Até um mês racionando água por falta de abastecimento. Além de torneiras secas, a queda do volume das nascentes torna mais difícil a vida das famílias que vivem na Aldeia Indígena do Jaraguá, na zona oeste de São Paulo. Desde 2014, não foram raras as vezes em que eles ficaram dependentes de carros pipa, que às vezes são fornecidos pela Sabesp, em outras custeados por vaquinhas feitas pelos moradores.

As queimadas, potencializadas por ondas de calor, também tornam-se cada vez mais frequentes nas proximidades da Terra Índigina, que é a menor do Brasil. Os problemas são relatados pelo ativista Karaí Djekupé, 32, de nome não indígena Thiago Henrique Vilar Martins.

Mas agora ele tem uma nova preocupação: o Super El Niño, uma versão intensa do fenômeno El Niño, que na região Sudeste do Brasil deve intensificar as ondas de calor. A previsão é que seus efeitos sejam sentidos de forma mais aguda na primavera e no início do verão, entre setembro e dezembro de 2026, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia.

Na última vez que o fenômeno climático foi registrado no Brasil, entre 2023 e 2024, ele contribuiu para as enchentes históricas no Rio Grande do Sul e para uma série de queimadas na Região Metropolitana de São Paulo.

Estamos em alerta por conta desse fenômeno, que acaba nos atingindo, diz Karaí, estudante de arquitetura.

As mesmas questões preocupam o urbanista social Gariba Lima, 35, que é líder comunitário de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Em dias de ondas de calor de 2025, a favela – a maior de São Paulo – chegou a registrar até 15ºC a mais do que áreas nobres vizinhas, como o Morumbi, segundo CEFAVELA.

A diferença deve-se, sobretudo, à falta de cobertura vegetal na favela e à estrutura das casas, com poucos corredores de ar e telhados que absorvem a temperatura e demoram a esfriar.

Se já enfrentamos dificuldades em períodos considerados normais, eventos climáticos mais intensos, como o Super El Niño, tendem a agravar esse cenário”, diz Gariba. Viver constantemente em ambientes muito quentes aumenta o desgaste físico e emocional, especialmente para quem trabalha o dia inteiro e retorna para casa, que continua extremamente quente mesmo à noite.

Paraisópolis teve registro de 15° a mais que áreas nobres em dias de onda de calor @Glória Maria/ Agência Mural

As comunidades onde Thiago e Gariba vivem evidenciam a desigualdade climática enfrentada pela população periférica. Os efeitos do Super El Niño chegarão para todos, mas devem atingir com maior intensidade quem vive em locais mais vulneráveis e com menos possibilidades de adaptação, como pontua o coordenador do Cemaden (Centro de Monitoramento de Alertas e Desastres Naturais), Marcelo Enrique Seluchi.

Certamente essa população vai sofrer mais. Isso porque as moradias estão menos preparadas, as áreas [onde vivem] têm pouca vegetação, falta acesso à potável encanada e há déficits em saneamento. Normalmente, eles são os primeiros a ficar sem os serviços básicos, completa.

Por quê super El Niño?

O El Ninõ não é um vilão. É um fenômeno natural, registrado pela primeira vez em 1890, responsável pelo aquecimento anormal, acima de 0,5º, do Oceano Pacífico. Isso afeta a pressão atmosférica e a circulação dos ventos, que impactam diretamente sobre o clima e a intensidade das chuvas e do calor. O fenômeno acontece em intervalos de dois a sete anos, com duração de nove a 12 meses.

Por não ser um evento climático novo, existem modelos matemáticos gerados à partir de dados do passado que ajudam a prever o que esperar. Nas periferias da Grande São Paulo, por exemplo, o El Niño contribui com mudanças no clima, como o aumento na intensidade e na duração das ondas de calor.

Porém, as projeções para 2026 indicam que há 90% de chance de haver um El Niño mais forte, ou um Super El Niño, como tem sido popularmente chamado. Esse seria o mais intenso já registrado desde 1950, segundo o NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, na sigla em inglês) e o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Para ser considerado de maior intensidade, é preciso que as águas do Oceano Pacífico aumentem mais de 2ºC. A previsão dos órgãos é que o Super El Niño atinja picos de até 2,5ºC, em especial entre novembro e dezembro de 2026, que coincide com a chegada do verão na região sudeste.

