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Era uma presença discreta no palco montado na Avenida Paulista, em São Paulo, no feriado de 7 de Setembro. Posou para fotos com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Abraçou os candidatos ao Congresso Lucas Pavanato (PL-SP) e Guilherme Derrite (PP-SP), gravou vídeos para suas redes com o aspirante a vice-presidente Alfredo Gaspar (PL-AL) e estava sempre perto da vedete mais disputada da tarde, o senador, presidenciável e seu amigo-irmão, Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Para as 28 mil pessoas presentes no ato da direita, era um completo desconhecido.
Renato Araújo, empresário de 40 anos nascido em Angra dos Reis, tem provocado ciúmes no entorno de Flávio pela proximidade entre eles. Agora ele só quer saber desse Renato. Com os amigos das antigas, ele nem responde mensagem, deve achar que já está eleito e não precisa mais da gente, disse à Agência Pública um amigo da família. Nesta eleição, aproximaram-se ainda mais. Tanto que, há pouco mais de uma semana, no dia 29 de agosto, Araújo organizou em Angra uma motociata e uma carreata de barcos em apoio a campanha de Flávio e para alavancar sua própria candidatura a deputado federal, embora a bênção dos Bolsonaro tenha sido em vão há dois anos, quando foi derrotado ao tentar ser prefeito de sua terra natal.
Coordenador regional do Partido Liberal na região da Costa Verde desde maio de 2025, escolhido por Jair Bolsonaro e pelo presidente da sigla, Valdemar da Costa Neto, Renato Araújo passou a figurar nas páginas policiais do noticiário fluminense nas últimas semanas. Em agosto, a Operação Sarasvati, da Polícia Civil, cumpriu 20 mandados de busca e apreensão em sete cidades do estado do Rio, entre elas Angra dos Reis. Os agentes da Delegacia Fazendária bateram na porta da Bravo Construções, empreiteira fundada por Araújo em 2011 e atualmente no nome de sua esposa, Tainá Nóbrega de Souza. Até o ano passado, ele seguia assinando como diretor-geral da construtora.
A investigação revelou um esquema de fraudes na execução de obras em escolas públicas montado na Secretaria Estadual de Educação, que direcionava reformas milionárias na rede de ensino para um grupo de empresas selecionadas a maioria com pouco tempo de experiência, donos em comum e 13 delas com a mesma contadora. Depoimentos de diretores das unidades escolares indicam que a secretaria os obrigava a contratar essas empreiteiras sob pena de não realização das obras caso houvesse questionamento. Além disso, as intervenções aprovadas não costumavam ter nenhuma relação com o que era solicitado.
Um escândalo de R$ 16 milhões em telhados de escolas
Segundo o deputado estadual Flávio Serafini (PSOL-RJ), presidente da comissão de servidores da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e responsável pela denúncia que embasou as duas investigações ainda em andamento da Polícia Civil e uma outra da Polícia Federal , há fortes indícios de que a finalidade das obras era lavagem de dinheiro, disse o deputado à Agência Pública.
A Bravo Construções recebeu R$16 milhões do erário estadual para realizar reparos em quinze escolas. O gabinete de Serafini visitou três delas entre outubro de 2025 e janeiro de 2026. Em um relatório produzido pelo gabinete e entregue em janeiro de 2026 às autoridades, entre elas o Tribunal de Contas do Estado, constam todas irregularidades encontradas.
A Pública teve acesso ao documento e conversou com o assessor parlamentar que fez as visitas. No Colégio Estadual Antonio da Silva, em Nova Iguaçu, havia necessidade de reforma hidráulica estrutural para evitar os alagamentos constantes decorrentes da proximidade com o Rio Botas, que fica ao lado da unidade e costuma encher em dias de chuva. No início de 2024, a instituição precisou adiar o início do ano letivo por causa desse problema. Apesar disso, a vistoria promovida pela secretaria desviou-se da demanda apontada pela direção e determinou como prioridade a substituição de telhas e madeiramento do telhado.
