O documentário Iracema, Meu Grande Amor, que conta a história de uma das mais tradicionais escolas de samba da zona norte de São Paulo, leva o público para muito além do carnaval.

O curta-metragem mergulha na memória da Brasilândia e das famílias da região, que ajudaram a construir a identidade cultural da comunidade e a fortalecer a cultura do samba na cidade.

Fundada em 1989, a Escola de Samba Iracema Meu Grande Amor nasceu da união de moradores apaixonados pelo carnaval e pela comunidade. Também foi motivada pelos fãs do ritmo que viram a Rosas de Ouro se mudar para a Freguesia do Ó, na década de 1980.

Mais de 37 anos depois, ela se tornou um espaço de encontro, resistência e pertencimento para os amantes de samba. 

Agremiação disputa o desfile das escolas de samba de bairro @elaz na visão

Foi justamente essa memória que motivou a diretora e roteirista Nicoly Adão, 25, a transformar a folia em documentário. Nascida e criada no Jardim Iracema, no distrito da @Brasilâdia@, ela descobriu, durante conversas com a mãe e a avó, que o avô [Jurandir] havia participado da fundação da escola.

“Eu me lembro de escutar as batidas [da bateria da escola de samba] de longe. Esse filme, para mim, é sobre a curiosidade pelas origens, pela minha família e pelo meu bairro”, conta Nicoly.

O projeto também marcou o nascimento do coletivo audiovisual Elaz na Visão, formado por mulheres de diferentes regiões periféricas de São Paulo. O propósito é contar histórias que muitas vezes ficam fora dos grandes circuitos de produção do cinema, valorizando personagens, territórios e culturas das quebradas.

Escola Iracema nos anos 1990 @elaz na visão

Anna Clara Pereira, que assina o documentário como pesquisadora e produtora, é moradora de Pirituba, assim como Nicoly atualmente. Já Flora Matheusa, 28, que também é roteirista da produção, é residente em Guarulhos, na Grande São Paulo, assim como Mariana Umbelino Lotéria, 27, também produtora.

Transformar a ideia em documentário não foi simples. A produção levou tempo até conquistar apoio financeiro, pelo programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa de São Paulo. 

Com o recurso, o coletivo conseguiu viabilizar as gravações e concluir o filme. O documentário acompanha a diretoria e os foliões da escola na preparação e no desfile de 2026, enquanto retoma a história e o legado da escola.

‘Retomar a importância dessa escola é olhar para as origens negras da zona norte, que é tão marcante para São Paulo’

Flora Matheusa, roteirista

A região é palco importante do samba paulistano e traz em sua história grandes escolas que desfilam pela UESP (União das Escolas de Samba de São Paulo), como Rosas de Ouro, Império de Casa Verde, Mocidade Alegre, Acadêmicos do Tucuruvi e Unidos de Vila Maria. Além disso, conta com tradicionais rodas de samba da cidade, como o Samba do Cruz e o Galpão da ZN.

Atual presidente da escola de samba, Antônio Cândido, relembra os desafios para manter a agremiação @Giovanna Cazuza/Agência Mural

Uma história de samba

A agremiação foi fundada sob a liderança de João Carlos de Oliveira, o primeiro presidente e conhecido como Neno. O nome da escola é uma homenagem ao bairro Jardim Iracema, enquanto as cores (verde, vermelho, branco, marrom e preto) representam a identidade.

O símbolo da escola é a tríplice aliança, uma referência à indígena Iracema, personagem do livro de mesmo nome do autor José de Alencar, ao bairro que leva seu nome e, sobretudo, à música Iracema, de Adoniran Barbosa.

O avô da Nicoly Adão, Jurandir Antônio de Lima, mais conhecido como Pulga, ajudou a fundar a agremiação e a colocar o samba na avenida. Ele foi diretor de alegoria, desenhou e construiu ornamentos para os desfiles e ainda ajudou a compor sambas enredo. Pulga, faleceu em 2015.

Antonio Jurandir, nos anos 1990. Avô de Nicoly, ele atuou na agremiação @elaz na visão

Os primeiros anos foram de construção e aprendizado. Entre 1991 e 1993, a Iracema disputou os grupos de seleção da UESP, conquistando o vice-campeonato em 1993. O resultado, após 2 boas colocações, levou a escola ao Grupo 4 do carnaval paulista, em 1995. 

Nos anos seguintes, entre 1996 e 2000, a escola alternou participações entre os Grupos 2 e 3, com enredos voltados à cultura popular.

Quando assumi a presidência da Iracema, em 2005, a escola possuía apenas a ata de fundação. Trabalhamos para regularizar a situação jurídica e obtivemos importantes avanços. Entre eles, conquistamos um espaço para a construção e armazenamento das alegorias, garantindo melhores condições para a produção do nosso Carnaval, comemora o atual presidente, Antônio Cândido, 64.

No carnaval de 2027, a escola desfilará no Grupo de Acesso de Bairros III da UESP, com o enredo homenageando o sambista Geraldo Filme.

Desafios de seguir na avenida

A instituição teve que se reinventar após a pandemia de Covid-19, iniciada em 2020, e que suspendeu desfiles de carnaval e rodas de samba para evitar o contágio. 

Em 2022, colocamos a escola na avenida sem recurso e com pouquíssimo tempo. Tivemos que ir para barracão pegar fantasias do lixo e transformar em arte. Isso foi desafiador e ao mesmo tempo realizador, lembra a diretora da escola, Vanessa Dias, 44.

Nicoly decidiu fazer o filme ao descobrir a história do avô @Reprodução

A porta-bandeira Tauany Sabino, 31, conta que a história da família sempre se misturou com a história da escola.

Uns faziam fantasias, outros ajudavam na decoração dos carros alegóricos, outros desfilavam Era uma união em forma de escola de samba, diz. O momento mais marcante para mim foi quando desfilei como porta-bandeira oficial ao lado do inesquecível mestre-sala Pingo, da Vai-Vai. Naquele ano, 2009, conquistamos nota máxima e foi um dos momentos mais emocionantes da minha trajetória.

Filha de Antonio Cândido, presidente da escola, ela conta que o pai nunca deixou de acreditar no futuro da escola. Mesmo com todos os desafios, ele continuará lutando até ver a escola no lugar onde sempre sonhou. Essa perseverança é algo que sempre admirei.

Agência Mural

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