<>

O El Niño também tem impactos sobre os alimentos e o valor da cesta básica. Isso porque a agricultura depende dos ciclos de chuva e calor. As secas em algumas regiões do país, como a Nordeste, e as chuvas torrenciais em outras, como a Sul, podem alterar a produção agrícola, aumentando o preço dos alimentos em todo o país.

É o que lembra a pesquisadora Thaís Brianezi, do grupo Compartilhantes Pesquisa e Ação em Educomunicação, Meio Ambiente e Políticas Públicas da USP (Universidade de São Paulo)

Quem mais sente esse impacto são as famílias de baixa renda. O aumento no custo da cesta básica amplia a insegurança alimentar – que não significa apenas passar fome, mas também não conseguir acessar alimentos de qualidade e com os nutrientes necessários para uma alimentação saudável, pontua.

É preciso se antecipar, pedem jovens periféricos 

Mas se o fenômeno do El Ninõ não é novo – tampouco as alterações que ele causa – a pergunta que fica é: por que, mesmo havendo modelos de previsão, moradores das periferias continuam vivendo em risco?

Porque ainda prevalece um modelo de desenvolvimento que prioriza o crescimento econômico em detrimento da qualidade de vida e da redução das desigualdades, responde Thais.

Para ela, enfrentar a emergência climática exige rever prioridades, para que ao invés de apenas reagir às tragédias, as cidades estejam preparadas para para evitá-las.

Além de políticas públicas que foquem no combate às desigualdades, é preciso que o poder público implante ações para reconhecer e fortalecer o protagonismo das comunidades locais na prevenção dos riscos.

Diversas favelas e comunidades periféricas da Grande São Paulo já têm construído estratégias próprias para lidar com as questões climáticas. Porém, faltam recursos e apoio para que os projetos sejam aplicados integralmente.

‘O futuro das favelas não pode depender apenas da capacidade de resistência de seus moradores. Ele depende de planejamento, investimento público e da construção coletiva de cidades mais justas e preparadas para as mudanças climáticas’

Gariba Lima, ativista ambietal de Paraisópolis. 

Tanto ele como Karaí decidiram estudar arquitetura e urbanismo para contribuir com soluções para os seus territórios.

O jovem de Paraisópolis participa de um coletivo formado por profissionais da área e por lideranças comunitárias, o Arqcoop, que levanta propostas para adaptar a área para as mudanças climáticas.

Gariba reforça a importância do esforço coletivo: governos, iniciativa privada e associações comunitárias devem pensar em ações de adaptação e mitigação climática que incluam políticas de saúde, educação, assistência social e habitação. Ele defende também as chamadas soluções baseadas na natureza, incluindo arborização, jardins de chuva, corredores verdes e pisos drenantes.

Janaína Oliveira/ Agência Mural

Mais do que obras, é fundamental que o poder público dialogue com moradores, universidades, coletivos e profissionais que atuam no território. As soluções precisam nascer junto com quem vive a realidade da comunidade.

Na Aldeia do Jaraguá, Karaí enfrenta desafios para preservar a Mata Atlântica do local e contribuir para reduzir as ondas de calor. Uma das principais lutas é impedir a instalação de um incinerador de lixo na região, que coloca em risco a criação de abelhas pela comunidade. O inseto é importante por polinizar diversas espécies vegetais.

Mas sua principal reivindicação é a homologação da Terra Indígens do Jaraguá pelo governo federal, prometida pela na atual gestão de Lula (PT) e ainda não cumprida. Seria a etapa final do processo, já que a demarcação já foi efetuada. Karaí lembra que o reconhecimento da área impediria o desmatamento e contribuiria para a preservação.

‘A gestão está acabando e não sabemos como vai ser o ano que vem. A cada dia que o presidente demora para homologar o nosso território, ele agrava nossa situação. Não é um favor, é um direito constitucional, conquistado através de muita luta do nossos do nosso avós, daqueles que nos antecederam’

Karaí Djekupé, ativista ambietal da Terra Indígena do Jaraguá.

Agência Mural

O post Periferias de São Paulo temem ondas de calor e crise hídrica com Super El Niño  apareceu primeiro em Agência Mural.

Tags:
aquecimento global | justiça climatica | Sobre-Viver

Agência Mural - Periferias de São Paulo temem ondas de calor e crise hídrica com Super El Niño