As telhas foram retiradas, lavadas e devolvidas, sem sequer serem trocadas, ao custo de R$ 800 mil. O valor causa ainda mais estranheza por se tratar de uma construção pequena, com apenas 12 salas de aula. Outras intervenções na unidade que não resolveram o problema inicial apresentado pela direção elevaram o custo para R$ 2,2 milhões. De acordo com o assessor parlamentar que realizou a visita, não precisava nem ser engenheiro para ver que fizeram uma maquiagem. O negócio foi tão mal feito que a comunidade ficou indignada.
O segundo colégio visitado entre os 15 reformados pela Bravo foi o Embaixador Raul Fernandes, em Niterói. A diretora havia pedido o conserto de uma parede no banheiro, uma solicitação que já havia sido feita anteriormente. O então diretor da regional Baixadas Litorâneas, da Secretaria Estadual de Educação, chamado Jorge Paes, mandou para a diretora a cotação da Bravo por WhatsApp. Contratada pela escola, a Bravo terceirizou a reforma, o que não é permitido pela legislação estadual nos casos em que não há edital de licitação. Mas a vistoria feita pela própria secretaria apontou que a obra a ser feita deveria ser a mesma da unidade de Nova Iguaçu: reforma do telhado, com substituição de telhas, limpeza das calhas e substituição dos rufos. O custo total foi de R$ 1,6 milhão, sendo que esta unidade é ainda menor do que a primeira, com nove salas de aula e 155 alunos.
A terceira unidade visitada pelo assessor legislativo foi um dos maiores colégios do estado, o Albert Sabin, no bairro de Campo Grande, Rio de Janeiro, onde estudam dois mil alunos. Havia uma determinação do Ministério Público Estadual para que o governo ampliasse o refeitório. Apesar disso, a obra indicada, novamente após vistoria da secretaria, foi a reforma da cozinha e dos banheiros trocaram quatro portas e pintaram duas paredes, segundo o assessor que esteve duas vezes na unidade. O valor da intervenção, feita em apenas um mês entre setembro e outubro de 2025 , foi fixado pela secretaria em R$ 377,8 mil.
O esquema se aproveitava da descentralização de recursos da secretaria via Associações de Apoio à Escola (AAEs), um mecanismo criado para permitir que pequenos reparos emergenciais e de manutenção predial sejam resolvidos com menos burocracia, sem licitação. Entre 2018 e 2020, os valores anuais ficaram entre R$ 58,6 milhões e R$ 102,8 milhões, segundo informações do Sistema Integrado de Gestão Orçamentária, Financeira e Contábil (SiafeRio) levantadas pelo gabinete de Serafini. Nos últimos dois anos contabilizados, 2024 e 2025, já no governo do bolsonarista Cláudio Castro (PL-RJ), os valores subiram para R$ 630,2 milhões e R$ 513,3 milhões, respectivamente.
O que encontramos foi muito grave: havia indícios de burla à legislação de licitações, com empresas previamente escolhidas e colégios coagidos a contratá-las. As obras tinham valores superdimensionados e os serviços sequer correspondiam ao que estava previsto nos contratos. Uma obra que poderia custar R$ 80 mil era contratada por quase dez vezes mais. Essa diferença, segundo as apurações que motivaram as denúncias, alimentava um esquema criminoso articulado por interesses políticos e empresariais ligados à direita do Rio de Janeiro, afirma Serafini.
As denúncias que fizemos sobre a máfia das obras permitiram estancar um esquema que movimentou mais de R$ 1 bilhão nos últimos dois anos. Em um estado que paga um dos piores salários do país aos seus educadores e que ocupa posições preocupantes no Ideb, é um verdadeiro descalabro imaginar que recursos públicos destinados às escolas tenham sido drenados dessa maneira.
Serafini cita Renato Araújo ao lembrar que ele chegou a contratar influenciadores para debochar das acusações nas redes sociais e dizer que se tratavam de fake news. Hoje esse mesmo empresário é apresentado pela família Bolsonaro como aposta do PL para a Câmara dos Deputados. Isso mostra a dimensão política do problema e um saldo estarrecedor desse modelo de gestão bolsonarista no Rio.
