Não somos uma banda, somos um conjunto musical. A frase de Raphael Conceição dos Santos, 22, baterista e vocalista da Nigéria Futebol Clube, pode confundir quem sai de um show do grupo. A gente é um coletivo artístico”, reforça o jovem, lembrando que o grupo também atua com design e audiovisual e tem uma formação que pode mudar de acordo com a apresentação.
Com músicas contestadoras, enérgicas e cheia de experimentações, o Nigéria Futebol Clube é formado por quatro jovens negros de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, e tem ganhado espaço nas áreas nobres da capital paulista. No entanto, nunca deixou de se apresentar nas periferias, onde os próprios integrantes organizam os shows, realizados em casas independentes e bares.
Eles fazem parte de um movimento que fortalece a cena do rock paulista a partir das quebradas, com um som agressivo e dançante.
Da esquerda para a direita: Rodrigo, Carlos Eduardo e PH, posam antes do show no Sesc Pompéia @José de Holanda/Divulgação
Tanto é que ganharam espaço no Mapa da música autoral de SP, feito pelo jornalista Alexandre Bazzan. O projeto foi publicado em janeiro de 2026, com o intuito de apresentar um panorama sobre as bandas que compõem a nova cena de música autoral em São Paulo. Ao todo, estão reunidas 248 bandas de diversos gêneros, como rock, MPB, punk, hardcore, experimental e emo.
O mapa também aponta os lugares onde os grupos selecionados costumam tocar. A zona oeste de São Paulo concentra a maior quantidade, em especial no bairro de Pinheiros, onde a Nigéria Futebol Clube toca com frequência. Na zona leste, o distrito de Ermelino Matarazzo também aparece como ponto de destaque e é presença constante no circuito do grupo.
Nos eventos de rock, têm uns playboys que não têm ideia de quem nós somos, julgando como se a gente não pertencesse ao lugar. Quando fazemos shows pela zona leste, é mais acolhedor, como se fosse família, diz Rodrigo da Silva Souza, 23, guitarrista do grupo.
Para fugir do comum
A Nigéria Futebol Clube foi fundada em 2022, quando Rodrigo conheceu Rapahel em um show em Pinheiros. Ao perceberem que eram de Itaquaquecetuba, começaram uma amizade e logo compartilharam o desejo de criar um projeto que fugisse do comum. O nome surgiu de uma camisa da seleção da Nigéria usada por Rodrigo durante uma sessão de improviso na casa de Rapahel.
O grupo se identifica com o movimento no wave, nascido a partir de bandas punk de Nova York da década de 1970, que se inspiravam no free jazz, na música disco e no noise rock.
Nigéria Futebol Clube ao lado da flautista Satiê, de Suzano, a rapper Juh Cruz, de Itaquá e o produtor Matheus Rocha, antes do show no Sesc Pompéia @Joojlia wast3lands/Divulgação
Além de Conceição e Rodrigo, a atual escalação da Nigéria Futebol Clube tem Carlos Eduardo da Silva Rocha, 19, no baixo, e Derick Barbosa Gregório da Silva, 23, no trompete.
Em novembro de 2025, após uma temporada de shows entre o centro e as quebradas, a banda lançou o primeiro álbum, Entre Quatro Paredes, gravado no Porão Perus, um estúdio de Perus, na zona noroeste de São Paulo.
As oito faixas misturam sonoridades do punk, do jazz e do funk para traduzir o caos que é o trânsito urbano das periferias ao centro.
‘O hardcore, o punk, o jazz, e o hip-hop são muito sobre observar as violências [sofridas pelos moradores das periferias] e traduzi-las em formato de som’
Raphael Conceição, baterista da Nigéria Futebol Clube
Os shows, porém, são o principal chamariz da banda, sempre carregados de improviso. Antes de começarem a tocar, Eduardo e Rodrigo passam minutos ajustando os pedais de efeito da guitarra e do baixo, criando ruídos e distorções que integram a sonoridade.
Enquanto Conceição conduz a bateria, um dos dois músicos volta a se agachar diante dos pedais para modificar os efeitos e transformar as faixas em tempo real. Entre versos cantados e gritados, o trompete de Derick rasga a atmosfera.
A gente quer ser diferente, conta Rodrigo. A gente se incomoda se a música está muito pop, se não está tão doida.
Periferia alternativa
Conceição e Derick também fazem parte da banda D’Artagnan Não Mora Mais Aqui, de Itaquaquecetuba, também citada no Mapa da Música Autoral de SP. O grupo foi formado antes da Nigéria, em 2021.
