No interior do Espírito Santo, uma rua estreita concentrava algumas das principais empresas brasileiras de fabricação de arcos de violino: Arcos Brasil, Archets Brasil, Bogen Schaeffer e Horst John & Co. O polo no distrito de Guaraná, em Aracruz, havia se consolidado nas décadas de 1970 e 1980, quando o comerciante alemão Horst John se estabeleceu na região e passou a enviar jovens locais à Europa para aprender a arte da archeteria.
Segundo as autoridades brasileiras, o que parecia um polo artesanal especializado escondia um sofisticado esquema de extração e comercialização ilegal do pau-brasil a árvore que dá nome ao país e que, após séculos de exploração, figura hoje entre as mais ameaçadas da Mata Atlântica. A madeira avermelhada da espécie é considerada, há séculos, a matéria-prima ideal para arcos de instrumentos de corda, e um único arco pode custar entre cinco e 10 mil dólares no mercado internacional.
O esquema funcionava por meio de uma fraude sistemática na documentação florestal. A legislação brasileira proíbe, desde 1993, o corte do pau-brasil nativo e a exportação de sua madeira em estado bruto. Em 2006, o cerco se fechou ainda mais após a espécie entrar no Apêndice II da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES); a exportação de toras de pau-brasil foi proibida pela legislação brasileira. Para continuar operando legalmente, as empresas de Guaraná deveriam utilizar apenas estoques históricos comprovadamente cortados antes dessa data. O que os fiscais do Ibama descobriram, a partir de 2018, foi que as empresas inseriam informações falsas nos sistemas oficiais de registro florestal para que seus estoques nunca diminuíssem no papel enquanto, na prática, eram continuamente renovados com madeira extraída ilegalmente, em grande parte do Parque Nacional do Pau-Brasil, em Porto Seguro, na Bahia.
Em 2021, a Polícia Federal deflagrou as operações Ibirapitanga I e II, que resultaram na apreensão de mais de 230 mil varetas, no indiciamento de 32 pessoas e na descoberta de uma rede comercial que se estendia por 34 países ligando pequenas oficinas do interior capixaba a comerciantes na Itália, Alemanha, França e nos Estados Unidos. Uma planilha analisada pela reportagem lista 220 nomes de fabricantes de arcos, comerciantes e empresas que conectam produtores brasileiros a compradores em quatro continentes.
O contrabando nos aeroportos
Parte desse comércio passava diretamente pelos aeroportos. Em setembro de 2021, o fabricante de arcos Marco Raposo foi detido no aeroporto de Guarulhos com 208 arcos de pau-brasil na bagagem, a caminho da Suíça. O processo foi arquivado e Raposo foi inocentado na esfera judicial, mas o caso segue tramitando na esfera administrativa. Sete meses depois, foi interceptado novamente desta vez com 114 arcos prontos e 120 varetas, rumo a Londres, onde havia aberto uma empresa alguns anos antes.
O comerciante italiano Francesco Marano foi interceptado duas vezes em 2022. Em fevereiro, autoridades identificaram uma remessa no aeroporto de Viracopos, em Campinas: 137 varetas de pau-brasil e 281 de jutaí-peba destinadas à Itália, sem rastreabilidade no sistema Documento de Origem Florestal (DOF) e sem os certificados CITES exigidos. Em junho, foi flagrado na alfândega do Rio de Janeiro com outras 70 varetas. O destino era a Bows Tone Wood, sua empresa nos arredores de Cremona cidade italiana mundialmente associada à tradição da luteria. No mesmo mês, autoridades apreenderam 83 arcos atribuídos a Horst John & Co no aeroporto de Guarulhos (SP) e outros 25 da Bögen F. Schaeffer em Campinas (SP), por não apresentarem a licença de exportação exigida pelo governo brasileiro.

Em setembro de 2022, a Polícia Federal chegou a uma conclusão: nem multas, nem suspensões de atividade, nem a primeira fase da Operação Ibirapitanga haviam sido suficientes para interromper o comércio ilegal. A madeira continuava circulando mesmo enquanto as investigações avançavam.