Uma indicação a dedo por Cláudio Castro
O valor dos repasses via AAEs explodiu quando a secretária estadual de educação era Roberta Barreto. Segundo as investigações, ela foi indicada ao cargo pelo então presidente da Alerj, o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar, do União Brasil-RJ, aliado de Cláudio Castro. Bacellar está preso desde março de 2026, acusado de vazar informações de operações para o Comando Vermelho, mas já havia sido preso em dezembro do ano anterior pelo vazamento de informações sigilosas de operação da Polícia Federal para o então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva (MDB-RJ), o TH Joias, ourives de facções criminosas no Rio e que também está preso sob suspeita de negociar armas para o Comando Vermelho.
É um caso paralelo, mas dentro do guarda-chuva da operação Unha e Carne, da Polícia Federal, que prendeu este ano mais um deputado estadual: Thiago Rangel (Avante-RJ), envolvido diretamente no esquema das escolas públicas. Nessa mesma fase da operação da PF, foi expedido novo mandado de prisão contra Rodrigo Bacellar (que já estava no cárcere) e também contra Rui Bulhões, seu ex-chefe de gabinete. As duas prisões, de Bacellar e Rangel, foram expedidas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
As irregularidades na Secretaria Estadual de Educação levaram o Tribunal de Contas do Estado a determinar em abril o fim dos pagamentos às empresas envolvidas. A secretaria prometeu à época uma revisão administrativa dos procedimentos relacionados às obras e citou a Lei de Licitações 14.133 como novo parâmetro, transferindo intervenções mais vultosas para a Empresa de Obras Públicas do Estado (EMOP). À Pública, o governo estadual disse que o contrato referente à execução de obras em colégios já foi encerrado. A pasta esclarece ainda que, ao longo de 2026, não realizou qualquer repasse de recursos para obras escolares às empreiteiras investigadas. Existe um processo em curso no Ministério Público Estadual, também motivado pelas denúncias do gabinete do deputado estadual Flávio Serafini, e a Operação Sarasvati foi consequência dele. As investigações da Polícia Civil e da Polícia Federal continuam.
O candidato da família Bolsonaro
Não tivesse sido preso, Bacellar seria o candidato apoiado pela família Bolsonaro ao governo do Rio de Janeiro. Ele foi levado à casa de Bolsonaro em Angra dos Reis pelo próprio Renato Araújo, que passava muito tempo com o ex-presidente Bolsonaro chegou a ir ao aniversário de seis anos do filho caçula de Araújo, e também passaram juntos uma véspera de Natal, além dos passeios de lancha ou jet ski no mar esmeralda da Costa Verde. Só após a prisão de Bacellar foi lançado o nome de Douglas Ruas, do PL-RJ, que também estava no ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista. O amigo da família Bolsonaro ouvido pela Pública confirmou o que já é sabido por muitas pessoas no Rio: já estava definido pelo ex-presidente que Renato Araújo seria candidato a vice-governador na chapa de Bacellar.
Em pouco tempo ele virou amigo do Bolsonaro, mas eles só se aproximaram depois da reforma na casa de Angra, que ele fez questão de fazer, diz essa pessoa próxima da família, informação que foi confirmada pela Pública com outras fontes. A casa em questão fica à beira-mar na Vila Histórica de Mambucaba e foi construída por Bolsonaro nos anos 1990. Nas eleições de 2024, antes de endossar Araújo na corrida para a prefeitura de Angra, o ex-presidente prometeu apoio ao ex-vice-prefeito da cidade, Christiano Alvernaz (PP), mas algo o fez mudar de posição e ele decidiu lançar Araújo nas urnas pela primeira vez.
