Eu fiquei com mais medo do odor de quando eu cheguei do que com as falas que estavam sendo proferidas ali. A frase é do vereador de extrema direita do Recife Thiago Medina (PL), candidato a deputado federal, durante sessão plenária desta terça-feira, 1º de setembro. Ele se refere ao protesto que aconteceu, pela manhã, na entrada da Câmara do Recife, em defesa da vereadora Jô Cavalcanti (PSOL).
Um grupo de aproximadamente 30 pessoas, com presença majoritária de organizações sociais e coletivos de mulheres negras, esteve em ato para denunciar episódios de racismo e misoginia contra Jô. Única parlamentar negra da atual legislatura, ela, que também é candidata a deputada estadual, vem, há meses, acusando Medina de perseguição.
Thiago Medina subiu à tribuna para dizer que mulheres negras fedem. Essas mulheres estavam aqui em ato de solidariedade ao nosso mandato, que está sofrendo perseguição política na Casa, disse a vereadora, em pronunciamento, nas redes sociais, logo após o ocorrido.
Isso vem sendo uma ação coordenada da extrema-direita para perseguir as populações mais vulneráveis, LGBTQIAPN+ e de religiosidades. Eles estão tentando legitimar cada vez mais esse discurso para se tornar comum, afirmou ela, à tarde.
Interrupções, gritos, zombarias, dedo em riste, intimidação e constrangimento público passaram a integrar a rotina da atual legislatura da Câmara Municipal. Vereadoras relatam um ambiente sistemático de violência política de gênero e apontam parlamentares da extrema-direita, com destaque para Medina, como responsáveis pelos ataques.
O plenário virou um espaço de tensão permanente, como mostrou a Marco Zero em reportagem publicada em junho. As denúncias de Jô agora vão além. Além de misoginia, ela acusa Medina de racismo.
A escalada
A situação escalou, há pouco menos de 15 dias, após o parlamentar classificar o Projeto de Lei nº 147/2026, de autoria da vereadora, que propunha instituir o Dia Municipal da Mestra Ritinha, como uma porcaria e chamar a entidade espiritual da Jurema Sagrada de mestra dos cabarés. O projeto acabou sendo rejeitado em plenário por 12 votos a sete.
Após o acúmulo de episódios de violência e meses de denúncias sem que Medina tenha levado, até o momento, nenhuma advertência da Câmara do Recife presidida pelo PSB, assim como a Comissão de Ética da Casa , Jô terminou chamando-o de racistinha de merda e de fascistinha durante a sessão, em 17 de agosto.O episódio levou o vereador a entrar com uma representação, na Comissão de Ética, contra ela.
Alguns dias depois, em 20 de agosto, a subcomissão de Ética da Câmara aplicou uma medida de censura verbal contra a vereadora por palavras proferidas na tribuna em 3 de novembro de 2025, durante um debate sobre letalidade policial e direitos humanos após uma operação de grande repercussão no Rio de Janeiro.
Durante a reunião da subcomissão, a defesa da parlamentar demonstrou que a denúncia se baseou em uma leitura recortada e descontextualizada do episódio, ignorando o vídeo completo, as sucessivas interrupções sofridas por ela e a celebração que ocorria, por parte da bancada bolsonarista, das execuções da tragédia.
Única parlamentar negra da legislatura, Jô acusa Medina de racismo e misoginia
Crédito: Arnaldo Sete/Marco ZeroDias depois da notícia da censura verbal, nesta terça (1º), ao comentar o ato organizado em defesa da parlamentar, o vereador zombou da situação: Desde a semana retrasada, quando a vereadora perdeu (a votação do Dia Municipal da Mestra Ritinha), ela se coloca como vítima. Eu sou alvo de intolerância, eu sou alvo de racismo, ai eu perdi o Projeto de Lei, quem votou contra é racista, discursou em tom de deboche, com a voz em falsete.
Ontem [segunda, 31] eu fiquei sabendo que hoje haveria uma manifestação contra a minha pessoa, contra o vereador Thiago Medina, por racismo religioso, intolerância religiosa, misoginia e todos os mimimi da esquerda, falou também ao microfone. Se eu gostasse de mimimi, eu comprava um gato gago, mas, como não gosto, estou aqui discursando, debochou.
Em resposta aos ataques que vem denunciando, o mandato de Jô, além de protocolar projetos contra a violência de gênero e de raça na Câmara do Recife, entrou com uma representação contra Medina na Comissão de Ética da Casa e também no Ministério Público de Pernambuco por racismo e LGBTfobia.
E nós representaremos novamente hoje contra esse parlamentar nas duas instâncias por reiteração da prática delitiva, anunciou a vereadora.
A Casa José Mariano é uma casa abolicionista, onde não pode acontecer o que vem acontecendo da última semana para cá. O Legislativo não pode tolerar, de forma alguma, esse tipo de postura de violência aos direitos fundamentais das pessoas. Por entender que nenhum vereador está acima de qualquer lei e sabendo que racismo é crime, estamos esperando que o Ministério Público tome as medidas cabíveis, disse Jô ao falar com a MZ.
A reportagem procurou a assessoria de imprensa do vereador Medina, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.
Também questionou a Câmara do Recife se alguma medida será tomada após o ocorrido desta terça (1º). Segue resposta na íntegra, assinada pelo presidente Romerinho Jatobá (PSB):
“A Câmara Municipal do Recife vem a público reafirmar o seu compromisso com a garantia de direitos para todas as pessoas, conforme pressupõe a democracia que defendemos. Ao longo da sua história, a Casa de José Mariano sempre foi um espaço para as mais diversas manifestações populares que refletem a diversidade do povo recifense e de seus representantes. Por tudo isso, o respeito às diferenças deve nortear todos os pronunciamentos das vereadoras e dos vereadores”.
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