Na tradição iorubá e no Candomblé, a cabeça é mais que uma parte do corpo. O ori, como é chamada, é o orixá pessoal e o centro espiritual de cada ser humano, representando a intuição, a consciência e o destino. Nos terreiros, a cabeça é sagrada, como é também para centenas de mulheres negras das periferias que se dedicam, há gerações, a trançar os cabelos dos mais velhos e mais novos, em um momento de afeto e valorização cultural.

Mas foi só há pouco mais de um ano, em junho de 2025, que este saber tradicional foi oficialmente reconhecido como profissão: trancista. A inclusão na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), resultado de mobilizações do movimento negro, garante às profissionais uma série de direitos trabalhistas e o tão sonhado reconhecimento.

Já era tempo: no Brasil, a maioria dos profissionais nos salões de beleza são mulheres (62%). Mais da metade delas (52%) são pretas ou pardas, revelando o protagonismo em um dos mercados mais inclusivos do país, que chega a movimentar R$130 bilhões por ano. Os dados são da pesquisa Na raiz do PRO Um retrato do brilho, das conquistas e dos anseios dos profissionais cabeleireiros, da LOréal, em parceria com a consultoria Provokers.

Motivadas pelo desejo de valorizar a ancestralidade, cuidar de filhos, irmãos e sobrinhos, fortalecer a autoestima, sustentar a família, ter autonomia e construir uma carreira, trancistas das periferias de São Paulo tecem nas mãos os sonhos de quem veio antes e de quem vem depois.

São algumas dessas histórias que a Agência Mural conta em uma fotorreportagem com mulheres da zona norte de São Paulo que mantêm a tradição, mas têm buscado formas de inovar e progredir.

Desde 2019, a trancista Ana Carolina, 34 anos, tem no ofício sua principal fonte de renda. Conhecida no mundo das tranças como Carol Coisa Nossa, ela atende em seu salão no bairro da Jova Rural, na zona norte de São Paulo, onde mora. @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural

As clientes são recebidas com a palavra Ubuntu – que em iorubá significa “eu sou porque nós somos” – e por ícones negros, como o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, e Clementina de Jesus, uma das maiores cantoras e sambistas da música brasileira. @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural

Comecei a trançar quando estava grávida da Júlia. Queria aprender para que minha filha tivesse referências positivas do seu cabelo crespo e da sua identidade, conta Carol. @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural

A lição foi aprendida: desde pequena, Ana Júlia ajudava a mãe a trançar cabelos

Hoje, os cabelos de Júlia são um símbolo de beleza e resistência para a jovem. Ela tem 13 anos, participa de aulas de capoeira, circo, e violão. Percebo que ela está crescendo com muita personalidade. @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural

Mas os aprendizados não vieram apenas da prática. Carol realizou uma série de cursos e segue se aperfeiçoando. Ela foca em parcerias para acelerar seu negócio e dá suporte a outras mulheres que querem entrar na área. @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural

Pela qualidade e consistência do trabalho, Carol se tornou referência em tranças e já teve a oportunidade de trançar artistas relevantes, como Djonga, MC João e MC Cabelinho. @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural

Hoje, ela dá aulas gratuitas na Fábrica de Cultura do Jaçanã, no bairro da Jova Rural, todas às quartas e sextas. Meu objetivo é formar novas profissionais, fortalecer o empreendedorismo feminino e manter viva a história que caminha com as tranças. @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural

O que mais me realiza é ver o impacto do meu trabalho na autoestima das mulheres. Clientes já choraram ao se olhar no espelho porque voltaram a se enxergar bonitas. @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural

Quem também se encontrou no universo das tranças foi Tâmara Regina Souza Silva, 31, conhecida por Tamy e moradora do bairro da Vila Paulistana, na zona norte. @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural

Ela começou a arte de trançar aos seis anos, nos barrados de cortinas e tapetes de casa. Eu estudava numa escola de classe média e era a única criança de cabelo crespo. Trançar foi a solução, porque não queria ouvir as piadas. Eu me sentia mais corajosa. @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural

Aos quinze anos de idade, Tâmara fez um curso gratuito no Centro Cultural da Juventude, no Jardim Elisa Maria, também na zona norte. Desde então, realizou vários cursos livres e profissionalizantes na área. @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural

O impulso profissional foi motivado pela filha, que precisava de cuidados médicos, o que a impossibilitou de trabalhar fora. Desde 2023 ela tem seu próprio salão, Studio Tamyh Vallence, na Vila Paulistana. @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural

Hoje, ela ensina a filha mais velha a trancar @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural

O salão é um ambiente de cuidado, afetividade e desabafo. A trança é um símbolo de força para as mulheres, mostra que ela é capaz de fazer o que quiser. @Nathália Ract da Silva/ Agência Mural

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