presente pode ser preventiva. Mais conscientes, pais podem agir pela consciência dos meninos, ser mais parceiro das escolas e cobrar políticas públicas que tragam condições civilizatórias.
As maiores e mais eficazes formas de aprendizado de uma criança se dão por meio do modelo que o pai apresenta, afirma o psicanalista Thiago Queiroz, que tem uma página intitulada Paizinho, vírgula!, com mais de 324 mil seguidores, e é autor do livro Amor de pai. No instagram, a página pode ser vista neste link.
O psicanalista Thiago Queiros diz que respeito às mulheres precisa ser naturalizado - Foto Thiago Queiroz/Arquivo pessoal
Ele, que atua no Rio de Janeiro, diz que o respeito às mulheres precisa ser naturalizado em todos os espaços que frequenta com as crianças. Esse processo é interpretado pela criança, pelo filho, à medida que vai crescendo, acrescentou.
Para Cleomar, a qualquer momento, é necessário observar se os meninos fazem comentários inadequados sobre as meninas. Existem muitos livros infantis que trazem esse assunto de forma lúdica para naturalizar a força das mulheres e que não precisam de um príncipe encantado para salvá-las sempre. Na pré-adolescência, já é possível, segundo ele, tratar do tema violência contra as mulheres.
Mais atenção
A psicóloga Bárbara Lobato, que atua em Brasília com famílias, concorda com a intervenção positiva. Ela tem observado que aumentou o número de pais atentos ao combate à misoginia. É uma construção que tem de ser feita de forma cotidiana.
Para Bárbara, é muito importante que os homens saibam, na vida adulta, identificar e falar sobre as suas dores para que possam transmitir as melhores mensagens aos filhos, de forma que estejam abertos ao diálogo, à transparência e à conexão.
É importante observar que garotos em idade de adolescência têm as próprias dores e, eventualmente, relatam algum tipo de negligência afetiva ou social por não se sentirem compreendidos.
Por isso, ela indica ser necessário, com o apoio dos responsáveis, acolher esse sentimento e compreender a angústia daquele rapaz. Esse caminho deve ser compartilhado também no ambiente escolar, espaço em que crianças e adolescentes podem ter contatos também com representações de machismo.
Mundo da escola
A professora e orientadora educacional Ana Paula Lilly, de 56 anos, de uma escola da cidade de Bauru (SP), observa que os discursos de misoginia chegam aos adolescentes também por grupos de mensagens no celular.
É preciso trabalhar com prevenção, com educação digital e midiática. É preciso ensinar nossos jovens a analisar criticamente o que eles estão consumindo, afirma.
Ana Paula explica que a escola deve auxiliar os pais sobre o que crianças e adolescentes vivenciam quando não estão em casa. Família e escola devem agir em parceria com mensagens coerentes sobre respeito, igualdade e responsabilidade. Por isso, é dever da unidade de ensino também chamar os pais ou responsáveis quando houver incidência de demonstrações de violências.
Rede paterna
Para ampliar as discussões sobre a paternidade, um grupo de pais em São Paulo criou, na última semana, o canal de vídeos Papicast. para ser um espaço de discussão e uma rede de apoio paterna. Tiago Koch, de 43 anos, defende que os pais apresentem aos filhos limites nas questões relacionadas ao corpo.
Ele, que é cofundador também de um projeto chamado De Mano pra Mano de atuação nas escolas diretamente com meninos, avalia que os garotos estão pedindo ajuda em silêncio sobre como se relacionar com as meninas. Para ele, o machismo estrutural faz parte do contexto de vida dos garotos, e eles precisam contar com o apoio dos pais para entender mais sobre o mundo.
Há um ensinamento (perigoso) cada vez mais reforçado por esses grupos masculinistas e pelas próprias redes sociais, afirma.
O educador aponta que os meninos carecem de espaços de escuta, e de construção de caminhos propositivos que fujam de estereótipos de homens atravessados pela violência, força, performance da masculinidade, da provisão financeira e da hipersexualização.
Tiago Koch considera que os pais estão com dúvidas sobre como lidar com as características de um mundo diferente porque não contam com referências dos antepassados. Eles estão sendo atropelados principalmente pelo avanço da tecnologia que, a cada dia, traz novos desafios.
Também no Papicast,, o ator e conferencista Tadeu França - pai de dois meninos -, que trata de temas como antirracismo e antibullying na infância, exemplifica que os filhos reconhecem quando o homem e a mulher atuam pelo cuidado da casa. Em algum momento da criação, ele entendeu e associou que as coisas da casa são da mãe.
O terceiro participante do projeto, Dennis Takada, relata que os pais queriam ter mais tempo para ficar com os filhos. As políticas públicas devem levar em conta as necessidades da paternidade e são fundamentais para melhorar a relação da família.
Meninas
Os integrantes do Papicast defendem mais ações no campo de direitos dos pais, como a licença paternidade, e materiais educativos e de orientação às famílias. Tiago Koch considera que as meninas têm reconhecido mais imediatamente demonstrações de machismo e cobrado dos rapazes uma postura diferente.
Elas continuam precisando de políticas públicas de proteção e de escuta. Quando elas falam que os homens estão sendo machistas, pode virar ressentimento, ódio e violência. E eles não entendem, afirmou.
Não engolir o choro
Foi a partir das dores, que aprendeu em casa, que o terapeuta Fábio Manzoli, de Jundiaí (SP), pai de gêmeos e criador do canal Masculinidade saudável, resolveu tratar dos traumas de outros homens. Tinha na memória a ordem que ouviu em casa: homem deve engolir o choro.
O terapeuta Fábio Manzoli, de Jundiaí (SP), criou o canal Masculinidade saudável - Foto Fábio Manzoli/Arquivo pessoal
Em contrapartida, ouviu palavras pejorativas para se referir a mulheres. Comecei a perceber também padrões machistas em mim. Mudou a própria história, depois de entender que o caminho de sua vida poderia ser diferente. Comecei a perceber que esse engole o choro era a raiz da maioria dos meus problemas.
O nascimento dos filhos abriu ainda mais seus olhos. Não somente abriu, como também deixou molhar. Nós pais podemos chorar para eles também. Mostrar que a gente é ser humano. E que eles também estão autorizados a chorar, disse.
Romper o silêncio permanente dos homens pode ser mais um dos passos no combate à misoginia de todos os dias. "Romper também com a história das mensagens machistas que eram tidas como naturais. Eu cresci, meus amigos cresceram, com ideias muito erradas. Chegou a hora de a gente mudar isso, diz Cleomar, pai do Samuca. O menino corre, brinca e é fã da irmã mais velha.