O próprio Renato Araújo admitiu, em entrevista ao Metrópoles, que emprestou funcionários da Bravo para a obra, embora tenha afirmado que apenas supervisionou o trabalho e atuou como amigo.. Não se sabe exatamente quanto a obra custou, mas a PF encontrou na sede do PL um contrato não assinado da reforma, no valor de R$ 900 mil, que mencionava trocas de piso e esquadrias, abertura de paredes, reconstrução de um muro, pintura do imóvel por dentro e por fora e conserto do telhado. Em suas redes, o ex-presidente garantiu ter pago tudo no Pix com seu dinheiro.
Renato Araújo também é sócio-administrador da Bellavista Portogalo Empreendimentos, projeto de condomínio de luxo com 31 mansões planejado para Angra dos Reis em um terreno de 320 mil metros quadrados, o equivalente a 20% do tamanho do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Dessa área total, 8 mil metros quadrados ficam em terreno de marinha, a menos de 33 metros do mar medidos em linha horizontal exatamente a categoria de imóvel que a PEC das Praias, sob relatoria de Flávio Bolsonaro no Senado Federal, propõe transferir a estados, municípios e particulares, eliminando cobrança de foro, taxa de ocupação e laudêmio (tributo pago à União quando o imóvel é vendido).
Em agosto de 2024, a revista piauí revelou que o empreendimento acumula problemas como denúncias de degradação ambiental, embargo da prefeitura, laudo da Defesa Civil que aponta risco de deslizamento e uma mudança não autorizada no regime de ocupação de parte do terreno, sem comunicação à Secretaria de Patrimônio da União. Um inquérito criminal sobre o caso foi arquivado em 2023 sem indício de crime; outro, cível e ambiental, seguia em aberto no Ministério Público. Questionado pela revista, Araújo negou qualquer ligação de Flávio um dos principais defensores da Proposta de Emenda à Constituição em questão com o empreendimento. Aprovada na Câmara em 2022, a PEC das Praias segue parada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado desde dezembro de 2024, quando um pedido de vista suspendeu a votação.
Renato Araújo: da infância pobre aos jet-skis em Angra
Mergulhador experiente, Araújo costuma dizer que teve uma infância pobre e que sua família passava necessidade. Hoje o cenário é bem diferente. Ele declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) possuir R$ 3,5 milhões em bens, entre eles dois apartamentos de R$ 400 mil cada, dois automóveis no valor de R$ 250 mil e R$ 330 mil, e dois jet-skis de R$ 40 mil e R$ 100 mil um deles ele costumava emprestar para Bolsonaro, que lhe deu uma medalha em janeiro de 2024 com os dizeres imorrível, imbrochável e incomível. Araújo costuma se locomover de helicóptero em pequenas viagens, como quando participou de um pequeno trecho da Caminhada pela Liberdade, em janeiro deste ano, liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira. No seu instagram, há inúmeras fotos com a família Bolsonaro. No último aniversário de Flávio, no dia 30 de abril, ele postou um vídeo em seu Instagram com inúmeras imagens dos dois juntos e um agradecimento: Aqui você tem um amigo querido, um irmão. Obrigado pela oportunidade que você me deu de entrar na sua vida. É uma relação tão próxima que, em uma de suas lives, Jair Bolsonaro chegou a dizer que adotaria Araújo.
Na véspera das carreatas de moto e de barco em Angra dos Reis, que se tornaram um grande evento do PL na cidade, Renato Araújo divulgou uma mensagem na qual disse aos seus seguidores: Não se surpreendam se, na véspera de recebermos nosso próximo presidente, apareça (sic) novamente a covardia dessa política que acha que vai calar aqueles que escolheram o lado do bem. Ele temia uma nova operação da Polícia Civil, que acabou não acontecendo. Procurado pela Pública, Araújo não respondeu ao pedido de entrevista, assim como Flávio Bolsonaro o espaço segue aberto para manifestações. Embora não tenha discursado no Dia da Independência para os presentes na Avenida Paulista, Araújo gravou um vídeo em cima do palco para suas redes. Disse que vivemos um momento de guerra no país, que está muito fácil escolher um lado e que seu lado é o lado do bem, que defende a família, a liberdade e quem é a favor do crescimento do Brasil.
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