O paradoxo do lobby
O movimento que se seguiu surpreendeu até os investigadores, segundo apurou a Agência Pública. Felipe Bernardino Guimarães é analista ambiental do Ibama com mestrado em Biologia Vegetal e ênfase em Anatomia da Madeira. Desde 2018, coordenou a Operação Dó Ré Mi a investigação que, a partir de inconsistências nos estoques declarados pelas empresas de Guaraná, ajudou a desvendar o esquema e abriu caminho para as operações da Polícia Federal e passou onze dias nos galpões apreendidos, contando vareta por vareta. Da posição de quem acompanhou de dentro cada movimento dos investigados, Guimarães descreve o que viu: Eles contrataram assessoria de imprensa, fizeram todo o lobby com os políticos locais no Espírito Santo, dentro dos órgãos, como o Ministério da Agricultura, onde têm muito acesso. Promoveram uma reunião lá dentro do Ministério para deixar a imagem deles limpinha. Estavam sempre com publicações na imprensa, comprando espaço.
Respondendo a processos criminais, alguns dos principais fabricantes indiciados passaram a atuar publicamente como defensores da proteção ao pau-brasil financiando representantes em fóruns internacionais, apoiando projetos de lei e pressionando por mudanças nas regras da CITES.
Quando a reportagem visitou Marco Raposo em sua casa e oficina em Domingos Martins, cidadezinha no interior do Espírito Santo com ares europeus, ele explicou como funcionava o negócio antes das operações: Na maioria das vezes, eu chegava à Europa, alugava um carro e viajava para visitar vários compradores. Quando foi interceptado em 2021, pretendia vender a mercadoria em Cremona, durante a tradicional feira anual de música que reúne centenas de luthiers e compradores do mundo inteiro.
Depois das apreensões, Raposo mudou de estratégia. Ao lado do fabricante Celso de Mello, contatou, em 2024, Daniel Neves, presidente da Associação Nacional da Indústria da Música (Anafima). Neves revelou-se um dos principais defensores da inclusão do pau-brasil no Apêndice I da CITES a lista das espécies com proteção máxima e participou de reuniões oficiais em Genebra, Brasília e, por fim, na conferência da CITES no Uzbequistão, no final de 2025. Raposo relatou à Pública que tanto ele quanto Celso de Mello financiaram a participação de Neves em reuniões oficiais.
Procurado pela reportagem, Neves disse não ter recebido nenhuma taxa, remuneração ou pagamento pessoal dos dois fabricantes de arcos.
Como presidente da Anafima, Neves diz representar empresas do setor musical em todo o Brasil e afirma que participa de grupos de trabalho públicos voltados à rastreabilidade da madeira, como a Rede de Florestas da CNI e um grupo de trabalho sobre o pau-brasil criado em 2025 pela CONABIO, a Comissão Nacional da Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Embora as empresas de Raposo e De Mello sejam associadas à Anafima, acrescentou Neves, a organização não responde pelos assuntos jurídicos de seus associados.
RESPOSTA NA ÍNTEGRA
Integra de perguntas e respostas com Daniel Neves, presidente da Associação Nacional da Indústria da Música (Anafima)
1. O senhor confirma ter sido contratado ou remunerado por Marco Raposo e Celso de Mello em 2024? Em que termos e com que finalidade?
Não. Não houve contratação, não houve contrato e não houve pagamento a mim. A participação da ANAFIMA foi financiada como descrito acima, em defesa de posições que a associação já havia adotado e tornado públicas.
2. No momento da contratação, o senhor sabia que ambos respondiam a processos criminais por extração e comércio ilegal de pau-brasil?
A premissa não se aplica, pois não houve contratação. Sobre o ponto de fundo: as operações do IBAMA e da Polícia Federal tiveram ampla repercussão na imprensa brasileira, e eu tinha conhecimento delas como qualquer pessoa que acompanhe o setor. Nunca tive acesso aos autos, nunca atuei em nenhum processo e nunca tive qualquer papel na defesa jurídica de pessoa ou empresa.
Sobre isso, faço um pedido, que diz respeito à precisão e não a qualquer indivíduo. A própria apuração da reportagem registra que nenhum dos processos decorrentes dessas operações foi concluído. Peço que o texto não apresente processos em andamento como conclusões definitivas, em nenhum dos sentidos. Perguntas sobre a situação jurídica de uma empresa específica devem ser dirigidas a ela e a seus advogados. Não me cabe responder por elas, e a ANAFIMA não fala pelos assuntos jurídicos de seus associados.
3. Como o senhor avalia a coincidência entre a sua contratação e o engajamento público dos dois fabricantes na defesa da proteção da espécie na CITES?
