O ano era 2008 e a comunidade pesqueira de Ilha de Deus vivia a efervescência de um processo de urbanização verdadeiramente participativo. A luta e a união da comunidade geraram uma promessa de campanha em 2006 do então candidato Eduardo Campos: transformar as precárias palafitas daquela área de estuário em uma vila com saneamento básico, serviços públicos e moradias dignas. Entre as muitas reuniões e encontros que aconteciam naquela época, uma atraiu as então pescadoras e donas de casa Elivânia Rocha e Maria de Fátima da Silva. Seria uma reunião fechada para organizações e coletivos que atuavam na comunidade, mas elas foram mesmo assim.

Lá, foi apresentado um projeto de empoderamento feminino e de gestão financeira que não interessou a nenhuma das organizações presentes naquela reunião. Mas fez os olhos das duas mulheres brilharem. Na reunião tinha um rapaz de São Paulo que participava de uma poupança comunitária, então quando ele falou sobre como a comunidade se organizava para poupar, eu pensei: ‘e por que a gente não traz para a nossa comunidade?'”, lembra Elivânia.

Surgia assim a Poupança Comunitária da Ilha de Deus, a primeira experiência do tipo em Pernambuco. As atividades não começaram envolvendo diretamente dinheiro. Primeiro, as mulheres fizeram um censo na comunidade.

Cercada pela água dos manguezais, de três rios e do mar da Bacia do Pina, a Ilha de Deus tem apenas um acesso por via terrestre a ponte Vitória das Mulheres, inaugurada em 2009. Mesmo sendo uma área pequena, de cerca de 10 hectares na parte urbana, as futuras tesoureiras encontraram muitos moradores que haviam ficado de fora do cadastro da prefeitura do Recife. A gente achava que conhecia o vizinho do lado. Mas a partir desse censo, a gente pôde se conhecer melhor, conhecer o nosso território, as nossas reais necessidades. Muitas famílias não iam receber casas, mas acabaram ganhando lugar onde morar graças ao nosso censo, relembra Maria de Fátima.

A poupança comunitária ajudou a mudar a ilha desde que foi criada

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Com esse mapeamento da população, chegou a hora de entrar em campo para fazer com que as pessoas poupassem. Com cerca de 1,1 mil moradores em dados oficiais, as lideranças do projeto calculam que pelo menos 300 pessoas já foram poupadoras em algum momento. Qualquer pessoa da comunidade pode abrir uma caderneta, depositando o valor que quiser. O depósito é feito diretamente com uma das tesoureiras: cada um fica com um caderno onde os repasses são anotados.

A gente sempre estimula que as pessoas façam também cadernetas coletivas, para juntar dinheiro para um objetivo em comum, conta Maria de Fátima. Antes de entrar no grupo, cada poupador define um objetivo. Os mais frequentes são reformar a casa, fazer uma festa para o filho, comprar um eletrodoméstico, adquirir um barco. Quando alguém vem sacar o dinheiro para outra coisa, a gente sempre lembra e reforça que estão poupando para um objetivo. Quando a Ilha de Deus não era urbanizada, muitos poupavam para ajeitar a casa, botar uma cerâmica, comprar algum móvel. Esses eram as metas mais comuns. E, quando eles vinham retirar o dinheiro, a gente dizia para esperar mais um pouquinho, não gastar e focar no objetivo, lembra Elivânia.

Poupar para fortalecer vínculos

A poupança comunitária nasceu na Índia nos anos 1970, a partir de um grupo de mulheres de baixa renda que viviam em condições precárias e sofriam ameaças de despejo. Elas decidiram juntar o pouco dinheiro que sobrava do dia a dia para formar um fundo coletivo. Com ele, conseguiram construir suas próprias casas priorizando as que estavam em situação de maior vulnerabilidade.

O modelo atravessou fronteiras e chegou ao Brasil disseminado pela Slum Dwellers International (SDI), organização presente em 33 países da África, Ásia e América Latina, formada por uma rede de entidades da sociedade civil e iniciativas populares baseadas na autogestão.

No Brasil, a metodologia é representada pela Rede Interação, associação sem fins lucrativos fundada em 2004 em São Paulo, que já atuou em mais de 70 cidades em 18 estados. Foi por meio dessa rede que a poupança comunitária chegou à Ilha de Deus, em Recife, em 2008, trazida por Lúcia Siqueira, coordenadora da Rede Interação no Recife, que conhecia lideranças locais envolvidas no processo de urbanização da ilha.

Segundo a Rede Interação, a poupança tem dois propósitos centrais: melhorar a gestão financeira individual e coletiva e, principalmente, construir relações de confiança e fortalecer vínculos dentro da comunidade. Não é um projeto, mas um processo. A metodologia que trabalhamos com organização comunitária é apoiada em um tripé com poupança comunitária, intercâmbios e autorrecenseamento, explica Lúcia. Eu acredito muito nessa metodologia. Primeiro, porque não personifica em uma liderança só, tem como base a organização comunitária. E não é um projeto pontual, é algo que coloca o protagonismo nas mulheres, que eram donas de casa e aos poucos foram se empoderando, afirma a coordenadora.

O dinheiro é depositado pelas tesoureiras em uma conta não solidária da Caixa Econômica Federal, que é uma conta conjunta que exige a assinatura de todos os envolvidos para fazer a retirada do dinheiro. Assim, quando um poupador avisa que pretende sacar o dinheiro que juntou, é preciso que as três tesoureiras do grupo compareçam juntas ao banco.