Derick assume a guitarra e Rapahel continua na bateria. Para completar, o casal Daniele Neri, 22, e Renan Dimas, 24, ficam no baixo e na guitarra, respectivamente. Os dois começaram a tocar no bar The Gunds, muito popular em Itaquaquecetuba. Foi lá também onde fizeram o primeiro show da banda, em 20 de agosto de 2022.
Apesar de estarem conquistando cada vez mais espaço e reconhecimento, os integrantes da banda afirmam que ainda enfrentam preconceitos. A gente não tá fazendo o que esperam que a periferia faça, rebate a baixista, citando que as quebradas, em geral, não são vistas como locais de produção de rock’n roll.
PH, Daniele Neri e Renan Dimas formam a DArtagnan Não Mora Mais Aqui @Brenda Gajus/Divulgação
Mas a D’Artagnan Não Mora Mais Aqui prova o contrário. Tanto que, em 2023, lançaram seu primeiro EP, Comes e Bebes. Dois anos depois, foi a vez de gravar seu primeiro álbum, Ta’kwara. A obra é um híbrido entre sessões de improviso e ensaios, com temáticas sobre o cangaço, interesses por filmes, a vida na periferia, poemas abstratos, memórias e reflexões pessoais.
O título é inspirado na faixa Taquaras que Cortam como Faca, da extinta banda instrumental Projeto Porto, que faz referência à origem tupi do nome Itaquaquecetuba lugar abundante em taquaras-faca. O grupo foi fundamental na formação de novas bandas na região, chegando a ceder equipamentos e espaços para ensaios.
Como sempre, estávamos muito quebrados financeiramente. Não teríamos como pagar estúdio nem comprar equipamentos, conta Rapahel. Tanto o EP como o álbum foram gravados em espaços da zona leste, no Itaim Paulista e em Guaianases.
O EP (Extended Play) é um formato curto, com três a sete faixas e menos de 30 minutos de som. O álbum é um projeto completo, com mais de sete faixas (geralmente 10 a 14) e duração superior a 30 minutos.
De improviso
A improvisação também é uma marca registrada dos shows da DArtagnan Não Mora Mais Aqui. A platéia é envolvida pelos acordes e vozes e é comum ver os integrantes trocarem breves palavras durante a performance, como se estivessem compondo naquele exato momento.
É algo que sempre propus para a banda, essa ideia de compor junto, no improviso, que dá a possibilidade de criações infinitas, comenta Renan, que também é estudante de história na USP (Universidade de São Paulo).
Enxergo como se fossem várias camadas que a gente vai acrescentando junto. No final, a gente sempre procura respeitar bastante quem trouxe a ideia inicial, para não perder o sentido do que motivou a composição, completa Daniele, estudante de Letras na mesma universidade.
DArtagnan Não Mora Mais Aqui toca na Casa Rockambole em Pinheiros @Paula Jenssen/Divulgação
A Nigéria e a DArtagnan circularam por diversas casas de show de São Paulo reconhecidas no cenário alternativo, como Casa Rockambole, A Porta Maldita, Porta, todas em Pinheiros.
Conceição é o responsável por articular as apresentações. O jovem acredita que o deslocamento constante entre a periferia e o centro para ver shows na adolescência o ajudaram a conhecer casas de show para as apresentações.
Os convites para apresentações aumentaram depois de 2022, quando a DArtagnan tocou em uma Batalha das Bandas, na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. A partir daí chamaram a gente para outros shows. Começaram a surgir vários contatos, lembra Derick.
Porém, foi em Itaquaquecetuba que realizaram um marco na trajetória da banda: a Mosquito Fest, evento criado por Conceição, Rodrigo e Matias Zec, produtor artístico de Itaquaquecetuba. A proposta era reunir bandas autorais da região em um festival, que aconteceu em três edições, realizadas anualmente em 2022, 2023 e 2024.
Passos no caminho
Em fevereiro de 2026, a banda Nigéria Futebol Clube tocou no Chama Festival, realizado na Casa Rockambole, em Pinheiros, e conhecido por reunir os principais nomes da cena independente de música.
Em abril, Nigéria, DArtagnan e mais de 10 coletivos, artistas e grupos de skatistas da Grande São Paulo, realizaram o Festival das Artes, na pista de skate de Poá, com o intuito de ocupar o espaço com arte e cultura.
De lá para cá, a Nigéria tem se preparado para lançar um novo álbum, Ambiente Jazz. Em setembro, dividirão o palco da Casa Natura Musical, em Pinheiros, com o trio carioca de música eletrônica Vera Fischer Era Clubber.
Já a DArtagnan Não Mora Mais Aqui segue fazendo shows do álbum Ta’kwara e se preparam para realizar apresentações com apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura de Itaquaquecetuba, enquanto planejam um segundo álbum.
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