Não houve contratação, portanto não há coincidência a avaliar. Mas a questão de fundo por que a posição da ANAFIMA mudou merece resposta direta, e está inteiramente documentada.
Em 2022, a ANAFIMA se manifestou publicamente contra a inclusão da espécie no Apêndice I, sob o argumento de que isso penalizaria músicos e fabricantes legítimos. Essa posição está registrada em nossas próprias publicações e na imprensa brasileira da época.
Em abril de 2024, apresentei a posição revista da ANAFIMA de forma pública e internacional, em artigo assinado publicado pela The Strad a principal revista internacional do mundo dos instrumentos de corda sob o título “The pernambuco wood dilemma: a call for global responsibility and unity”. O artigo tratava diretamente da proposta de Apêndice I, afirmava que a diretoria da ANAFIMA estava disposta a apoiar a inclusão caso a extração ilegal persistisse, e trazia meu nome, meu cargo e meus contatos. Está disponível publicamente desde então:
https://www.thestrad.com/lutherie/the-pernambuco-wood-dilemma-a-call-for-global-responsibility-and-unity/17902.article
A mesma posição foi publicada em português no site da ANAFIMA. Foi, portanto, anunciada com antecedência, nos dois idiomas, na principal publicação internacional do setor e para os nossos associados no Brasil sete meses antes da Carta de Vitória e mais de um ano antes da CoP20. Qualquer pessoa da comunidade internacional de arcos podia lê-la. Muitas leram, e algumas discordaram.
Em 19 de novembro de 2024, no Congresso e Seminário Brasileiro do Pau-Brasil, realizado em Vitória (ES), uma sessão dedicada especificamente à proposta de Apêndice I chegou a uma posição de consenso. Em 25 de novembro de 2024, essa posição foi formalizada na Carta de Vitória.
Entre os signatários estão a Fundação SOS Mata Atlântica; o deputado federal Nilto Tatto; Julie Messias, ex-secretária nacional de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente; o INCAPER; um professor da Universidade Federal do Espírito Santo; o secretário estadual de Agricultura do Espírito Santo; três prefeitos; o presidente do Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado de São Paulo; o compositor Ivan Lins; o maestro Julio Medaglia; e o spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. O documento foi publicado na íntegra pelo CRBio-07, conselho profissional federal.
Nem Marco Raposo nem Celso de Mello assinam a carta.
Se a posição da ANAFIMA tivesse sido comprada, o mesmo teria de valer para todas as organizações e figuras públicas citadas acima que chegaram a uma posição idêntica, no mesmo dia, no mesmo documento. Não creio que os leitores achem isso plausível.
Acrescento que a proposta de Apêndice I apresentada na CoP20 partiu do Estado brasileiro, por meio do IBAMA. Apoiar uma proposta soberana do próprio governo, ao lado da maior organização ambiental do país e de um deputado federal em exercício, não é manobra privada.
4. O senhor ou a ANAFIMA participaram, direta ou indiretamente, de iniciativas para legalizar o comércio de pau-brasil de reflorestamento ou para que a fabricação de arcos seja reconhecida como patrimônio cultural no Espírito Santo?
Sobre os plantios: sim, e isso nunca foi ocultado. É o segundo parágrafo da Carta de Vitória, publicada em novembro de 2024, e o próprio veículo noticiou o fato em novembro de 2025. A carta pede que o Apêndice I se aplique às populações de floresta nativa, permitindo o uso regulado de material de plantio sujeito a quatro condições que ela mesma explicita: comprovação de que o material vem exclusivamente de plantios certificados e manejados; rastreabilidade robusta e certificação de origem ao longo de toda a cadeia; licenças especiais de exportação emitidas pela Autoridade Administrativa da CITES; e medidas rigorosas contra fraude e contra a mistura de material de origem silvestre com material de plantio.
Isso não é uma brecha inventada por lobistas. O próprio Artigo VII, parágrafo 4, da Convenção prevê que espécimes de uma espécie vegetal do Apêndice I reproduzidos artificialmente para fins comerciais sejam tratados como espécimes do Apêndice II. Defender a inclusão no Apêndice I e, ao mesmo tempo, sustentar um fornecimento de plantio regulado e rastreável não são duas estratégias. É uma só posição, e segue o texto do tratado. As quatro condições da Carta de Vitória são mais rígidas que o parâmetro mínimo da Convenção, não mais frouxas.
