O contador José Neto, 49, de Guarulhos, na Grande São Paulo, precisou mexer nas economias para tratar um problema crônico na faringe de seu gato, Bonnie, de 9 anos. Desde o início de 2026, o pet precisou passar por exames e procedimentos para investigar os sintomas de uma doença que estava impactando sua respiração e alimentação.

O tutor calcula que já gastou pelo menos R$5 mil em exames e internações do gato. Foram muitos exames de sangue, raio-x, ecocardiograma e consultas especializadas com pneumologista de felinos, que são mais caras. O mais custoso foi a nasofaringoscopia, que foi pra lá dos R$3 mil, afirma.

Com a urgência do caso, José precisou correr a um hospital veterinário privado no bairro Parque Jurema. Isso porque em julho completou um ano que a rede pública e gratuita de hospitais veterinários de Guarulhos foi desativada.

Bonnie, em atendimento veterinário @Arquivo pessoal

Sob a gestão do prefeito Lucas Sanches (PL), a Prefeitura rompeu o contrato firmado com a organização gestora da rede, a Sociedade Paulista de Medicina Veterinária, em julho de 2025 alegando supostas irregularidades contratuais. Até agora, não foram oferecidas alternativas para a população.

O inquérito civil público para investigar a instituição foi instaurado apenas em 26 de junho deste ano. Ele apura possíveis irregularidades na execução financeira, prestação de contas, fiscalização e conflito de interesses, bem como eventuais prejuízos aos recursos públicos por ação ou omissão.

O analista financeiro Dennis Alves, 29, tem dois cachorros em sua casa, em Guarulhos: o Ralf, de 9 anos, e o Pequeno, de 16. Em fevereiro de 2026, o mais novo precisou fazer dois procedimentos, um deles cirúrgico. Ao todo foram quase R$4 mil. O Pequeno também precisou de veterinário. Ele está idoso e com problemas na traqueia. Precisou fazer raio-x e exames de sangue. Foi em torno de R$ 450, lembra.

A contadora Cristiane Cabral passou por situação parecida. Ela tem dois pets: uma gata de 4 anos, a Miss Bigode, e uma cachorra de 8, a Lady Puffy. Neste ano, a Lady precisou de atendimento veterinário de urgência após sofrer uma intoxicação alimentar. Foram consultas, exames, medicações, internação e acompanhamento veterinário. O custo foi de R$2.300, valor que ainda estou pagando.

A tutora conta que, para além dos gastos com o atendimento de emergência, os pets também demandam cuidados de rotina, que também têm custos e impactam na saúde de toda população. Temos gastos com vacinas anuais, como a V10, V5, Gripe e Raiva.

Sem subsídios e sem apoio

O protetor de animais Celso Vermelhinho frequentemente faz apelos nas redes sociais para levantar verba para resgates de animais abandonados e vítimas de maus tratos. Só em sua casa, em Guarulhos, ele cuida de 11 cachorros: Fidel, Bernardo, Tucano, Conhaque, Rajadinha, Chiclete, Negão, Max, Bob e Bela e dois gatos Miguel e Segundo.

O protetor afirma que, de janeiro a julho de 2026, gastou pelo menos R$7 mil com despesas veterinárias e que não conta com apoio do poder público nem de empresas privadas para realizar os resgates.

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Infelizmente, clínicas particulares pouco olham para a questão social. Elas não querem saber se você tem ou não condições, só passam os valores, diz. Tem que ter, urgente, um hospital público veterinário em Guarulhos. Não dá para viver numa cidade sem ter uma alternativa pública e gratuita.

A mesma reclamação se repete entre os responsáveis pela organização não governamental Amigos da Mia, que atua em diversas regiões de Guarulhos. A entidade nunca recebeu apoio da Prefeitura.

Miss Bigode sofreu com intoxicação alimentar e precisou de atendimento de emergência @Acervo Pessoal

As ONGs realizam um trabalho que deveria ser feito pela administração pública. Até porque a arrecadação que conseguimos não é suficiente, afirma Thaize Anzai, responsável pela organização. Não temos incentivo da Prefeitura, fazemos tudo sozinhos, [mobilizando doações] através das redes sociais, afirma a protetora.

Hospital veterinário público

Em dezembro de 2024, dois hospitais veterinários públicos e gratuitos foram inaugurados em Guarulhos, na reta final da gestão do então prefeito Gustavo Henric Costa, o Guti (PSD). Um deles ficava no centro da cidade e outro no bairro dos Pimentas. Os equipamentos funcionaram por apenas sete meses.

A expectativa da protetora animal Thaize Anzai é que os hospitais sejam reabertos e que os atendimentos gratuitos diminuam casos de abandono. Os custos dos tratamentos são um dos grandes motivos do abandono. Na ONG, já tive bicho devolvido depois de quatro anos de adoção por isso, conta.

‘Quase toda família tem seu pet e nem todo mundo tem condição de pagar um procedimento de emergência e medicamentos. Eles fazem parte da nossa família’,

Dennis Alves. 

A tutora Cris, reforça: os pets são a família de muita gente e, para as pessoas de média e baixa renda, qualquer gasto a mais com consultas e exames pesa, diz. Hospitais veterinários gratuitos ajudam a manter a saúde e o bem estar da população. Um animal doente, sem tratamento, pode ser vetor de transmissão e afetar a saúde humana. Não é privilégio, mas oportunidade para que todos possam adotar um pet.

Questionada sobre alternativas para atendimento veterinário gratuito na cidade, a Prefeitura não se pronunciou.

Agência Mural

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