A eleição presidencial deste ano será a primeira do século sem mulheres nas chamadas chapas competitivas, ou seja, nas chapas de partidos que têm representatividade no Congresso Nacional. E isso é preocupante, sobretudo com o número de feminicídios batendo recordes no Brasil pelo quarto ano seguido, com essa nova leva de governantes autoritários e masculinistas no mundo e com o crescimento vertiginoso da machosfera. Além do que, vamos combinar, somos 51,5% da população do país.
É feio ser uma eleição presidencial só de homens no topo, e os candidatos do topo sabem que é feio.
Tanto, que Lula e Flávio Bolsonaro que, segundo a última pesquisa eleitoral da BTG/Nexus, têm respectivamente 41% e 36% das intenções de voto no primeiro turno fizeram acenos às mulheres em seus primeiros discursos de campanha realizados neste domingo, 16.
Lula, em São Bernardo do Campo, lembrou da mãe que criou 8 filhos sozinha e disse que os homens precisam respeitar as mulheres como companheiras e não como escravas ou cidadãs de segunda categoria. Agradeceu a Deus por sua primeira esposa Marisa e pelo apoio de Janja. Quero dizer, Janjinha, como Deus é justo. Eu, quando a Marisa morreu, eu pensei que era o fim da minha vida. Porque eu tinha vivido com a Marisa há 45 anos. Eu achei que o mundo tinha acabado. Mas, da mesma forma que Deus levou a Dona Marisa, Deus me trouxe você para ajudar a continuar nessa luta e continuar vencendo as batalhas que nós temos que vencer. Disse também às mulheres do país que não baixem a cabeça nunca porque nós homens precisamos aprender a respeitar vocês como companheiras, não como serviçais. Não como escravas, não como cidadãs de segunda categoria. Levante a cabeça porque Deus fez a gente igual. Não é possível que a gente não termine com essa violência. E defendeu que o tratamento respeitoso à mulher seja ensinado nas escolas.
Na convenção do PT em São Paulo no dia 02, Lula já havia feito um mea culpa: antes de eu falar, eu quero fazer uma crítica a mim. Porque não é possível que a gente tenha esquecido que, no principal evento da nossa campanha, não tenha colocado uma mulher para falar. Então chamou a companheira Janja ao microfone, em nome das pessoas que participam do Pacto contra o Feminicídio aliança inédita entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário para integrar ações de combate à violência letal contra mulheres no país, lançado no começo deste ano. A deputada federal Benedita Silva, candidata ao Senado pelo PT para o Rio de Janeiro, também discursou na ocasião e no lançamento da campanha da Vila Euclides.
No dia 16, Janja fez um breve discurso, homenageando Marisa e as mulheres que não estavam no chão de fábrica em 1979 mas que serviram de alicerce para que seus maridos pudessem lutar por melhores salários sob a liderança de Lula. Essas mulheres lideradas por dona Marisa foram uma força importante e são pouco lembradas. Sem a presença delas, presidente, talvez essa história toda tivesse sido diferente. A estrela da nossa bandeira, do nosso partido, traz à nossa memória o cuidado e o carinho de dona Marisa; foi ela quem bordou a primeira bandeira do PT e é a ela que eu dedico toda a minha admiração, disse a primeira-dama.
Em cima de um carro de som no Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro acenou às mulheres em palavras e códigos. Também passou o microfone à esposa Fernanda, que disse que se Flávio for presidente, as mulheres vão ter mais oportunidades e segurança e que quando as mulheres vencem, a família toda vence”. Logo após, Fernanda escreveu com batom nas costas do marido: O Brasil vai vencer.
O batom virou um símbolo importante para a extrema direita brasileira desde os atos golpistas de janeiro de 2023, quando Débora Rodrigues dos Santos, que ficou conhecida como a Débora do Batom escreveu a frase perdeu mané na estátua A Justiça em frente ao Supremo Tribunal Federal. Michelle Bolsonaro chegou a discursar com um batom em riste em manifestações em 2025 e a gravar vídeo com o objeto pedindo anistia dos golpistas.
Depois do ato simbólico repare que a frase foi escrita nas costas do candidato, não no peito Flávio disse à esposa que ela era sua espinha dorsal e que sem ela não conseguiria ficar de pé todos os dias e enfrentar as dificuldades e os desafios para trabalhar pela nossa pátria amada Brasil. Mais um simbolismo: frequentemente as mulheres são mencionadas em cultos evangélicos como a coluna da família e da casa, alguém que não tem o protagonismo mas é importante como alicerce nos bastidores. Postura que a própria Michelle Bolsonaro também assumiu durante o governo de seu marido.
Nada é por acaso com a família que entende muito bem a linguagem das redes sociais e os símbolos que tocam seus seguidores.
Mencionando o alto número de feminicídios, Flávio aproveitou para atacar Lula, dizendo que as mulheres foram abandonadas e assassinadas por vagabundo covarde pelo simples fato de ser mulher sob seu governo. Adotando tom punitivista e insistindo em uma ideia absurda, falou que vai proteger as mulheres do Brasil e que abusador e estuprador de mulher e criança vai mofar na cadeia e só vai sair depois que fizer castração química. Como se o alto número de estupros e violência de gênero estivessem relacionados à biologia do macho e pudessem ser desligadas quimicamente. Mas essa é toda uma outra história, para uma outra coluna.
A realidade agora é mais simples e mais dura. Em uma eleição muito importante para a vida das mulheres, seguimos do lado de fora. Fora do topo e das chapas competitivas. Quando convém, nos chamam de base, coluna, alicerce, fortaleza doméstica, sempre como força que sustenta um outro. Mas sustentar não é decidir.
O aceno está lá.
O lugar de mando, não.
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