É também, na minha avaliação, o único desfecho possível. Enquanto não houver oferta legal, haverá oferta ilegal. Isso não é defesa de ninguém. É a razão pela qual o comércio ilegal sobreviveu a todas as restrições impostas desde 2007.
Sobre o patrimônio cultural: [RESPOSTA FACTUAL]. Seja qual for o estágio dessa discussão, o reconhecimento de uma prática cultural imaterial protege saberes e ofício. Não autoriza o uso de madeira de origem ilegal nem cria exceção à legislação ambiental brasileira ou às obrigações da CITES. Qualquer sugestão de que o título de patrimônio possa blindar uma atividade contra uma restrição comercial é juridicamente incorreta.
5. Como o senhor justifica atuar internacionalmente em defesa da proteção do pau-brasil sendo financiado por fabricantes investigados?
Não sou financiado por eles. Mas quero tratar da premissa mais ampla, porque ela merece ser examinada à luz da própria apuração da reportagem.
A International Pernambuco Conservation Initiative, criada em 1999 e citada na reportagem de novembro como participante legítima deste debate, se define como uma iniciativa voluntária financiada por archetiers. Se o financiamento vindo do setor de arcos desqualifica uma organização para falar sobre a Paubrasilia echinata, desqualifica igualmente os dois lados desta disputa. Se não desqualifica, então a pergunta não é quem paga, e sim o que se defende e se isso é declarado. No caso da ANAFIMA, o que foi defendido é público, foi publicado com antecedência na principal revista internacional do setor e foi assinado por trinta pessoas e instituições.
Acrescento que o resultado da CoP20 não combina com a estratégia descrita pela reportagem. A proposta brasileira de Apêndice I não foi aprovada. A espécie foi mantida no Apêndice II, sob a Anotação #10 revisada, com cota zero para espécimes de origem silvestre no comércio internacional. A nota pública do próprio IBAMA, de 17 de dezembro de 2025, descreve o efeito com clareza: a partir de 5 de março de 2026, fica proibido o comércio internacional do pau-brasil nativo e de seus produtos derivados. Esse é o resultado que a ANAFIMA apoiou. É a restrição mais dura já imposta a esta espécie, e é pior não melhor para todos os fabricantes de arcos do Brasil.
Se a objeção é que eu defendi posições, então sim: é isso que faz o presidente de uma associação setorial. Fiz isso abertamente, com base em posições publicadas previamente sob o meu nome, e a partir de um grupo de trabalho do Ministério do Meio Ambiente. A objeção que as perguntas de fato fazem é que eu teria sido contratado para isso. Não fui.
6. O senhor gostaria de acrescentar algum esclarecimento sobre o seu papel na ANAFIMA em relação a este caso?
Três pontos, no interesse da precisão.
Primeiro, uma questão sobre a própria apuração. A reportagem de 25 de novembro de 2025 identificou os dois arqueteiros que sustentariam o que ali se descreveu como um novo bloco de poder como Marco Raposo e Júlio Batista, do J.B. Atelier e da Souza Bows. O e-mail que recebi agora cita Marco Raposo e Celso de Mello. São pessoas diferentes. Peço que se confirme qual das informações está correta antes da publicação, e com base em quê o segundo nome mudou.
Segundo, o texto deveria distinguir com clareza quatro coisas distintas: os processos contra pessoas específicas; o papel institucional da ANAFIMA; o meu papel como presidente eleito; e o debate público mais amplo no Brasil sobre a conservação e o manejo sustentável da Paubrasilia echinata. Reunir tudo isso em uma única narrativa produz um relato que não é preciso.
Terceiro, sobre o formato do problema. Claudia Mello, coordenadora do Grupo de Trabalho Pau-Brasil do IBAMA, disse aos próprios repórteres deste veículo que há forte lobby da União Europeia e dos Estados Unidos contra controles sobre o comércio de arcos, e que esses mercados mantêm estoques acumulados há décadas e exportam grandes volumes todos os anos, ao mesmo tempo em que resistem ao ônus de documentar a origem legal. Essa é a outra metade da cadeia. Uma investigação que examina apenas a extração no Brasil descreve a oferta e omite a demanda que a financia. Digo isso não para desviar das responsabilidades brasileiras, que são reais e que a ANAFIMA já reconheceu publicamente, mas porque um relato de metade da cadeia não explica por que este comércio se mostrou tão duradouro.