É um mecanismo que ajuda a evitar compras por impulso, ainda mais quando se leva em conta o índice de endividamento de 80,2% das famílias brasileiras registrado em março de 2026, o maior da série histórica iniciada em 2010, segundo a Confederação Nacional do Comércio. Tem gente que tem cartão de crédito e pede para abrir uma poupança porque sabe que aqui consegue juntar o dinheiro, conta Ana Mirtes Ferreira. Essa exigência também ajuda as pessoas que já estão viciadas nesse negócio de jogo de tigrinho e nessas bets a economizar alguma coisa, diz Fátima.

Poupança ajuda a realizar sonhos

Na Ilha de Deus, a maioria da população está envolvida de um jeito ou de outro com a pesca. A compra de um barco significa independência e a possibilidade de fazer um dinheiro rápido e certo. “Tem pessoas que têm cursos técnicos, formações de grau superior e, mesmo assim, pescam. A maré dá essa estabilidade para o pescador de fazer o seu horário, de não ter necessidade de bater ponto, nem de dar satisfação a ninguém, diz Fátima.

Mãe solo de quatro filhos, Noêmia Fernandes dos Santos passava os dias nas águas da bacia do Pina e do porto do Recife. Ia em busca do sururu, que por tantos anos sustentou a família dela e de tantas outras mulheres da comunidade, mas lida diária era prejudicada por não ter um barco próprio: um balde de sururu ou marisco era usado como pagamento para o usar o barco dos outros.

Possuir um barco significa a garantia de autonomia para quem vive da pesca

Crédito: Arnaldo Sete/Marco Zero

Com muita dificuldade, fui economizando pouco a pouco, a poupança me ajudou a ter meu próprio barco. Confesso que foi muito difícil, porque criei quatro filhos sozinha, sem ajuda de ninguém, conta Noêmia. A minha trajetória de economizar meu trocado para fazer um barco para mim serviu para incentivar outras mulheres a economizarem também, diz ela, que, em 2012, se tornou uma das tesoureiras do projeto. Já teve muitas mulheres que pouparam comigo. Umas fizeram barco, outras construíram um muro ou reformaram a casa.

Para ela, a poupança comunitária transformou mais do que a parte financeira. “Antes da poupança eu era dona de casa, pescadora, não participava de nada, não tinha vez e voz para nada. Quando comecei a formar grupos de poupança, veio fortalecimento tanto para mim como para outras mulheres, reforça.

Da Ilha de Deus para o mundo

As líderes da poupança comunitária já fizeram intercâmbios em vários países, como Bolívia, África do Sul, Filipinas e Índia, para conhecer como funciona a poupança nesses países e trazer novas experiências para a Ilha de Deus. São lugares em que a vida é ainda mais difícil do que na Ilha de Deus onde quase todo mundo tem casa de alvenaria com saneamento básico, há creche e posto de saúde para atender a comunidade.

Quando Fátima foi visitar a Índia, conheceu mulheres que faziam grupos de poupança para construir banheiros nas casas delas. Elas poupam também para alimentação, para fazer sua moradia. Quando fui para a Índia, o que mais me interessou é que muitas delas não sabiam ler nem escrever, então usavam os lenços delas para usar como medida, no lugar da fita métrica, nas construções que faziam, lembra a líder comunitária. Muitas poupavam também para comprar comida em grande quantidade e, assim, economizar, acrescenta.

Na Ilha de Deus, as necessidades também não são as mesmas de 18 anos atrás. Antes e durante a urbanização, que foi entregue em três etapas, fazer reformas e reparos nas casas eram os principais objetivos. Isso mudou com a entrega das casas aos moradores. Em países como a Índia não existem as políticas públicas que a gente tem aqui, como habitação, benefícios sociais como o Bolsa Família, escola pública para todo mundo. Então lá as mulheres têm mais necessidades e levam mais a sério o hábito de poupar, porque eles poupam para construir, para educação. Aqui, com as melhorias que tivemos, já se poupa para algo individual, compara Mirtes.

O futuro da poupança comunitária

Na terceira vez que foi para a África do Sul, Fátima não viajou sozinha. Ao lado dela foram quatro jovens de outras comunidades do Grande Recife: Ilha de Deus, Caranguejo Tabaiares, Afogados e Tururu, em Paulista. Lá, conheceram experiências de jovens que se juntavam e poupavam um dólar por semana para produzir vídeos de conscientização sobre a importância da reciclagem, por exemplo.

A poupança jovem é vista pelas mulheres como uma forma de mobilizar o futuro da Ilha de Deus e fomentar novas lideranças. Trabalhamos com temáticas. Por exemplo, pegamos o tema do direito da juventude e levamos os adolescentes para participar de fóruns da juventude, seminários, tudo voltado para que eles possam entender que existe uma lei que assegura os direitos da juventude na cidade do Recife. Os jovens começaram a se interessar e foram convidando um amigo, convidando outro e assim está crescendo, diz Mirtes.

O tema das mudanças climáticas também é forte nas ações da Poupança Comunitária. Não é só sobre dinheiro. O nosso objetivo principal é juntar as pessoas, formar novas lideranças. Mobilizar a comunidade para pensar sobre o futuro, pensar em modificar a nossa realidade juntos. Para a gente, é de extrema importância trabalhar com a juventude, porque eles darão continuidade a essa mobilização. O nosso trabalho não vai parar, nem vai morrer com a gente, afirma Mirtes.

<+>

Quem quiser apoiar as ações da Poupança Comunitária pode fazer uma doação via Pix: [email protected]

O post A poupança que junta gente: o movimento das mulheres que transformou a Ilha de Deus apareceu primeiro em Marco Zero Conteúdo.

Tags:
Direitos Humanos | empoderamento | ilha de deus | mulheres | poupança comunitária

Marco Zero - A poupança que junta gente: o movimento das mulheres que transformou a Ilha de Deus