Para Guimarães, a estratégia tinha uma lógica clara: Eles ficaram jogando isso na mídia, sempre puxando a palavra ‘cultural’. Tentaram plantar a ideia do Vale do Arco, em Aracruz. A intenção era tornar a atividade de produção de arcos de pau-brasil um patrimônio cultural do Espírito Santo pois daí é uma atividade que não pode cessar.
O que parecia uma contradição tornou-se uma estratégia de duas frentes: ao defender o endurecimento da proteção à espécie na CITES, esses fabricantes buscavam também abrir caminho para a legalização do uso comercial do pau-brasil de reflorestamento o que, se aprovado, reabilitaria seu papel central em um mercado global que movimenta milhões de dólares. E ao tentar transformar a archeteria em patrimônio cultural, blindariam a atividade contra qualquer tentativa de encerrá-la.
Um projeto de lei apresentado em Brasília, quase ao mesmo tempo, ajuda a explicar o movimento. Foi elaborado, segundo Raposo, com contribuições dele próprio e do agrônomo Pedro Galveas, pesquisador do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (INCAPER), e apresentado em 2024 pelo deputado federal Evair Vieira de Melo que, na época, estava no Progressistas (PP) e, desde abril de 2026, integra o Republicanos. Considerado o maior aliado de Jair Bolsonaro no Espírito Santo, Evair foi vice-líder do governo do ex-presidente na Câmara, entre 2020 e 2022. Técnico agrícola de formação, o deputado construiu sua carreira em torno do setor rural capixaba: presidiu o INCAPER por seis anos e a Comissão de Agricultura da Câmara, onde é conhecido por defender os produtores de café. O Espírito Santo é o segundo maior produtor nacional do grão. Os fabricantes de arcos ouvidos pela reportagem em Guaraná o descrevem simplesmente como um amigo alguém que entende as demandas do setor e está disposto a defendê-las em Brasília. Evair conta que visitou empresas que estavam fechando no distrito e decidiu agir. O Brasil não pode simplesmente, em troca de um protecionismo cego, acabar com uma cultura centenária que tem um ativo econômico importante, disse em entrevista, em seu gabinete, em Brasília.
O PL 3284/24 foi aprovado em dezembro de 2024 pela Comissão de Agricultura da Câmara e, em agosto de 2026, pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, na forma de substitutivo do relator, deputado Carlos Henrique Gaguim (União-TO). O novo texto amplia a proteção a todo o gênero botânico Paubrasilia, garante a rastreabilidade da madeira, da extração ao produto final, e incentiva a exploração econômica por meio de plantios comerciais registrados e licenciados, autorizando, inclusive, plantios em áreas de reserva legal em recuperação. O substitutivo também flexibilizou a proibição geral de corte de árvores com menos de 30 anos, prevista na versão original: caberá ao órgão ambiental competente definir os critérios. O projeto tramita em caráter conclusivo e ainda precisa passar pelas comissões de Finanças e Tributação e de Constituição e Justiça ou seja, poderá ser aprovado sem votação em plenário, seguindo depois para o Senado. Para Evair, a lógica é de mercado: No dia em que nós criarmos um ambiente comercial para o pau-brasil, vai acontecer o contrário vão ampliar as áreas plantadas, não reduzir.
Plantar ou não plantar, eis a questão
Caminhando entre cacaueiros espalhados por um morro no sul da Bahia, Edmond Ganem aponta para o alto, acima da copa das árvores. Sobre a cobertura uniforme dos pés de cacau, os troncos de pau-brasil crescem retos e alcançam até 30 metros de altura.
O sistema, conhecido como cabruca, é comum na região cacaueira baiana. Árvores nativas formam uma cobertura que mantém a umidade necessária ao cultivo do cacau e a abertura entre as copas favorece o crescimento reto do pau-brasil, característica essencial para a fabricação de arcos de qualidade.
Ganem começou a plantar no início dos anos 2000, quando o preço do cacau despencava e o governo incentivava o reflorestamento com espécies nativas. Descobri que um único arco de violino podia custar entre cinco e dez mil dólares, conta. Pensei: isso dá dinheiro. Vamos plantar. Ele começou com duas mil mudas e hoje espalha cerca de sete mil árvores em duas fazendas. Ao lado de um galpão de secagem de cacau, ele mostra um tronco de pau-brasil serrado em blocos, mas pede que nenhuma fotografia seja tirada. O receio de não chamar a atenção do órgão é evidente. O problema é a burocracia para obter a autorização de corte. O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Estado da Bahia (Inema) pode levar meses para liberar. Segundo ele, tratava-se de uma amostra de pau-brasil plantada, encaminhada à Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) para avaliar se as árvores apresentavam as características adequadas.
Parte da mesma árvore acabou num laboratório da Universidade Federal do Sul da Bahia, em Ilhéus, onde o professor Daniel Piotto coordena uma das principais pesquisas científicas sobre a espécie. Entre herbários, câmaras refrigeradas e pilhas de amostras provenientes de diferentes regiões do país, a equipe conduz uma espécie de arqueologia da madeira. Cada tronco é cortado, catalogado e submetido a testes que medem resistência, elasticidade e densidade características que determinarão se uma árvore poderá, décadas mais tarde, transformar-se em um arco de violino.
Analisamos mudanças nas características mecânicas, físicas e químicas da madeira ao longo do tronco, explica Piotto. Ao comparar diferentes populações e morfologias, conseguimos desenvolver modelos de crescimento. As pesquisas têm sido financiadas há anos pela International Pernambuco Conservation Initiative (IPCI), uma rede criada por fabricantes europeus e norte-americanos de arcos no início dos anos 2000. Em 2023, a equipe recebeu um aporte de 2,5 milhões de dólares do Bezos Earth Fund, no âmbito de um projeto voltado à viabilidade econômica de plantações de árvores nativas.
Para Piotto, há uma oportunidade real de produção sustentável. Arcos de alta qualidade são produzidos com o cerne avermelhado mais denso da parte inferior do tronco, antes das ramificações. Os veios da madeira precisam ser retos, regulares e compactos, o que faz com que apenas uma pequena fração de cada árvore seja aproveitável. A secagem também é decisiva, explica. Você pode cultivar uma árvore perfeita, mas, se não a secar corretamente, ela rachará. O processo, segundo ele, pode levar muitos anos.
Piotto admite, porém, que plantações podem funcionar como fachada para lavagem de madeira ilegal. Alguém pode cortar legalmente uma árvore plantada, entrar na floresta, derrubar uma nativa do mesmo tamanho e declarar que veio do reflorestamento. Essa possibilidade ajuda a explicar por que o Ibama nunca homologou oficialmente projetos de plantio conduzidos pelos fabricantes e comerciantes investigados. Piotto defende que a saída está em sistemas de rastreabilidade como a espectrometria e a análise por infravermelho , em maior fiscalização e, ao mesmo tempo, na flexibilização das autorizações para o corte de árvores plantadas. Segundo ele, o mercado global de arcos poderia sobreviver por quarenta anos com apenas quatrocentos hectares cultivados.
O tom de Piotto mudou quando perguntado se lembrava de uma visita do analista do Ibama ao seu laboratório. Ele se comportava como um policial. É biólogo, não engenheiro florestal uma crítica dirigida a Guimarães, que avalia que algumas plantações, como as iniciadas por Horst John no Espírito Santo, não produzirão madeira adequada. Essas árvores têm galhos, nós na madeira. E onde há nós, os veios se interrompem. Isso inviabiliza a fabricação de arcos, diz Guimarães. Ainda assim, ele reconhece que, entre os projetos existentes, as árvores cultivadas por Ganem são as que têm mais chances de gerar material aproveitável, mas mantém o alerta: Os fabricantes preferem árvores com mais de cinquenta anos. E o risco de lavagem por meio de plantações é real.
No fundo, os dois concordam num ponto: sem rastreabilidade real, qualquer autorização para corte de árvores plantadas vira porta aberta para a lavagem de madeira ilegal. A diferença é que Piotto acredita que a rastreabilidade é possível e que deve ser construída. Guimarães acredita que, enquanto os mesmos investigados controlam a cadeia produtiva, ela será burlada.
De Guaraná, no Brasil; a Cremona, na Itália
O fabricante de arcos Thomas Gerbeth, que dirige o braço de língua alemã da IPCI (International Pernambuco Conservation Initiative), associação internacional de archetiers, estima que o mercado mundial inteiro poderia se sustentar com trinta a cinquenta árvores adultas por ano. Para ele, já existem evidências suficientes de que árvores plantadas podem ser usadas na fabricação de arcos. Os colegas brasileiros recorreram a meios ilegais, reconhece, em entrevista à Pública. Mas o setor inteiro não pode ser responsabilizado, ressalta.
A IPCI reúne cerca de duzentos fabricantes, sobretudo na Áustria, Alemanha, França e Estados Unidos, e ajudou a plantar aproximadamente 340 mil mudas nos últimos 25 anos em um universo superior a dois milhões de árvores plantadas desde os anos 1970.
A conexão entre o Brasil e a tradição secular da luteria europeia revela-se com clareza em Cremona. Do alto da torre de 112 metros da catedral a mais alta da Europa os telhados avermelhados do centro medieval se espalham até desaparecerem na neblina da Pianura Padana. Por trás das fachadas históricas, funcionam cerca de duzentas oficinas e lojas de luthiers, com vitrines de violinos centenários e turistas que chegam em busca da herança de Antonio Stradivari.
Foi durante a feira anual de música de Cremona que, em 2018, os Carabinieri (polícia italiana) apreenderam quinhentas varetas de pau-brasil que, segundo as autoridades italianas, haviam entrado ilegalmente no país e poderiam alcançar cerca de 500 mil euros no mercado. Marco Raposo estava na feira. A operação permanece como a única grande medida repressiva conhecida adotada na Europa.
É também nos arredores de Cremona que Francesco Marano mantém sua empresa de exportação de madeira. Os registros oficiais disponíveis estão longe de refletir a dimensão real do comércio. Análises de dados da CITES mostram que carregamentos destinados à Itália foram classificados como law enforcement em pelo menos oito ocasiões entre 2017 e 2020 categoria usada para materiais apreendidos e posteriormente autorizados a retornar à origem. As autoridades italianas afirmaram não ter emitido nenhuma licença de importação de pau-brasil entre 2017 e 2024. O escritório da CITES da Comissão Europeia registrou, entre 2015 e 2023, a importação de apenas 1,95 metros cúbicos e 18,4 quilos de madeira provenientes de quatro países europeus. Mesmo considerando que um arco de violino pesa cerca de sessenta gramas, os números estão muito longe de refletir o volume real do que circula.
Para Guimarães, é exatamente aí que a mudança para o Apêndice I da CITES poderia fazer diferença: No momento em que entrar no Apêndice I, todos os Estados vão ser obrigados a fazer um rígido controle, inclusive dos estoques existentes, para saber se foram adquiridos legalmente. E tudo o que foi adquirido depois de setembro de 2007 teria que ter licença CITES. E eles não vão ter”, avalia. Para o analista, o argumento de que regras mais rígidas estimulariam o mercado ilegal não se sustenta: A criminalidade sempre esteve ali. Mais alta do que já foi, não tem como ser. A tendência é que, com um controle rigoroso, haja menos interesse em lidar com essa matéria-prima e uma busca por outras alternativas.
Numa oficina que parece um museu dezenas de arcos em vitrines e paredes, herdados de gerações anteriores ou produzidos por ele e pelo filho , o fabricante Slaviero recebeu a Pública. Aos 70 anos, ele é um dos archetiers mais disputados da Europa. Logo na entrada, um enorme depósito guarda mais de onze mil varetas de pau-brasil. Como cada arco leva cerca de uma semana para ser concluído, o estoque seria suficiente para abastecer gerações inteiras de fabricantes. Ao contrário de seus colegas brasileiros, Slaviero pode utilizá-lo livremente. Seu nome, no entanto, aparece num relatório da Polícia Federal de 2022 como um dos principais clientes de dois fabricantes cujos estoques e atividades haviam sido apreendidos pelo Ibama.
Em Cremona, Marco Raposo continua sendo lembrado pelos comerciantes que frequentam a feira anual de música. No Espírito Santo, fabricantes aguardam decisões judiciais enquanto galpões permanecem cheios de madeira apreendida. No sul da Bahia, árvores plantadas há mais de duas décadas seguem crescendo entre os cacaueiros sem que seus donos saibam se um dia poderão utilizá-las.
Ao longo de cinco séculos, o pau-brasil atravessou diferentes ciclos: foi corante, símbolo nacional, madeira de exportação e matéria-prima de um mercado artesanal que liga pequenas cidades brasileiras a oficinas centenárias da Europa. Agora, tornou-se também objeto de disputas judiciais, científicas e diplomáticas. O desfecho permanece em aberto e com ele, o destino da árvore que deu nome ao país.
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